CRÍTICA | Star Trek: Além da Escuridão

Críticas
// 13/06/2013

Apostando forte na ideia de conduzir um universo paralelo ao original, tanto no contexto ficcional da obra quanto na própria abordagem narrativa, J.J. Abrams segue no comando da franquia Star Trek com um objetivo nítido: mostrar ao público casual que o saturado universo de Kirk, Spock e companhia tem, sim, adrenalina e emoções de sobra. Ainda que o lado cerebral e estratégico da série e filmes clássicos saia um pouco prejudicado, Além da Escuridão – Star Trek faz bonito, especialmente frente às vacilantes produções do gênero nos últimos anos.

Além da escuridão – Star Trek
Por Gabriel Costa

O reboot de 2009 da mitologia idealizada por Gene Roddenberry partiu de travessuras nostálgicas e pirotecnia para retomar de forma dinâmica e respeitosa as histórias da tripulação da nave estelar Enterprise. Já nesta sequência, a trama deixa de lado a aproximação sutil e joga o público de cara em uma ambientação já solidamente estabelecida.

A equipe da Frota Estelar comandada pelo capitão James T. Kirk (Chris Pine) superou os atritos iniciais nas relações e agora é uma unidade coesa e eficiente. A lealdade mútua é tamanha que Kirk viola a Primeira Diretriz de não interferência da Frota quando a vida de seu subordinado – e amigo – Spock (Zachary Quinto) é colocada em risco ao tentar impedir a erupção de um vulcão no planeta Nibiru (nome talvez familiar aos conhecedores de teorias da conspiração e fim do mundo). Kirk paga o preço da quebra de protocolo, e o custo é agravado quando um agente renegado da Frota Estelar, John Harrison (o impressionante Benedict Cumberbatch), efetua um ataque terrorista contra a espetacularmente futurista Londres de Abrams.

Quando, em nova investida após o atentado, o almirante, amigo e mentor Christopher Pike (Bruce Greenwood) é morto, a tripulação da Enterprise recebe a missão de capturar o causador da catástrofe. O caráter pessoal da missão para Kirk, que busca, no fundo, vingança, é crucial para todo o desenvolvimento do clássico enredo de sequência “visceral”. A empreitada em busca de Harrison segue direta e impiedosamente rumo ao território Klingon, numa jornada que pode ultrapassar regras diplomáticas e significar guerra declarada.

A ação constante, a princípio chega a ser quase cansativa, especialmente pela impressão inicial de que os personagens são praticamente invencíveis, ainda que enfrentem situações extremas. O desenrolar da história, contudo, prova que as coisas não são bem assim, e expõe de forma impactante as vulnerabilidades emocionais, morais e mesmo físicas dos protagonistas. Pine e Quinto chegam o mais próximo possível da essência de Kirk e Spock, respectivamente, sem perderem a chance de acrescentar identidade própria aos papéis. Cumberbatch, por sua vez, rouba a cena enquanto vilão como só os grandes atores fazem, ainda mais quando é revelada a verdadeira natureza de Harrison, numa jogada que agrada aos antigos fãs na mesma medida em que intriga os “novatos”.

Esteticamente, poucas das inúmeras franquias recauchutadas nos últimos anos por Hollywood foi tão beneficiada pelo avanço da tecnologia de computação e efeitos especiais. O espaço sideral nunca pareceu tão profundo e misterioso na ficção científica, exceto, talvez, em Prometheus. Isso sem falar na fantasia novamente realizada dos fãs de constatar a escala real da Enterprise em relação a estruturas terrestres, mesmo que futuristas.

As reviravoltas, interações e relacionamentos em Além da escuridão – Star Trek (abandonaram mesmo o “Jornada Nas Estrelas”?) são tão envolventes que é fácil esquecer que a trama em si está longe da ousada arquitetura de jogo de xadrez dos filmes originais. O que Abrams e seus recorrentes parceiros, os roteiristas Roberto Orci, Alex Kurtzman e o imprevisível – no mau sentido – Damon Lindelof têm a oferecer aqui não vai muito além do básico. Mas é um básico muito, muito bem feito.

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Star Trek Into Darkness (EUA, 2013) Ficção Científica/Ação. Paramount.
Direção: J.J. Abrams
Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Benedict Cumberbatch, Zoe Saldana, Simon Pegg

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