CRÍTICA: Simplesmente Complicado

Comédia
// 25/02/2010

Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia-Musical, Melhor Roteiro e Melhor Atriz Comédia-Musical (Mery Streep), o filme Simplesmente Complicado estreia amanhã em circuito nacional. A divertida comédia romântica resgata o espírito de Alguém Tem que Ceder com uma sinopse um tantinho mais atraente. Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Simplesmente Complicado
por Arthur Melo

Não é de hoje que as comédias, especialmente as românticas, vem recebendo notas fracas. A mesmice que tomou conta das histórias de casais apaixonados parece ter se tornado um padrão ao fiasco que se contenta com um “é bonitinho” proferido pelas moças que se deslumbram fácil com esses contos de fadas mais modernos – exemplos não faltam e juntos formam mais de um parágrafo cheio. Mas há os que se salvam e, numa análise superficial sobre esses casos, já dá para verificar onde está o acerto.

Para alguns, comédia romântica só pode ser rotulada assim se seguir o fio “apresentação, paquera, tensão entre casais (insira também os amigos engraçados que dão dicas aos enamorados), reencontro e beijo”. Fim. Jogue no meio uma série de ocorrências “hilárias” e pronto, o filme está feito. Não estão errados. O erro está, aliás, em acreditar que isto é o suficiente para agradar ou, até mesmo, não cobrar nada além disso. A prova irrefutável do quão apreciável pode ser uma comédia romântica está no delicioso (500) Dias com Ela e no não tão recente Casamento Grego. Se o primeiro torna cômico o romance através dos fatos daquele relacionamento, se distanciando das piadas diretas, o segundo alcançou a glória por enxertar uma série de situações e argumentos com extrema coerência que fizeram do roteiro robusto um primor de criatividade. Simplesmente Complicado, nova comédia da diretora Nancy Meyers, está no centro das duas comédias e repete a boa estratégia da meia-idade de Alguém Tem que Ceder.

Jane (Meryl Streep) é uma mulher divorciada graças à traição de Jake (Alec Baldwin), que a trocou por uma moça jovem que, por sua vez, o traiu no meio do relacionamento e tem agora um filho de cinco anos fruto da pulada de cerca mas, ainda assim, vivem juntos. Para festejar a formatura de colegial do filho caçula, Jane e Jake viajam à Nova Iorque para se reunirem com todos os três filhos (e o noivo da mais velha). Em meio a uma noite solitária na qual os filhos resolvem ter sua própria diversão longe dos pais, a dupla de ex-companheiros se encontram no bar do hotel e se veem novamente atraídos um pelo outro.

Não há, numa primeira passada de olho, qualquer motivação que tornaria a história atraente, não fosse o talento magnético e já indiscutível de Meryl Streep que nos força a olhar com mais atenção o “drama” de sua personagem. O romance de Jane e Jake não passaria de uma aventura desimportante, não fosse a série de complicações que isso pode causar na cabeça dos filhos e dos próprios amantes – agora, literalmente amantes. Se antes Jane era a mulher trocada pela beleza jovial de uma concorrente com menos da metade de sua idade, no atual momento ela dá as cartas. E esse é o grande barato da história, que se complica como bola de neve quando o quadrado amoroso se forma com a presença de Adam (Steve Martin – o único preocupado em esconder a idade e destoar o sentido do papel usando muita maquiagem), o arquiteto responsável pela reforma dos sonhos da casa de Jane.

A boa tacada do filme é não cair na besteira escolhida por quase tudo que é feito para causar riso hoje em dia: estruturar a história em volta das gargalhadas. Pelo contrário. A trama de Simplesmente Complicado é bem narrada o suficiente para se encaminhar sozinha ao longo de todo o filme e, ao mesmo tempo em que gera humor por dar existência ao não-convencional (a troca e posterior inversão de papéis esposa traída/ex-esposa/amante), se utiliza de diálogos e tiradas espontâneas para dar graça aos eventos e ridicularizar o caráter baixo de Jake, fazendo de Jane a heroína da história; e isso independe das falhas cometidas por ela para com o fragilizado Adam.

Em outros níveis da produção, o longa se resume ao esforço do elenco central, ainda que Steve Martin não se saia tão bem nas sequências em que não pretende fazer rir e, mesmo nelas, não é o destaque. Por outro lado, Streep está longe de dúvidas em seja lá o que pretende assumir no filme e é absolutamente segura no que faz em cena. Em patamar parecido está Alec Baldwin, mas impossibilitado de julgamento quando seu papel canastrão não passa do catalisador da comédia. Já John Krasinski, como Harley, noivo da filha mais velha, se torna um divertido aliado indireto de Jane e suporta certo destaque não pela sua atuação, que não possui ressalva alguma, mas por estar envolto pelo núcleo da prole do casal, formada por três atuações jovens grosseiramente instáveis.

Sem ressalvas também é a direção de Meyers, que se pronuncia só quando se descuida em não prestar atenção nos péssimos cortes da edição que estabelecem descontinuidades nas tomadas no longa. Mas, apesar do erro, é firme por não permitir que a coisa toda desande quando há uma ou outra passagem de comédia para chorumelos (tudo bem que a trilha de Heitor Pereira e Hans Zimmer – sem nenhum traço seu – ajuda).

Simplesmente Complicado é uma tomada do melhor das últimas comédias românticas, sustentado por um formato padrão desgastado. O resultado positivo nasce ao dar mais confiança ao roteiro (que só peca na originalidade em certas passagens) do que à necessidade de contar piadas para atender a um parâmetro. Felizmente, se encaminha bem até o seu final acertado e despreocupado em ser “bonitinho”.


It’s Complicated (EUA, 2009). Comédia romântica. Universal Pictures.
Direção: Nancy Meyers.
Elenco: Meryl Streep, Alec Bldwin e Steve Martin.

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Categorias
Comédia, Críticas, Romance