CRÍTICA | Sede de Sangue

Críticas
// 14/08/2010
sede-de-sangue

Se, na sua trilogia da vingança, Park Chan-wook filmou tramas movidas pela sede de sangue, neste ela se materializa como essência da obra. Materialidade, de fato, é a tônica de Sede de Sangue. Contornando a moda sonolenta de vampiretes bom-moços, aburguesados e insossos, o diretor coreano apresenta a volúpia assassina do desejo levado às últimas conseqüências. Na tradição sadiana, reafirma-se a tese do Marquês de que: “o melhor meio de se familiarizar com a morte é ligá-la a uma ideia libertina”. Morte e prazer tradicionalmente convergem em filmes-de-vampiro. Porém, em Sede de Sangue, o “sobrenatural” é todo ele corpo e matéria.

O protagonista Sang-hyun faz o caminho contrário da ascese. De padre a vampiro, rende-se à carne e passa a profanar o espiritual, o religioso, a moralidade. No cálice de Sang-hyun, a hóstia vira sangue, em conhecida metáfora. O sacramento serve de pretexto para sugar as vítimas. A batina inspira o respeito necessário para garantir o engodo do monstro.

Na estética, nada de palidez ou morbidez românticas. Eis um vampiro carnal, corado, libertino — tão epitelial que o seu reflexo sequer desaparece no espelho. O resquício de consciência não o impede de explorar, enganar, conspirar e matar. Assassina o marido de sua amante, Tae-ju, que também se tornará criatura das trevas, formando o par “romântico”. E como, na guerra e no amor, as mulheres são mais bárbaras (Nietzsche), a vampira vai demonstrar que, num mundo ateu e amoral, tudo é permitido. Para Tae-ju, a lei existe para ser violada (“assim é mais gostoso”).

A luta entre a consciência culpada e o excesso destruidor personifica-se no drama do casal. Aí, Sede de Sangue debate com o Anticristo de Lars von Trier. Lá como cá, o homem se assusta ante o apetite incontrolável da mulher potente, liberta de culpa, e decide dar um basta ao desregramento. No filme de Trier, o homem aniquila o monstro que criou, para sobreviver, e então foge. No de Chan-wook, vai mais longe: além de matá-la, ele também se destrói no processo. É que, em Sede de Sangue, o homem percebe que no final das contas é o maior culpado dos males causados. Daí precise apaziguar a má-consciência pela via de um martírio anônimo, de que ele se regozija. Curioso como ambos os longas foram injustamente acusados de misoginia. Em verdade, eles ressaltam a potência de mulheres afirmativas que, como Medéia ou Lady MacBeth, têm a sua hora do lobo.

A matéria viva não é exaltada ao se tentar mostrar tudo, como nos gêneros gore ou pornô, mas numa composição precisa articulando texturas, sons, cores, respirações. O erotismo atinge o ápice na sequência em que o religioso resiste à cupidez do encontro amoroso, mas é vencido pela (terrível) nudez feminina. A tensão entre afirmação e negação do desejo não pode ser conciliada na consciência e vai resolver-se somente pelo gozo. Uma resolução todavia passageira. O desejo irá renovar-se em moto perpétuo — princípio ativo do universo, para os materialistas.

Assim, ensanguentado do início ao final, Sede de Sangue é um filme sobre a maldição da potência do corpo, entre o erotismo e a violência, entre o prazer e a dor, entre o gozo e a moral. Um filme sobre a desmedida constitutiva do homem, num materialismo radical que os conhecedores de 120 Dias de Sodoma ou Filosofia na Alcova vão identificar. O sangue/matéria erige-se assim como o denominador comum do mundo, a única forma de comunicação entre seres sem alma, sem participação no divino, sem sentimento de culpa.

A crítica tachou-o, por um lado, de ambicioso, autoral e inventivo. De outro lado, pretensioso, afetado e exagerado. As duas opções significam a mesma coisa: um filme singular e expressivo. Em qualquer caso, potente, chega em boa hora diante da insipidez de vampirinhos e pós-gnomos azulados.

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Bakjwi (Coreia do Sul, 2009). Terror.
Direção: Park Chan-wook
Elenco: Song Kang-ho, Kim Ok-bin, Kim Hae-sook , Shin Ha-kyun

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