CRÍTICA: Sherlock Holmes

Ação
// 08/01/2010


Estreia hoje em circuito nacional o novo filme de ação (sim, ação) do diretor Guy Ritchie, Sherlock Holmes. Repleto de releituras dos personagens centrais e muito zelo à técnica, o longa do detetive inglês agrada sem precisar de muito.

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Sherlock Holmes
por Arthur Melo

Especulando o fato da Lady Gaga ter se inspirado na diva e somando a existência do longa Destino Insólito, podemos, ao assistirmos a Sherlock Holmes, considerar que, salvo Jesus Luz, Madonna não é boa influência para ninguém. Guy Ritchie, o comandante do novo filme do maior detetive conhecido, pode levantar a placa do “já sabia”.

Não é bem um reboot. Afinal, o termo muito tem sido empregado para definir retomadas de médios a recentes fracassos na indústria do cinema. Sherlock Holmes é apenas uma nova roupagem; definição que se aplica literalmente. Saem a lupa, o chapéu e o longo cachimbo (este famoso nas silhuetas) característicos do personagem e entram um corte elegante e discreto, o perfeito contraponto à versão de Robert Downey Jr. do detetive. Seu mais célebre bordão, “elementar, meu caro Watson” nunca é dirigido a Jude Law. Aniquilando qualquer prova de remota existência do personagem nas telas, a nova produção convence.

Originalidade não é o tipo de conceito que pode ser encontrado em roteiros de espionagem, ainda mais em um que procura remontar um tipo de história que, devido à sua engrenagem funcional justaposta a tramas instigantes, se tornou referência para gerar um tipo de literatura ou modelo narrativo (aplicável em diversas mídias) que vem sendo repetido até hoje, com raros surtos de inovação. Uma observação delicada, que poderia vir a derrubar todo o porte atrativo do filme. Poderia. Não fosse por Downey Jr. e Ritchie, o caso Holmes seria merecedor de arquivamento.

Qualquer semelhança entre o herói enlatado Tony Stark e o investigador britânico é mera coincidência. E isto sim é elementar, de fato. Robert Downey Jr. apenas participou de um tremendo jogo de sorte, no qual ganhou. As personalidades calcadas na extravagância, humor ácido, intelecto e raciocínio rápidos unem os dois personagens, que só se distanciam pelo tamanho da sede ao sexo oposto (digamos “insaciável” para o Sr. Stark, em defesa de Holmes – que realmente precisa). Na prática, o ator sustenta sua indicação ao Globo de Ouro pelo personagem e, graças a esta proximidade entre os dois heróis da ficção que o enfatizam no cinema, repete o excelente uso do talento a ponto de, dentro de construções tão parecidas em filmes de necessidades semelhantes, criar uma individualidade para Holmes, se provando mais apto até do que Johnny Depp para se livrar de fantasmas de super-produções passadas. Ao lado do novamente em forma Jude Law, estabelece um casamento que a doce Mary (Kelly Reilly) não pode competir e tampouco a golpista-heroína Irene Adler (Rachel McAdams) pode ofender. Se antes o Doutor Watson era um reles membro destro do astuto investigador, agora arma crucial parceria ao ganhar importância e força intelectual e bruta a níveis equiparados e, obviamente, se vestindo como detentor de tais qualidades.

Com poucos furos e alguns repetecos salpicados de pequenos e previstos conjuntos de ações e reações dos protagonistas aqui e ali, a história se encaminha bem. O texto é confortável, pontuado por diálogos demarcados por réplicas e tréplicas que conduzem uma trama que em dados momentos pode pegar os mais desprevenidos. Em meio a investigações quase despropositais e pequenos detalhes de encenação que fogem aos olhos, o detetive Holmes já lhe deu duas voltas e tomou a sua frente. E isso tira o direito de se constatar um iminente mar de clichês.

Para incrementar, Guy Ritchie se prova dono absoluto do longa que dirige. Agora munidos das mais diversas artes marciais (tapas até são bem-vindos), Holmes e Watson são jogados a todo tipo de luta braçal ou armada, despenques, explosões e uma série de percalços muito bem arquitetados que enxertam os olhos com o bom uso de técnicas comuns, nas quais o recurso aos efeitos visuais (fora a criteriosa edição de som) só se faz merecido para retocar ou reviver uma Londres secular e espetacular, compondo cenários com bons enquadramentos e tomadas amplas sem qualquer receio. Mérito da boa direção de arte, que sabiamente se preocupou mais com os monumentos externos do que em esbanjar em detalhes de interiores (não que sejam ausentes) e da fotografia, que às vezes acerta em cheio, como no diálogo entre Holmes e o vilão Blackwood entre as grades da prisão. Para assinar e rubricar, faz das poucas sequências de morte um deleite para, no enfoque seguinte, empregar a trilha sonora para expressar comicidade.

Sherlock Holmes só errou feio em um detalhe mínimo, mas crucial para o seu bom andamento nos cinemas: a data de estreia. Para uma produção subestimada por tantos, a concorrência com a terceira semana ainda lotada de Avatar é quase uma tentativa de suicídio. Sairá feliz aquele que, se não o tiver como primeira opção, se dirigir à sala do detetive inglês ao encarar uma projeção esgotada patrocinada por James Cameron. Num preview adiantado, Sherlock Holmes é um bom ponto de partida para 2010. Se prosseguir assim durante o ano, teremos 12 meses de qualidade. Ah… não… Tem Eclipse em junho.

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Sherlock Holmes (EUA/Inglaterra, 2009). Ação. Warner Bros.
Direção: Guy Ritchie
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams, Kelly Reilly.

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Ação, Críticas