CRÍTICA: Solomon Kane – O Caçador de Demônios

Aventura
// 11/09/2010

Uma forma muito recorrente dos filmes de aventura e ação hoje para atrair os olhares é  suas cenas repletas de técnica e efeitos visuais,  se desapegando da história. Em muitos longas isso até funciona – não completamente, mas funciona. Solomon Kane, que estreou ontem, também procura se sustentar nisso. Mas, infelizmente, sofre por uma queda contínua ao longo da projeção até mesmo neste ponto.

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Solomon Kane – O Caçador de Demônios
por Pedro de Biasi

Impacto é um ótimo meio de dar tempero a um filme. Por “ótimo” quero dizer “eficiente”. Se a tática se resume a chocar o espectador apenas para fazê-lo esquecer que todo o resto é desprezível, uma pena. Esse tipo de trapaça não passa despercebido, e ainda salienta os defeitos que rodeiam os momentos isolados de inspiração. Eis Solomon Kane.

O personagem título (James Purefoy) é um guerreiro cristão que, devido à ganância e à crueldade, é amaldiçoado pelos seres do inferno. Na tentativa de abdicar da violência, ele sai em uma peregrinação, conhecendo William Crowthorn (Pete Postlethwhite), sua esposa Katherine (Alice Krige) e seus filhos, que oferecem companhia e hospitalidade. Um dia, eles são atacados por lacaios do misterioso Malachi (Jason Flemyng), que raptam a jovem Meredith Crowthorn (Evan Rachel-Wood). Kane parte para resgatá-la para salvar a própria alma.

Boa parte da primeira meia hora é promissora, apontando para uma aventura exagerada e autoconsciente com cenas de ação de qualidade. Este último quesito, particularmente, vai sofrendo uma queda sofrível ao longo da projeção, indo de confrontos agitados bem coreografados para um clímax totalmente subaproveitado. Pelo menos o diretor Michael J. Bassett sabe filmar tudo de forma límpida.

O que mais pesa é a impressão que J. Bassett quer passar no início. Somos apresentados a um clima over e fanfarrão (tem outro jeito de encarar a voz gutural do Ceifador?) que só se repete em breves instantes dali em diante, como se os excessos do início tivessem que ser compensados por um marasmo estético. Nesse aspecto, a queda não é tão pronunciada, mas cheia de lombadas. Vamos de cenas solenes até demais para maldades deliciosas (“É amigo seu?”), sinal de hesitação quanto ao o tom da trama.

Quase tudo no filme funciona na base do vai-e-vém, a exemplo da já citada busca pelo choque. Há passagens que realmente pegam de surpresa quem espera o típico feijão-com-arroz, como o ataque à família Crowthorn. Infelizmente, são pingos de frescor que acabam causando o efeito oposto ao que pretendiam: ressaltam o que há de tedioso e lugar comum.

Carro-chefe dos engodos, os diálogos variam de frases de efeito “badass” a comentários sérios sobre violência e espiritualidade, passando, o tempo todo, por explicações supérfluas. A fórmula “herói enfrenta exército para cortar o mal pela raiz” é seguida à risca. Mesmo assim, o roteiro ganha pontos por explorar o martírio de Kane levando em conta seu passado sádico, com uma pitada de cinismo perante a simbologia cristã. Mais uma vez, no entanto, são meras pinceladas em um quadro derivativo.

É no elenco que resta alguma redenção (salvação, graça, ou qualquer outro trocadilho religioso que caiba), pois eles lidam com a esquizofrenia com notável desenvoltura. Posthethwhite e Krige constroem um acolhimento familiar que justifica dramaticamente a ferocidade da busca de Kane. Como o pai de Solomon, Max von Sydow vai da autoridade para a fragilidade com eficiência, mesmo em longas falas expositivas.

O esforço mais heroico, seja isso irônico ou previsível, é de Purefoy. Ele tem que partir de “Isso é tudo que eu sou para Você?” para “Esse é um preço que eu pagarei com prazer”, e não só faz as duas frases funcionarem, como causa a breve impressão de que tudo faz sentido no tom do filme. Claro que é só uma ilusão: o personagem também sofre com as irregularidades de J. Basset. No entanto, fica marcada a excelência do ator.

Também é tentador dizer que a missão do protagonista e a recompensa que lhe é “prometida” são terrivelmente frouxas, mas são, na verdade, algumas das poucas coisas firmes que Solomon Kane oferece. É um objetivo simples e direto, intocado por indecisões exatamente por ser tão reducionista. O filme precisaria de menos para ser bom.

Solomon Kane (EUA, 2010). Aventura. Fantasia. Paris Filmes.
Direção: Michael J. Bassett
Elenco: Pete Postlethwaite, Max von Sydow, Rachel Hurd-Wood, James Purefoy

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Categorias
Aventura, Críticas, Fantasia