CRÍTICA | Shrek

Animações
// 06/07/2010
shrek

“Era uma vez uma linda princesa, mas havia um terrível feitiço sobre ela, que só poderia ser quebrado pelo primeiro beijo do amor.”

Parece um conto de fadas tradicional, mas não se deixe enganar pela introdução de Shrek. Ao contrário do que a frase de abertura possa sugerir, não se trata da bela história de amor entre um príncipe e sua amada. Shrek é, em todos os sentidos da palavra, um ogro: verde, de péssimas maneiras, sem paciência com qualquer um que se aproxime, não gosta de papo, mora em um pântano e, entre outras muitas escatologias, toma banho de lama e arrota sem cerimônia.

Apesar de ser um antissocial convicto e evitar contato com qualquer forma de vida que se aproxima dele, um dia batem à porta de Shrek inúmeros personagens de contos de fadas desalojados de seu “habitat natural”. Temos presenças ilustres como a Branca de Neve, os Três Porquinhos, Pinóquio, Lobo Mau, os Sete Anões e o hilário Burro Falante. Shrek é, então, envolvido em uma trama armada por Lorde Farquaad. Para ver seu pântano livre de todas aquelas criaturas saídas dos contos mais famosos da literatura infantil, Shrek concorda em ir libertar a bela princesa Fiona, aprisionada na torre mais alta de um castelo vigiado por um dragão. O Lorde pretende, na verdade, se casar com a princesa para poder ser proclamado rei, já que não é o herdeiro de nenhum reino. Shrek parte em busca de concluir sua tarefa e leva consigo o seu fiel companheiro Burro, parceria que rende os melhores momentos da animação.

A aposta dos produtores em um personagem completamente fora dos padrões para um longa animado não poderia ter dado mais certo. Shrek satiriza os famosos contos de fada ao mesmo tempo em que, afinal, não deixa também de ser um. O texto incorpora personagens e estórias já impregnadas na cultura popular para brincar com os estereótipos que protagonizam os clássicos, transformados em filmes principalmente pela Disney, estúdio que, em parceria com a Pixar, é a principal concorrente da DreamWorks.

Além de ousar ao escolher ironizar os clássicos, Shrek também se atreveu a levar ao público um tipo de animação que pode, muito bem, ser aproveitado por completo pelos adultos. O longa possui referências que fizeram parte da vida de muitos grandinhos e se atreve a fazer piadas um pouco menos inocentes para a compreensão infantil. Nada exagerado, apenas raramente visto em filmes do gênero. O humor um pouco mais adulto concede a Shrek uma nuance a mais, torna-o interessante qualquer que seja a idade do espectador. Soma-se à sutileza das sátiras uma trilha sonora também singular para um filme, a princípio, infantil. Esqueça as músicas melodiosas, instrumentais e orquestradas. Shrek é repleto de músicas agitadas e sucessos do pop, com destaque a Smash Mouth, que concedeu duas de suas canções para embalar a aventura do ogro verde.

Não seria exagero dizer que Shrek foi o primeiro título a ter coragem de ousar ser animação para adultos. Não que o gênero nunca tenha sido apreciado por aqueles que já passaram da infância, mas, sem dúvida, é o que reserva a linguagem que melhor dialoga com quem já não assiste a desenhos. Cultura pop, sátiras e referências a clássicos infantis e piadas que ultrapassam a linha tênue em que termina o politicamente correto são os elementos que fazem da animação, que também conta com a princesa e seu herói, tão diferente dos outros contos que conhecemos. É uma maneira bem sucedida de usar a máxima do desconstruir para construir.

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Shrek (EUA, 2001). Animação. DreamWorks.
Direção: Andrew Adamson
Elenco: Mike Meyers, Cameron Diaz, Eddie Murphy

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Animações, Críticas