CRÍTICA | Rogue One: Uma História Star Wars

Críticas
// 15/12/2016

Após o mais recente período de inatividade, quebrado no ano passado por O Despertar da Força, a saga cinematográfica Star Wars retoma velocidade de cruzeiro com Rogue One: Uma História Star Wars, um spin off que executa com louvor a função de explorar um elemento fundamental da trama original sem contradizer ou descaracterizar o material, com estética deslumbrante e ambientação impecável, mas, enquanto filme fechado, peca no desenvolvimento dos dramas de personagens rasos – o que, aliás, não chega a ser estranho à série –, no ritmo muitas vezes lento e na falta de antagonistas próprios dignos de dividirem a tela com um dos maiores anti-heróis/vilões da história.

Hoje parece difícil de imaginar, mas, por quase duas longas décadas – entre 1983, ano de lançamento de O Retorno de Jedi, último filme da trilogia original, e 1999, quando foi lançado A Ameaça Fantasma – o universo Star Wars esteve afastado de quaisquer contatos com a tela grande. Ao longo desse período, histórias paralelas, anteriores ou posteriores à saga de Anakin, Luke, Han, Leia e seus numerosos companheiros, ajudantes, mestres e nêmesis eram relegadas ao chamado Universo Expandido, hoje em grande parte desconsiderado, na forma de livros, animações e filmes para a TV e inúmeros e célebres videogames. O fato de que, em 2016, uma história tão periférica à trama central, em termos dos personagens envolvidos, ganha seu próprio longa metragem, lançado com todos os requintes de um verdadeiro blockbuster, é tanto um testemunho da força – com ou sem trocadilho – que a saga provou manter na cultura pop mundial quanto da espetacularização dessa mesma cultura, bem como do nosso recente e atual vício em lançamentos-evento, em todos os meios.

Por esse viés, é curioso ainda notar que o ponto-chave em que Rogue One se localiza na cronologia geral de Star Wars fica entre as duas trilogias já completadas, e não próximo à iniciada ano passado, o que evidencia o posicionamento da nova patroa Disney no dilema entre nostalgia e inovação. Esse ponto, no caso, é o momento em que a Aliança Rebelde toma consciência da existência de uma fraqueza na arma definitiva do Império Galático, a Estrela da Morte. A esperança, aqui, é depositada não nas mãos de um jedi em treinamento, e sim nas da jovem rebelde – não confundir com Rebelde – Jyn Erso (Felicity Jones), filha de um dos cientistas responsáveis pela criação da gigantesca superarma, Galen Erso (Mads Mikkelsen). Ao longo da missão, ela é auxiliada pelo oficial da Aliança Cassian Andor (Diego Luna) e o divertido – e irritante – robô imperial reprogramado K-2SO (Alan Tudyk).

Ainda que a maior parte do apelo do filme esteja em apresentar elementos clássicos da mitologia da série criada por George Lucas em perspectivas e ambientes inéditos, o diretor Gareth Edwards (de Monstros, de 2010, e o reboot do Godzilla de 2014) consegue imprimir uma identidade própria em elementos como a caracterização dos guerreiros veteranos Saw Gerrera (Forest Whitaker) e Baze Malbus (Wen Jiang), que poderia ser definida como “pós-império”, unindo armaduras surradas com tecidos, dreads e proto-respiradores, e no humor particular de K-2SO, que acaba sendo um dos destaques do longa, ao lado do monge cego da Força Chirrut Îmwe (Donnie Yen). Aliás, outra peculiaridade que contribui para que o filme tenha um tom diferenciado é o distanciamento dos assuntos dos jedi. Até a própria Força é abordada com bastante moderação, e só se revela realmente em ação nas mãos de um de seus grandes mestres, como deveria ser.

Infelizmente, todos os personagens citados no parágrafo acima são muito mais interessantes que os protagonistas Jyn Erso e Cassian Andor, e também que o insosso diretor Krennic, antagonista interpretado por Ben Mendelsohn. Assim, os momentos mais memoráveis do filme acabam ficando a cargo de uma das melhores cenas já filmadas com o Lorde Sith favorito de todos nós e da épica e maravilhosa batalha final nas praias de Scarif. Resta seguir aguardando o momento em que o público seja presentado com uma história Star Wars cujo maior atrativo não seja a familiaridade.


Rogue One (EUA, 2016). Aventura / Ficção científica / Fantasia. Lucasfilm.
Direção: Gareth Edwards
Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Mads Mikkelsen, Forest Whitaker, Alan Tudyk, Donnie Yen, Ben Mendelsohn

Comentários via Facebook