CRÍTICA | Rio, Eu Te Amo

Críticas
// 17/09/2014

Coletânea de breves histórias de amor ambientadas na cidade maravilhosa e assinadas por cineastas nacionais e estrangeiros, Rio, Eu Te Amo atravessa os altos e baixos que fatalmente poderíamos esperar de um projeto cujas rédeas criativas foram distribuídas por tantas e tão diferentes mãos.

Rio, Eu Te Amo
por Eduardo Monteiro

Antologias representam uma experiência atípica para o espectador convencional de Cinema. Ao contrário dos longa-metragens regulares, essas coletâneas de curtas – geralmente unidos por um tema ou por uma proposta comum – contam com um ritmo absolutamente particular, já que pequenos ciclos narrativos completos são iniciados e concluídos diversas vezes ao longo da projeção, exigindo que o público se adapte a personagens, conflitos, linguagens, abordagens e tons novos e distintos a todo momento. Além disso, ao distribuir o controle criativo por diversas mãos, a produção assume o risco de culminar em uma obra tanto irregular em qualidade quanto rica em sua diversidade.

Rio, Eu Te Amo, de modo geral, relaciona-se com todas as características apontadas no parágrafo anterior. Terceira entrada da franquia Cities of Love (que já passou por Paris e Nova York), o filme conta breves histórias de amor ambientadas na chamada cidade maravilhosa, comandadas tanto por cineastas locais (os cariocas José Padilha, Andrucha Waddington e Carlos Saldanha, o paulistano Fernando Meirelles e o austro-brasileiro Vicente Amorim) quanto por artistas internacionais (o americano John Turturro, o mexicano Guillermo Arriaga, o italiano Paolo Sorrentino, o australiano Stephen Elliott, a libanesa Nadine Labaki e o sul-coreano Sang-soo Im). Abraçando (ou não) hábitos, costumes, figuras e cenários tradicionais e icônicos da cidade, Rio, Eu Te Amo arrasta o espectador por uma jornada que oscila entre doçura, humor, melancolia, ternura, indiferença e, eventualmente, embaraço.

Neste sentido, a colaboração de Sang-soo Im talvez seja a mais incompreensível: com uma bizarra trama de vampirismo que jamais diz a que veio, o sul-coreano ainda consegue desperdiçar o talento do veterano Tonico Pereira, cuja composição inquieta e excêntrica desperta a curiosidade do público em vão, uma vez que o personagem e a trama nunca se tornam interessantes o suficiente. Da mesma forma, o episódio assinado e protagonizado por John Turturro decepciona por se concentrar em uma crise de relacionamento desinteressante entre um americano e uma francesa e ambientá-la em um cenário muito neutro, soando demasiadamente alheio à realidade carioca e, portanto, contribuindo pouco para a proposta do projeto. Já o fragmento comandado por Carlos Saldanha (conhecido pelo trabalho nas franquias de animação Rio e A Era do Gelo), estrelado por Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer como um casal de bailarinos, apoia-se inteiramente no clichê da grande oportunidade de trabalho que, oferecida a apenas uma das partes da dupla, cria uma fissura na relação, funcionando moderadamente graças à forma como o número de balé desempenhado pelo casal e a tentativa de conciliação são entrelaçados.

Quase excluído do corte final em decorrência de burocracias envolvendo os direitos de uso de imagem do Cristo Redentor, o curta de José Padilha é uma das grandes decepções da antologia: com Wagner Moura no papel de um homem que decide arejar a cabeça voando de asa delta pelo céu carioca, o episódio é repleto de lacunas e deixa o público tão no ar quanto o personagem, criando um sentimento inapropriado de incompletude. Aliás, a resolução é o que quase compromete o trabalho de Andrucha Waddington, que, reprisando diversas parcerias (Eduardo Sterblitch e Stepan Nercessian, de Os Penetras, Regina Casé, de Eu Tu Eles, e a sogra Fernanda Montenegro, de Casa de Areia), dá a seu pequeno conto uma amarração doce e catártica, mas um tantinho insatisfatória e abrupta – nada que a atuação impecável da sempre magnífica Fernanda Montenegro, no papel de uma moradora de rua idosa, não consiga abafar.

Por outro lado, embora também conte com um final aberto, a contribuição de Guillermo Arriaga é uma das mais interessantes: ambientado em cenários hostis e desesperançosos e povoado por personagens sofridos e miseráveis – marcas registradas do trabalho do mexicano como roteirista (Amores Brutos, 21 Gramas, Babel) -, “Texas” é, de longe, o episódio mais soturno do longa, conduzindo o casal vivido por Land Vieira e Laura Neiva através de um delicado dilema cuja resolução, em uma decisão acertada, é omitida do público. E enquanto Fernando Meirelles desenvolve um interessante, divertido e atraente exercício de estilo em um dos cenários mais emblemáticos da capital fluminense – o calçadão de pedras portuguesas em formato de ondas -, Nadine Labaki oferece aquele que talvez seja o mais adorável e arrebatador trecho da coletânea, mesmo contendo uma evidente veia manipuladora: em “Milagre”, a cineasta libanesa lança luz sobre a inocência da infância como uma força motriz da vida desprovida de luxo e por vezes sofrida de crianças carentes, apresentando ao público o incrível, jovem e espontâneo Cauã Antunes no papel de um garoto que monta guarda diante de um telefone público esperando uma ligação importantíssima de Jesus Cristo em pessoa.

Por fim, os trabalhos de Paolo Sorrentino e Stephan Elliott, mesmo contando com presenças internacionais como Emily Mortimer e Ryan Kwanten, não conseguem causar impressões muito fortes, ao passo que o casinho desenvolvido nas transições, sob o comando de Vicente Amorim, faz bem o serviço de sugerir que aquelas histórias coexistem em um mesmo espaço-tempo. No mais, Rio, Eu Te Amo acaba se estabelecendo como um passatempo mediano em que tanto os méritos quanto os deméritos acabam sendo diluídos em meio aos vários altos e baixos e à avalanche de rostos conhecidos.

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