CRÍTICA | Sonhos Roubados

Críticas
// 14/08/2010
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Depois de abordar relacionamentos da classe-média em Pequeno Dicionário Amoroso (1996) e Amores Possíveis (2001), e biografar o roqueiro boêmio da classe-média Cazuza, o Tempo não Pára (2003), a cineasta Sandra Werneck faz excursão pela favela carioca. Estreia no Festival do Rio 2009, o filme ganhou o prêmio conferido pelo público e o de melhor atriz (Nanda Costa). Adaptado do livro “As Meninas da Esquina – Diarios de Seis Adolescentes que Vivem no Lado Selvagem da Vida” (Eliane Trindade, 2005), o filme retoma temática do comércio sexual e gravidez precoce, abordada pela diretora nos celebrados documentários Damas da Noite (curta, 1987) e Meninas (2005). Se o livro confere a voz às “meninas da esquina”, o filme lhes concede o olhar.

Jéssica (Nanda Costa), Sabrina (Kika Farias) e Daiane (Amanda Diniz), de dezessete, dezesseis e quatorze anos, sentem na pele a precariedade de sua classe social. Sofrem todo o tipo de carências: socioeconômica (não têm dinheiro), doméstica (não têm estrutura familiar), educacional (a escola municipal não tem aulas) e afetiva (não têm namorados). As paixões de cada qual refletem o mundo desorganizado e marginal: Jéssica por um presidiário interpretado pelo músico MV Bill, na história comum do cliente que propõe a profissional em casamento; Sabrina por um marginal violento que lhe dá um teto, num “matadouro” de amantes; e Daiane, platonicamente, pelo pai ausente que não a reconhece como filha, nem quer saber dela. No roteiro, o drama individual intensifica-se em cada caso: Jéssica perde a guarda da filha pequena, Sabrina é abandonada pelo namorado bandido quando engravida e Daiane é molestada sistematicamente pelo padrasto (marido da tia que cuida dela).

Se parte dessa juventude lida com a situação ingressando no lucrativo crime organizado, e outra parte se refugiando nas religiões evangélicas, as protagonistas optaram pela alternativa nada fácil da prostituição. Numa escolha pessoal que o longa, corretamente, não tacha de imoral, elas fazem dos corpos erotizados a solução para conseguir alguma independência. E assim poder comprar roupas e alimentos para a filha (Jéssica) ou celulares e produtos de beleza (Daiane), ao mesmo tempo em que também descobrem o lado perigoso da atividade: humilhação, espancamento, estupro.

O filme reúne qualidades em não se limitar à favela-inferno para exportação (Cidade de Deus, Tropa de Elite), ao construir uma história à parte da brutalidade da dialética guerra-e-paz entre facções e polícia. Nem incide no risco do olhar antropológico de cima para baixo, que ocorreria se pintasse a comunidade em cores vibrantes como uma espécie de grife exótica. Além disso, ao retratar meninas que, embora jovens, tenham personalidade e saibam se virar na adversidade, Sonhos Roubados não as vitimiza de modo sentimental — não há close-ups em choros nem cenas de autocomiseração. Tudo indica que as meninas sejam vítimas de uma situação social, que agrava as mazelas da prostituição infantil e do abuso intrafamiliar.

Falha o filme, no entanto, na sua vontade de narrativa do real. O realismo em Sonhos Roubados padece de uma mise-en-scéne artificial, de diálogos pouco convincentes, de dispersão narrativa (os acontecimentos estendem-se por mais de um ano). Compare-se com Mulheres da Noite (Mizoguchi, 1949), na temática semelhante do baixo meretrício, em que o diretor japonês articula múltiplos personagens e destinos simultaneamente, em cenários miseráveis do pós-guerra, graças à aplicação consciente do plano longo e da encenação sutil sem grandes manobras. No filme de Werneck, talvez com vista a fim de acelerar o ritmo do extenso enredo, escasseiam seqüências mais pacientes das situações, e a diretora a todo momento proclama a sua presença com firulas, como o uso obsessivo de espelhos e uma colocação em cena em profundidade por vezes bizantina. O trabalho de dramaturgia é oscilante nos diálogos, ainda que o talento singular de Marieta Severo consiga salvar (todas) as seqüências em que atua.

Finalmente, no desfecho do roteiro não há (nem poderia haver) resolução: cada uma das três, com esperança renovada, reorienta os seus caminhos — Jéssica fica noiva do presidiário e consegue advogado para tentar recuperar a guarda da filha; Daiane vai morar com a amiga cabeleireira, de quem passa a aprender o ofício; Sabrina briga com o marginal e vai rodar a bolsinha nas ruas. O plano final, as três amigas juntas distanciando-se da câmera na noite da favela, condensa uma mensagem de amizade, otimismo e esperança. Apesar de tudo, elas sonham.

Independente das deficiências, num panorama do cinema sobre o jovem pautado por vampirinhos bom-moços assépticos, criaturas azuis ecologéticas politicamente corretas, ultra-românticos lírico-suicidas nerds-deslocados (Os famosos e os duendes da morte, 2009) e adolescentes de classe-média em busca de autoafirmação vazia (As Melhores Coisas do Mundo, 2010), sem falar nas parábolas burguesas de superação e sucesso (Antônia, 2007), é indiscutível que este filme possui méritos e aprofunda espaços reflexivos sobre a juventude do terceiro mundo.

Sonhos Roubados (Brasil, 2010). Drama. Globo Filmes.
Direção: Sandra Werneck
Elenco: Zezeh Barbosa, Nelson Xavier, Marieta Severo, Nanda Costa, Ângelo Antônio, Guilherme Dutra, Kika Farias, Amanda Diniz

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Categorias
Críticas, Drama, Nacional