CRÍTICA | Star Wars: Os Últimos Jedi

Ação
// 15/12/2017
Star Wars Os Últimos Jedi

Temos em ação um momento de pouca criatividade. Seja na escolha de quais histórias serem contadas nos cinemas, seja em como narrar essas tramas, o entretenimento atual raramente tem se decidido por caminhos menos óbvios. Star Wars: Os Últimos Jedi se destaca com alguma facilidade por não se inserir nesse fluxo, mas tropeça quando opta por soluções preguiçosas conjuradas do ar rarefeito.

Com uma brilhante retomada à saga em O Despertar da Força – que usava o tom da homenagem ao primeiro filme da trilogia original para funcionar ora como refilmagem, ora como continuação – a história pode até querer desenvolver as nuances de seus personagens neste Episódio VIII, mas muito pouco – e em quase nada – evolui o arco geral da galáxia como um todo. É uma proposta honesta projetar um vilão em construção que traz consigo certa carga de incerteza sobre a sua jornada, e isso nós até já vimos em outros filmes. Assim como também é interessante alimentar a sua protagonista com as mesmas dúvidas; também nada inédito. Mas jogá-los no centro da trama despreparados e inseguros quanto aos seus respectivos papéis, simultaneamente, é uma quebra do maniqueísmo raso que já não cola há bastante tempo. E esse é o trunfo de Os Últimos Jedi.

A base de sustentação do filme (o duelo interno de Rey e Ben e o embate psicológico) se desenvolve além do conteúdo, mas também na forma quando o diretor Rian Johson quase nos fazer acreditar que, mesmo a centenas de milhares de quilômetros de distância, os dois personagens dividem o mesmo ambiente graças à simulação de uma geografia de cena, recurso utilizado mais de uma vez. Fica claro, na verdade, que as escolhas de Johnson são muito mais inteligentes na direção do que no roteiro, que ele também assina. A prova de sua mão firme são os enquadramentos arrojados, o bom diálogo com a fotografia (com uma quantidade de contraposição ao sol de dar inveja a Michael Bay), as tomadas que são a perfeita tradução de “Star Wars” (como o plano da luta entre Ben e Luke) e o uso estilístico do sal avermelhado migrando do simbólico suicídio dos pilotos da Resistência ao semi-literal golpe final contra Luke – sangue representativo, morte representativa. Técnica essa que é um contraponto às suas ideias para a história, o que chega a ser desanimador. Mesmo que a gente tenha sido alertado lá atrás na série que Leia possui a Força dentro dela, não é muito plausível vê-la inesperadamente tão habilidosa para se salvar de uma sucção no espaço. Tão implausível quanto, só agora, vermos um espírito Jedi interagir com o ambiente, como fez Yoda ao lançar um raio sobre o templo. A sensação é a de que por mais que tenhamos a ciência de que essas qualidades são cem por cento possíveis, elas convenientemente só foram apresentadas agora por uma preguiça do roteiro de encontrar uma solução melhor e mais verossímil.

Para ainda desnortear mais o filme, desconecta-se a melhor dupla em cena de O Despertar da Força para construir por meio de ações e reações irrelevantes ao lucro da trama um arco amoroso indesejado entre Rose e Finn, deixando toda a relação entre ele e Poe a uma distância até maior do que no filme anterior. Quase um retrocesso para um resultado que todos não só imaginaram, mas calcularam (e muito bem) ser bem diferente. Ao menos, deu ao carismático robô BB-8 a merecida silhueta de herói – enquanto super-aproveitava a presença dos Porgs numa clara – e forçada – barganha para vender mais brinquedo. Não bastante, reduziu o potencial do grande Mestre Luke a um mero cavaleiro tão ou mais amedrontado quanto seus aprendizes, revelando possuir apenas uma destreza maior quanto à Força, dando-lhe um final que, mesmo poético (se formos caridosos), traz toda a jornada de Os Últimos Jedi para o início do filme: uma Resistência enfraquecida, uma Primeira Ordem ainda mais inquieta e armada e uma esperança in loco que não se reverbera na galáxia: um plano de ação tão isolado quanto antes. Um caminho do nada a lugar algum.

O duro de Star Wars: Os Últimos Jedi é vê-lo dar qualidades tão fortes a seus personagens e poucos elementos para que se desenvolvam dentro da trama, e não só em volta deles mesmos. É mostrar um interesse em sacudir o universo narrativo e, no final das contas, ter como realces a espetacular cena da aliança entre Rey e Ben na sala de Snoke e a equivocada mudança de tom para um arquétipo Marvelístico ao enxertar um enxoval de piadas para um alívio cômico supérfluo. É, em vez de contrastar com o lugar comum pela sua força narrativa, ter como fagulha de esperanças um ou outro ponto isolado que demonstra ótima elegância estética, mas pouco apuro como uma fantasia espacial. Desse jeito pode ser até que a mensagem seja entregue e ouvida, mas não tem aliança que queira vir a salvamento.

 



Star Wars: The Last Jedi
(EUA, 2017). Fantasia. Ação. Disney Pictures.
Direção: Rian Johnson
Elenco: Daisy Ridley, Oscar Isaac, Mark Hamill, John Boyega, Adam Driver

7-pipocas

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