CRÍTICA | Resident Evil 5: Retribuição

Ação
// 13/09/2012

E eis que a franquia cinematográfica de Resident Evil chega ao quinto capítulo, aparentemente imune à febre hollywoodiana dos reboots. Desta vez, a história se passa – de certa forma – em Tóquio, Nova York, Moscou e Washington, e traz o retorno – de certa forma – da personagem Rain, interpretada pela monotemática Michelle Rodriguez. A boa performance da protagonista Milla Jovovich e um punhado de cenas decentes de ação estão entre os (poucos) méritos do filme.

Resident Evil: Retribuição
Por Gabriel Costa 

Se adaptações de livros ou histórias em quadrinhos para o cinema geram discussões acaloradas entre os fãs dos originais em questão, quando se trata de videogames a situação costuma ser ainda mais espinhosa. Afinal, as obras do meio nem sempre oferecem histórias ricas o suficiente para serem transportadas de forma digna para a tela grande. Não é o caso aqui. Mesmo com a atmosfera de filme B, os games da série Resident Evil sempre ofereceram um prato cheio para cineastas interessados. No entanto, o satisfatório primeiro longa já trazia um universo algo distante dos jogos e, ainda que ao longo das continuações uma tentativa de aproximação tenha sido feita com a introdução de personagens conhecidos, a franquia ainda se mantém imperdoavelmente distante do universo apresentado pela empresa japonesa Capcom. É importante ressaltar: o problema não é apenas a discrepância conceitual, e sim a ausência de elementos que substituam à altura os temas descartados.

Resident Evil: Retribuição traz de volta à direção Paul W.S. Anderson, que comandou o original de 2002 e o quarto filme, de 2010, e escreveu todas as produções da série para o cinema. Evidentemente, a esposa de Anderson, Milla Jovovich, também retorna ao papel da super-humana Alice, ao mesmo tempo produto, vítima e algoz do conglomerado global Umbrella. Nesse ponto da cronologia dos filmes, o mundo como o conhecemos já foi pras cucuias, conforme explica a própria Alice em uma preguiçosa recapitulação dirigida diretamente ao espectador. A ação tem início quando uma embarcação em alto mar, carregando os esparsos sobreviventes dos episódios anteriores, é atacada pelas tropas da onipresente corporação. Durante a bizarra sequência de abertura, a ação acontece de trás pra frente, não por meio de uma simples inversão na ordem das cenas, mas com os personagens literalmente andando para trás, apenas para que em seguida a exata mesma série de acontecimentos seja apresentada na ordem “normal”.

Apesar de ser baseada numa série de jogos cujos antagonistas primários eram zumbis, a franquia cinematográfica nunca deu lá muita atenção aos mortos-vivos. Aqui, ainda na parte inicial, Anderson busca remediar isso com uma sequência mais próxima de filmes como o remake de Madrugada dos Mortos, Extermínio ou mesmo a série The Walking Dead, e acaba criando um dos bons momentos da obra. Após essa espécie de flashback, Alice acorda em uma instalação da Umbrella, prisioneira do supercomputador Red Queen, vilão(a) do primeiro filme, e da ex-heroína Jill Valentine (Sienna Guillory, em atuação terrível), que sofreu lavagem cerebral.

Para escapar do local, a protagonista terá que atravessar cenários de simulação de epidemias dos vírus vendidos pela organização maquiavélica em diversas cidades do mundo, contando com a ajuda de Ada Wong (Bingbing Li) e do grupo de mercenários liderado por Leon Kennedy (Johann Urb) e composto por Barry Burton (Kevin Durand) e Luther West (Boris Kodjoe, responsável pela melhor interpretação depois de Jovovich), entre outros, todos enviados pelo ex-cabeça da Umbrella, Albert Wesker (Shawn Roberts, também constrangedor). Para complicar ainda mais as coisas, Alice tem sob sua responsabilidade a pequena Becky (Aryana Engineer), filha de uma de suas inúmeras clones, por quem desenvolve um instinto maternal. Obviamente, a trama rasa nada mais é do que um pretexto para Alice e companhia detonarem zumbis, soldados anônimos da Umbrella e alguns monstros sortidos de maior porte. Michelle Rodriguez faz hora extra em dois papeis, um junto aos vilões e um ao lado dos heróis, e Colin Salmon completa o time de antagonistas como o também ressurreto One.

A ação é bem elaborada, embora na maioria dos momentos não traga nada de novo e apele para a já batida estética Matrix de balas, golpes e acrobacias em câmera lenta, raios X de ossos sendo quebrados e poses pós-queda dos adversários. Uma razoável perseguição automobilística e o uso divertido da tecnologia 3D apimentam um pouco as coisas, mas, diante do desenrolar precário, Anderson acaba mesmo levando a melhor quando assume a abordagem de filme B – ocasionalmente C – em sua totalidade, como na sequência solo final de Barry, conduzida com tamanha cara-de-pau que justifica sozinha uma das pipocas da nota acima.

Enquanto o rumo mal definido dos filmes sempre encontrou resistência por parte da crítica e o pouco carinho em relação à obra original desagrada os fãs, a continuidade da franquia prova que ela de alguma forma encontrou um nicho significativo de espectadores fiéis. Assim, ao sair do cinema se perguntando onde exatamente ficou a retribuição prometida no título, o público leva a promessa de mais um capítulo na saga, que, de acordo com Anderson e Jovovich, será o último. Misericordiosamente.

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Resident Evil: Retribution (Alemanha/Canadá, 2012) Ação/Terror/Ficção científica. Davis Films/Impact Pictures
Direção: Paul W.S. Anderson
Elenco: Milla Jovovich, Michelle Rodriguez, Sienna Guillory

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