CRÍTICA | Superman – O Retorno

Ação
// 03/02/2009
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Nenhum filme até hoje causou tanta dor de cabeça para seus produtores como o quinto filme da série Superman. Ao final de vinte anos de pré-produção, cinco diretores demitidos, dezenas de roteiros – e seus autores – dispensados e uma ínfima variedade de atores renomados postos de lado, Superman – O Retorno aterrissa em tapete tão vermelho vivo quanto sua capa. Realizado com extrema perfeição de detalhes técnicos, o herói mais famoso do Planeta destila sua superioridade em cada centavo dos U$ 250 milhões da maior, mais cara e mais demorada superprodução cinematográfica.

Desde a tentativa de Tim Burton de colocar nos circuitos o longa Superman Lives (que chegou a entrar em pré-produção junto a um pôster de veiculação nos cinemas americanos) com lançamento estimado para 1998, a idéia de realização de uma nova história do Superman passou pelas mãos de bons roteiristas; como J.J. Abrams (autor da série Lost). Diretores como McG (que desistiu do projeto para se posicionar em As Panteras – Detonando de 2002) e Brett Ratner também chegaram a ser contratados enquanto Brendan Fraser, Jerry O´Connell, Nicolas Cage, James Caviezel e Johny Depp (este com interesse no personagem Lex Luthor) estiveram cotados para interpretar o protagonista. Porém, as indecisões da Warner Bros. foram suficientes para entrar em desacordo com as preferências de explicitamente todos.

Após a boa repercussão de Batman Begins a Warner, mais por certeza do que desespero, optou por Bryan Singer (anteriormente o responsável pelos dois primeiros X-Man) para assumir a dianteira do projeto. De fato, Singer manteve a mesma linha de seus filmes antecessores. Realismo e estima em relação aos heróis foram novamente os critérios de base para a construção da personalidade dos protagonistas.

Cinco anos depois do desaparecimento do maior protetor da Terra, Superman retorna para novamente auxiliar os que ele tanto se preocupa (leia Lois Lane). Em contra partida, o planeta se mostra diferente daquele que foi deixado. A imagem agora apresentada reflete facilmente a maneira como o mundo soube se redirecionar sem a presença de um herói. Reflexo cínico do pós 11 de setembro.

Desenvolvido com simplicidade na união de fatos, o filme tem uma proposta interessante e ousada: mesclar com a ação e a veracidade as demonstrações de afetos que remetem a um adolescente inseguro quanto a exposição destes. Mas tudo isso é possível graças a discrepância que o ator Brandon Routh (Clarck / Superman) mantém em relação aos que ele colocou para fora da disputa pelo papel. Ainda longe dos holofotes do sucesso, Brandon separa em linhas bem definidas o herói de seu alter-ego, mas sem desaperceber o diálogo entre as duas personalidades.

Singer também demonstra sua inteligência e alta capacidade. Ao contrário de adaptações de quadrinhos como Hulk, Batman e Homem-Aranha a direção de Superman – O Retorno utilizou precisamente todos os argumentos das páginas da DC Comics sem exageros na hora do romance ou de explosões. Estas, por acaso, também são um extremo bem delineado no filme. Os efeitos visuais e sonoros foram brilhantemente desenvolvidos, tendo falhas pequenas e quase imperceptíveis de maneira a obter um nível de perfeição muito acima da média de outras produções.

A equipe técnica, na verdade, já tinha o mais que necessário para rodar um longa em grandes proporções. Bryan Singer levou todos os seus preferidos com quem trabalhou em seus filmes anteriores (que já estavam envolvidos em X-Man – O Confronto Final). John Ottman, editor e compositor do filme, por exemplo, foi o responsável tanto pela interessante adaptação da obra de John Williams em Superman – O Filme – reestruturando o tema musical e modernizando-o – quanto na costura e emparelhamento de cenas do roteiro – já trabalhado pelo próprio Singer, com finalização de Dan Harris e Michael Dougherty (também de X-Man).

O tempero de Superman – O Retorno está, na verdade, na combinação de partículas isoladas. Cada característica do filme é separadamente trabalhada de forma sincronizada e principalmente acertada dando origem, na junção, ao excelente conjunto no qual cada parte pode demonstrar o que é o todo. Seja na indiferença com que Kate Bosworth retrata Lois Lane ou na completa falta de escrúpulos de Lex Luthor incorporado por Kevin Spacey (com honras, diga-se de passagem) há sempre um fator comum que rege toda a dinâmica da história: fidelidade a função que cada personagem deve exercer no contexto.

A certeza de que Bryan Singer resolveu dar vôos mais altos reside na autenticidade com que tratou seu trabalho, esforço e cifras (não poupou nem no que poderia haver o mínimo de simplicidade: foi a primeira filmagem a utilizar câmeras Gênesis HD com a melhor definição possível). O gosto apurado por suavização de imagens e seqüências com boa fotografia é exemplo de que beleza e agressividade podem ser fundidas para alcançar o efeito desejado. Evoluiu na técnica e no conceito. Prova de que na sétima arte, os cristais encontrados podem ser lapidados para descobrir o segredo do sucesso.

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Superman Returns (EUA, 2006). Ação. Warner Bros. Pictures.
Direção: Bryan Singer
Elenco: Brendan Routh, Kate Bosworth, Kevin Spacey

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