CRÍTICA: Sinédoque, Nova Iorque

Críticas
// 16/04/2009

Estreia na próxima sexta-feira o mais novo projeto do aplaudido roteirista de Adaptação e Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, Charlie Kaufman, Sinédoque, Nova York. Pela primeira vez, Kaufman assina também como diretor de um filme. Leia a crítica em “Ver Completo” e descubra se o novo trabalho do roteirista faz jus a sua fama.

Sinédoque, Nova York
Por Breno Ribeiro

Sinédoque é o nome da figura de linguagem na qual uma palavra é usada no lugar de outra através de uma relação de inclusão entre elas. Por exemplo, se alguém disser “Comprei 5 cabeças de gado”, ninguém pensará em cinco cabeças separadas do corpo, mas sim nos animais inteiros; da mesma forma que a frase “A cidade está em festa” não causaria na cabeça de pessoa alguma a imagem de toneladas de concreto dançando, mas sim em seus habitantes. Dessa forma, o título do primeiro longa do roteirista Charlie Kaufman como diretor, Sinédoque, Nova York já carrega em si muito da idéia do projeto.

Quando o longa começa, Caden Cotard, um depressivo diretor de teatro, está casado com Adele e tem um “caso” não consumado com Hazel, que trabalha na bilheteria do teatro. Quando ele ganha um prêmio que lhe dá direito ao montante de dinheiro que quiser para criar sua nova realização e Adele foge com a filha do casal para Berlim, Caden decide criar uma peça que narre sua própria vida em tempo real e acaba confundindo sua própria existência com a obra que cria.

Em uma atuação que supera a quase perfeita encarnação do Padre Flynn, de Dúvida, Philip Seymour Hoffman demonstra porque é um dos atores mais elogiados de sua geração. Cada olhar, cada gesto e cada tique do depressivo Caden Cotard são tão sutis que nem soam como atuação muitas vezes, mas são perfeitas justamente por acreditarmos no que vemos. Um pouco inferiormente brilhantes (e seria impossível aqui ser tão bom quanto Seymour Hoffman) estão as mulheres do filme e Tom Noonan, que aqui compõe um Sammy Barnathan e mais tarde um falso-Caden perfeitos. Assim como a atuação intimista, mas excelente do elenco, a trilha quase some em certos momentos do longa e age como se não estivesse lá, embora ainda possamos ouvi-la, como se ela própria não quisesse se escutar, deixando sua beleza para partes realmente de peso ou para dar lugar a belíssima canção-tema do projeto, tocada nos créditos e em alguns cenas-chave.

Chegamos, então, ao que o filme tem de melhor. Roteirista conhecido por suas maneiras inusitadas de montar uma história, Kaufman aqui realiza mais uma vez um trabalho impecável. Utilizando-se não só da figura de linguagem do título (que ainda brinca com o nome do local onde o filme se passa, Schenectady) mas de muitas outras, o roteirista cria um cenário onde cada cena, cada ação e cada tomada trazem um elemento novo que denuncia algo que as falas em si, para captarem, deveriam ser exponencialmente expositivas, como por exemplo as pústulas nas pernas de Caden que mostram desde cedo uma fraqueza de espírito refletida em seu corpo e mais posteriormente em seus atos. Outros interessantes exemplos aparecem na casa em chamas de Hazel (um elemento surreal, outra marca registrada de Kaufman), que ao longo do filme soa como uma grande metáfora de que todas as escolhas da vida refletem em algum momento do futuro, ou no paradoxo entre o trabalho minimalista e bem-sucedido de Adele e o projeto gigantesco e não-reconhecido de Caden.

Conforme a narrativa flui e somos finalmente apresentados à peça-sem-nome de Caden, Kaufman brinca diversas vezes ao misturar realidade com ficção e vice-versa. Em um dos momentos da história, Caden (privado de produzir lágrimas devido sua doença) diante de um momento que lhe soa dramático, retira um frasco de colírio do bolso, pinga o líquido nos olhos e finge chorar, como se aquilo fosse natural. Há ainda cenas em que o diretor-fictício se comunica com a então esposa por meio das falas do ator que o interpreta e é interessante observar a atuação da moça que, interpretando a si mesma na peça, demonstra uma perplexidade natural, mas desliza não-intencionalmente ao olhar para o marido na cadeira de diretor e não para o ator. Quando a depressão de Caden atinge um estágio avançado e há até mesmo um ator para interpretá-lo dirigindo uma das cenas da peça (a peça dentro da peça dentro do filme, ufa), o mesmo se dirige a Caden com uma fala dita por um outro ator que ele ‘dirige’.

Difícil, não? Mas a partir do momento em que se presta atenção e se deixa levar pelas pequenas sutilezas do longa (acreditem, se eu fosse descrever todas elas aqui isso seria uma revista, não uma crítica), ele se torna muito mais interessante e profundo. Não é o tipo de filmes que todos irão gostar. Não é o tipo de filme pra se ver despretensiosamente e sim o tipo em que cada mínimo detalhe é importante. Compre seu ingresso, preste bastante atenção e se deixe imergir na profundidade desse interessantíssimo projeto metalingüístico.

Synedoque, New York (EUA, 2009). Drama. Imagem Filmes.
Direção: Charles Kaufman.
Elenco: Michelle Williams, Philip Seymour Hoffman, Tilda Swinton, Emily Watson, Hope Davis, Dianne Wiest, Jennifer Jason Leigh, Catherine Keener e Samantha Morton.

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Categorias
Críticas, Drama