CRÍTICA: Salve Geral

Críticas
// 01/10/2009

O filme brasileiro selecionado para concorrer à uma vaga ao Oscar 2010 de Melhor Filme Estrangeiro estreia nesta sexta-feira. Apesar do tema abordado no longa – motivo de contrariação de muitos acerca de sua indicação à disputa do prêmio – Salve Geral desenvolve um drama que mistura vários conceitos cidadãos e utiliza o crime organizado como uma ambientação de maneira inteligente.

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Salve Geral
por Cássia Ferreira

Sérgio Rezende, diretor de Salve Geral, que chega aos cinemas no próximo dia 2 de outubro, afirmou que a realidade não pode ser transportada para as telas. Mesmo que não possa, a realidade serve como matéria-prima e é o caso do mais recente trabalho dele, protagonizado por Andréa Beltrão e que foi escolhido pelo Brasil para tentar a vaga na disputa de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar.

No longa, Beltrão é Lúcia, uma professora de piano que é obrigada a se mudar para a periferia de São Paulo e tem sua vida alterada depois que seu único filho, Rafa (Lee Thalor, que faz a sua estreia em cinema) é preso. Em razão disso, Lúcia acaba se envolvendo com uma facção criminosa. O ápice do drama acontece durante os atentados realizados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), em maio de 2006.

Beltrão realiza um trabalho limpo e consegue transportar para a tela todo o drama e angústia daquela mãe. O figurino e, principalmente a maquiagem, ajudam na construção da personagem. Em uma das visitas ao filho à cadeia, Lúcia conhece Ruiva (Denise Weinberg), advogada da facção criminosa, para quem começa a prestar serviço.  Uma atenção especial deve ser dispensada a atuação de Denise, que acabou no papel de Ruiva por acaso, já que ela estava auxiliando o diretor na prospecção dos atores. Ela se sai muito bem como a envolvente Ruiva, que é quem leva Lúcia para cumprir deveres para organização criminosa em troca de artifícios para redução da pena de Rafa.

No transcorrer do filme somos levados a fazer uma série de considerações. A primeira delas chega a ser curiosa: é que, de certa forma, os dois longas mais recentes de Rezende envolvem histórias de mães e filhos. O anterior, Zuzu Angel, também tratava, a princípio, do drama de uma mãe (embora saibamos que a história é um pouco maior do que isso). Em segundo lugar, é importante voltar os olhos para o papel das mulheres nas organizações criminosas. Se considerarmos a criminalidade como uma versão torpe da nossa realidade, as mulheres estão fazendo o mesmo caminho do mundo atual, e assumindo seu lugar na sociedade. Elas não só fazem o trabalho burocrático, como também ocupam o posto dos homens (presos, evidentemente) nas tomadas de decisões e no comando das atividades.

O filme tem um desenrolar eletrizante e o desfecho acontece naquele fatídico dia das mães de 2006, que sitiou a maior cidade da América Latina e deixou um saldo de mais de uma centena de mortos, sem mensurar todo o prejuízo financeiro. Todo o processo é desencadeado quando os principais líderes da facção criminosa são transferidos, sem razão aparente (como se houvesse necessidade do estado justificar suas ações) para o interior de São Paulo. Salve Geral é uma gíria, tal como um recado. O caos que se seguiu, boa parte das pessoas se lembra.

O roteiro é assinado por Rezende em parceria com Patrícia Andrade e nos traz uma história bem costurada e que ganha ritmo conforme o tempo passa, até chegar ao ápice com direito a cenas de perseguição dignas de Hollywood. As filmagens de Salve Geral aconteceram no segundo semestre de 2008 e início de 2009, em cinco cidades: Paulínia e Campinas, no interior paulista, Rio de Janeiro, São Paulo e Foz do Iguaçu. O principal pólo de produção foi montado em Paulínia, onde a equipe passou sete das onze semanas de filmagem. No Rio, as filmagens se concentraram no presídio desativado da Frei Caneca.

Embora muita gente vá reclamar da escolha do filme para tentar representar o Brasil no Oscar, ele tem elementos que podem nos garantir alguma chance na disputa. Ressaltando que a violência – e tudo que decorre dela – é apenas o pano de fundo para desenrolar o drama familiar e reflexões sobre limite, ética e moral.

De certa forma, Sérgio Rezende consegue transpor um pouco de realidade para a tela. Mas esse não é o seu desejo. O diretor foi bastante feliz no desenvolvimento do roteiro e na condução dos atores. No seu trabalho como diretor, conseguiu mandar, de maneira consistente, um Salve Geral para o espectador. Torçamos para que seja entendido e perpetrado com consequências positivas. Afinal, a sétima arte também pode ser engajada.

nota_9Salve Geral (Brasil, 2009). Drama. Sony Pictures.
Direção: Sérgio Rezende.
Elenco: Andréa Beltrão, Lee Thalor, Denise Weinberg.

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Categorias
Críticas, Drama, Nacional