CRÍTICA: Rio Congelado

Críticas
// 19/02/2009

O dia 22 se aproxima e as apostas para a maior festa do cinema já são quase certas. As opções são muitas e difíceis. Concorrendo a dois prêmios (inclusive o de melhor atriz), Rio Congelado, que estréia na próxima sexta por aqui, parece não ter fôlego para arrebatar as estatuetas. Será?

Rio Congelado
Por Matusael Ramos

Aclamado essencialmente pela competente atuação da atriz americana Melissa Leo – até então relegada a papéis pouco expressivos – Rio Congelado, cuja história transcorre na gélida fronteira entre EUA e Canadá, se apresenta como um drama familiar inconstante, oscilando entre o cru e o sentimental, onde as dificuldades exigem alternativas imediatas e pouco tempo para ponderações.

No longa, Ray Eddy (Melissa Leo) interpreta uma mãe batalhadora cujo marido, viciado em jogos, foge com o dinheiro da compra de sua nova casa. Abandonada, Ray precisa se reestabelecer e zelar pelos dois filhos, embora o pouco que receba no trabalho mal lhes garanta o sustento. Eis que um imprevisto acaba por colocar uma jovem mão solteira em sua vida: Lila Littlewolf, uma índia mohawk que atua como atravessadora de imigrantes clandestinos – chineses e paquistaneses – na fronteira com o Canadá. A inesperada parceria que se segue tem objetivos semelhantes, intimamente ligados a família: enquanto Ray quer apenas o dinheiro restante para quitar a dívida de sua casa e garantir algum conforto aos filhos, Lila precisa reaver o seu bebê, cuja ex-sogra a impede de criar. As referidas operações de atravessação se dão sobre as águas congeladas do Rio São Lourenço, numa metáfora válida sobre a imprevisibilidade e os riscos a que estão submetidas.

Melissa Leo faz um trabalho irretocável. A princípio chorosa, as circunstâncias levam sua personagem a momentos de praticidade e frieza compreensíveis – como ao final de uma travessia em que descobre que cometeu um engano potencialmente letal e com assustadora objetividade tenta repará-lo. O quê de amargura inerente do seu olhar contrasta com sua resignação: não há tempo para lamúrias embora motivos existam ( do seu velho trailer em que já não resiste ao inverno rigoroso a geladeira vazia). O restante do elenco está muito bem, o que talvez se justifique pela originalidade dos personagens: contrariando a ordem natural por exemplo, os filhos compreendem a situação e até se propõem a cooperar.

Muito se falou do amadorismo da diretora Courtney Hunt ao pontuar cenas demasiado sentimentais num filme de natureza crua, como ao potencializar a pobreza da familia insisitindo em takes em que Ray aparece contando dinheiro. O fato é que se tal pobreza existe e o filme se propõe a justificar as ações da mãe, as cenas são sim convenientes. Não há grandes chamarizes técnicos, à excessão da fotografia predominantemente natural das paisagens gélidas do norte estadunidense – que agrega alguma sobriedade ao filme – e da quase ausência de maquiagem dos atores.

Ainda que vencedor do prêmio do júri de melhor filme no festival de Sundance em 2008, Rio Congelado não empolga, nem tampouco parece ter cacife para o Oscar (o filme ainda concorre a melhor roteiro original). Ora pois, tanto gelo e frieza parecem ser recíprocos.

Frozen River (EUA, 2008). Drama. Sony Pictures.
Direção: Courtney Hunt
Elenco: Melissa Leo, Misty Upham, Michael O´Keefe, Mark Boone Junior

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Críticas, Drama