CRÍTICA | Star Wars: O Despertar da Força

Ação
// 21/12/2015
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Resgatar a mais célebre franquia do Cinema sem a presença de seu criador pode ser um tiro no pé, claro. Mas revisto o que foi feito há cerca de dez anos, a nova trilogia de Star Wars está melhor sem George Lucas. O Despertar da Força foi prometido como o primeiro exemplo. Restava saber se toda a comoção mundial acerca de uma história que até um ano atrás estava adormecida é uma resposta inconsciente à maior campanha de marketing global no entretenimento ou a um filme que, de verdade, é bom.

Essa crítica não contém spoilers sobre a trama, mas comenta a construção de algumas cenas específicas.

Star Wars não envelheceu muito bem. O jogo de oposição Nostalgia vs. Novidade comprova isso. Se por um lado há uma enorme ordem de fãs da trilogia inicial, por outro há o público novato, imune a todo o saudosismo que os episódios IV a VI proporcionam. O primeiro filme, Uma Nova Esperança, é de fato um dos acontecimentos cinematográficos mais importantes à época e grande influenciador da geração de Cinema atual. Mas é, também, datado. E a questão não é a técnica, já tão avançada hoje. O impacto que os longas causaram no público das décadas de 70 e 80 remanesce nele até então, mas encontra forte resistência pra se efetivar em quem está tendo o primeiro contato com os filmes só agora. E isso não é um demérito do que George Lucas fez no passado, mas sim um indício de como a plateia se porta hoje, do quê ela espera em uma produção icônica e do tipo de estrutura narrativa que é capaz de fisgar o espectador.

Em um momento em que tramas complexas viram teorias infindáveis nas redes sociais e que muito do carisma dos personagens depende da química entre o elenco (e seu bom desempenho), um argumento principal tão raso quanto o da trilogia começada em 1977, agora, não se sustenta fácil. O maior desafio de O Despertar da Força, em um único filme, era não só manter os fãs originais contemplados, mas ainda atrair um time de espectadores que nunca tiveram qualquer relação afetiva com a saga, e é a boa arquitetura do Episódio VII que garante seu caráter multifuncional para alcançar esse feito. Com uma história que reinventa os acontecimentos de Uma Nova Esperança, mas que cronologicamente segue os eventos do último filme (O Retorno de Jedi), o longa admite os papéis de reboot e continuação. É inegável como O Despertar da Força responde a curiosidade de como seria o primeiro Star Wars se ele tivesse sido realizado hoje.

Por ora, esqueça da técnica. O que transforma o novo Star Wars numa produção funcional é a readequação de todos os quesitos que não permitem que os antigos filmes sejam “digeríveis” hoje. A trama, ainda que siga a mesmíssima estrutura de Uma Nova Esperança, usa o tom da referência (e não do repeteco) para resgatar situações que o espectador já viu e as constrói usando como base personagens muito mais carismáticos e que cujos atores possuem um domínio e química bem maiores. A mecânica do primeiro encontro entre Finn (John Boyega) e Poe Dameron (Oscar Isaac) reflete isso. Não é à toa que todo o calor da parceria firmada pelos dois durante a fuga em uma nave no primeiro ato transcende a tela. A urgência na conversa acelerada somada ao fervor da vitória cria uma ligação não só entre os dois, mas também com o público; muito necessária para que a relação dos personagens continue fresca mesmo tantos minutos passados para o então reencontro. Contudo, a evolução real para o ícone que é Star Wars está na dupla principal. Fora o fato já muito debatido de Finn ser negro e Rey (Daisy Ridley – difícil não simpatizar), mulher, esta é uma catadora de lixo. A canastrice de Han Solo e a rebeldia (com causa) de Leia cedem espaço para a concretude da nova dupla. Mais palpáveis, ambos expõem o medo através de suas inseguranças, das incertezas da viabilidade de suas ações, criando uma estreita relação com Kylo Ren. Este, por sua vez, é um vilão muito mais desenvolto narrativamente do que Darth Vader. Ao contrário de sua questionada situação, Kylo é de longe um tirano que em nada deve a Vader. Suas motivações, mesmo que semelhantes, são mais externalizadas e seus receios se traduzem em perda de foco e descontrole emocional, que ganham potência através da boa postura de Adam Driver como o personagem, que valorizam sua presença como vilão.

Mas há, claro, aquilo que é praticamente impossível melhorar – ou sequer repetir. Apesar do indiscutível patamar tecnológico, O Despertar da Força jamais poderia causar a onda de evolução técnica que Uma Nova Esperança fora. Nesse ponto, J.J. Abrams se torna um diferencial através de suas escolhas. Se hoje praticamente todo filme com um bom orçamento alcança um super-realismo na computação gráfica, coube ao diretor saber como usá-la ao seu favor. É aí que entram os efeitos práticos (com explosões, robôs e destruições reais executados nos sets) e um excelente trabalho de storyboard. Em um das cenas de ataque dos stormtroopers, a câmera percorre toda a área de ação sem cortes, enquanto vemos Finn na defensiva em terra e Poe nos ares, ao fundo, disparando fasers contra as naves inimigas, até que ambos atingem o mesmo ponto na tela e sabemos que estão, mesmo que inconscientemente, agindo em dupla. Em outro momento, Abrams coloca o espectador intimamente dentro do conflito ao fechar a câmera nas expressões de Kylo e Rey enquanto banha os olhos com um dos melhores trabalhos de fotografia digital ao quase misturar o vermelho e azul dos sabres de luz (cuja edição de som foi incrivelmente melhorada).

O Despertar da Força ganha mais fôlego ao ser comparado. Mesmo com uma história remodelada, ela se faz coerente consigo e com o que já foi mostrado nos episódios anteriores. Mas vence de verdade por apostar onde tantas megaproduções demonstram receio: na humanização. Explorar o carisma de seus personagens não é exatamente transformá-los em indivíduos fáceis de se gostar (que muito é feito através da comicidade de escape), mas em quem o espectador consegue se identificar por um ou outro critério. Essa é a manobra efetiva para se administrar o interesse pela trama, não a pirotecnia bruta. E o elenco protagonista que representa quem está lotando as salas é só a cereja no bolo. A Força do novo Star Wars não está, na realidade, nos ganchos prontos para as continuações, tampouco no belo resultado que a ILM conseguiu com os efeitos visuais e jamais nos previsíveis (mas não desmerecidos) plot twists. Está na disposição para trazer ao Lado da Luz quem quer que demonstre o mínimo de interesse, seja ele um Jedi das antigas ou um reles Padawan. E nesse ponto deve-se dar o braço a torcer: nem mesmo a incansável, excessiva e exaustiva campanha de marketing colossal da Disney poderia transformar O Despertar da Força em um filme que ele não é. Afinal, Jedi o Mickey não é.

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Star Wars: The Force Awakens (EUA, 2015). Ação. Aventura. Walt Disney Pictures.
Direção: J.J. Abrams.
Elenco: Harrison Ford, Adam Driver, Oscar Isaac, Daisy Ridley, John Boyega.

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Ação, Aventura, Críticas