CRÍTICA: Shame

Críticas
// 17/03/2012

Com um atraso monstruoso, Shame só estreia no Brasil agora porque erroneamente a Academia não quis indicar Michael Fassbender ao Oscar (e por aqui ainda há o equívoco de que Oscar é sinônimo de qualidade total). Mas nunca é tarde demais para se apreciar um excelente filme, melhor do que muito longa que desfilou pela temporada de premiações.

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Shame
por Virgílio Souza

Shame tem início com uma imagem estática de seu personagem principal deitado, impassível, em meio a bagunçados lençóis azuis. O título do longa – Vergonha, em bom português – só surge quando as cortinas são abertas e há interferência externa da luz, que logo toma todo o quarto. Sutil, a sequência de abertura é espelho do que se verá em tela a seguir: Brandon (Michael Fassbender) é um personagem contido, de gestos e palavras mínimas, mas que acaba tomado por vergonha nos (vários) momentos em que seu vício por sexo é externalizado, transparece.

Construído cuidadosamente ao longo da narrativa, o protagonista vê sua rotina ser abalada pela chegada de sua irmã, Sissy (Carey Mulligan), uma figura carente, de fala, gestual e vestes extravagantes, cuja presença é incômoda até mesmo à distância (as centenas de recados deixados na secretária eletrônica do irmão são prova disso). De súbito, Brandon se vê obrigado a encarar cotidianamente alguém que tanto desconforto causa, por razões do passado que o roteiro de Abi Morgan oculta com inteligência, e a controlar seus ímpetos selvagens, seus hábitos doentios.

Doentios, sim, porque é com esse olhar que o diretor Steve McQueen trata a questão. O vício de Brandon não é escandalizado ou condenado pela câmera, que, ao contrário, enxerga-o como alguém fragilizado e emocionalmente incapaz de ultrapassar a barreira da superficialidade em seus relacionamentos. Assim, vemos Brandon agir de forma quase mecânica para satisfazer suas vontades,  suas compulsões – repare como, após flagrar um casal transando através de uma parede de vidro, ele se obstina por “imitar” o ato.

Aqui, revela-se um grande trunfo do longa: uma espécie de estrutura da repetição, que conduz o personagem a situações quase gêmeas, mas donas de fundamentais diferenças, capazes de fazer o espectador compreender seu vício – e, por consequência, compreendê-lo – sem que explicações se façam necessárias. Em um instante, vemos Brandon tratar sua colega de trabalho com frieza e distância, afastando-a, para, em seguida, tratar uma prostituta com cordialidade, quase afeto, oferecendo a ela uma bebida, consciente de que ela não aceitará e a superficialidade requerida será mantida.

Essa lógica é conduzida e repetida com tanta elegância (com o auxílio do habilidoso diretor de fotografia Sean Bobbitt) que é natural vermos Brandon incapaz de transar apenas com a mulher com quem teve mais proximidade e com quem, na noite anterior, havia conversado sobre sua família, seus sonhos, sua vida – indo além da rasidão de suas relações habituais. Mais que um animal selvagem, como seu vício pode sugerir, o protagonista é um animal enjaulado, acuado, preso à imensidão de Nova York, à própria obsessão e ao próprio passado. Nesse sentido, é icônica a sequência em que corre pela cidade à noite: ali, ele corre da irmã, do amigo, do vício, da própria vida. E corre por vários quarteirões, mas acaba engolido pelo que está ao seu redor e, por essa razão, o vemos no canto do quadro, que aparece completamente preenchido por carros, luzes, lixo, tudo.

É preciso elogiar, portanto, a habilidade de McQueen, oriundo das artes plásticas, no comando da câmera. Sem precisar recorrer a pirotecnias, a direção não hesita em alternar longos planos (traço mais marcante de sua curta filmografia, como no diálogo sem cortes no restaurante ou nas repetidas sequências no metrô), travellings (na já mencionada sequência da corrida) e momentos em que recorre às óbvias cores quentes, tão exploradas (sobretudo no ato final).

A maior vitória de Shame, no entanto, não é emular Gaspar Noé ou abordar uma questão polêmica de maneira tão sofisticada. Toda a narrativa serve à construção de Brandon, que ocupa a tela quase na totalidade do longa e que, composto de forma magnífica por Fassbender, é capaz de transmitir tudo com seus olhares contidos. Assim, ele consegue afugentar uma mulher no metrô após encará-la com firmeza durante o que deveria ser um flerte, não uma caçada. Consegue, com um piscar de olhos, um choro quase seco e um abaixar de rosto, mostrar que está perturbado por ter se aproximado, identificado e emocionado com a irmã pela primeira vez após a emblemática (e desconfortavelmente longa) interpretação de Mulligan para New York, New York. E, finalmente, consegue, ao encarar a câmera enquanto atinge um orgasmo, transmitir uma sensação incômoda, de vazio e suplício, como se pedisse ajuda.

No fim das contas, Brandon é um personagem tão sólido que seu vício poderia ser qualquer vício. Não à toa, ele é visto fumando e cheirando cocaína, muito embora o enfoque seja sua compulsão sexual, da qual não consegue se livrar, por mais trágicas que sejam as circunstâncias. E, não por acaso, no momento após o clímax – que torna a seguir a mesma fluidez do primeiro ato, entrecortando momentos para gerar coesão e demonstrar a circularidade inescapável de seu cotidiano –, surge acompanhado pela mesma faixa inicial da arrebatadora trilha sonora de Harry Escott. Surge do mesmo modo que iniciou sua jonada: num mundo de cores frias, sozinho, patético, aprisionado, vulnerável, impotente, doente.

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Shame (EUA, 2011). Drama. Paris Filmes
Direção: Steve McQueen
Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale, Nicole Beharie

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Críticas, Drama