CRÍTICA: Tão Forte & Tão Perto

Críticas
// 23/02/2012

Um dos indicados ao Oscar de Melhor Filme chega aos cinemas brasileiros amanhã, dois dias antes da premiação. Tão Forte & Tão Perto, do amado diretor (pela Academia) Stephen Daldry, ganha pontos pela sua mensagem, mas não pelo seu desenvolvimento e, muito menos, pelo seu protagonista irritante.

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Tão Forte e Tão Perto

por Virgílio Souza 

O grande propulsor da trama de Tão Forte e Tão Perto é o foco na interação entre pessoas e, notadamente, entre o garoto Oskar Schell (Thomas Horn) e as figuras que ele encontra pelo caminho em sua “expedição de reconhecimento” por Manhattan à procura de uma derradeira mensagem de seu pai, Thomas (Tom Hanks), falecido meses antes no atentado de 11 de setembro de 2001.

Em determinado momento de sua jornada, o garoto afirma, resgatando uma lição paterna, que “pessoas são como letras”, que desejam se tornar histórias que, por sua vez, precisam ser compartilhadas. Nesse sentido, é incômodo perceber que o aspecto mais problemático do longa seja reservar a maior parte de seu tempo e atenção à história menos fascinante dentre aquelas apresentadas ao longo dos 129 minutos de projeção: a busca do protagonista pela fechadura que poderá ser aberta pela chave por ele encontrara no armário de seu pai.

Assim, é ainda mais problemático notar que o garoto surge como o personagem mais irregular da produção. Inicialmente apresentado como alguém cheio de imaginação, determinado e extremamente curioso (características que possuem reflexos em seu próprio quarto, construído com eficiência pelo diretor de arte Peter Rogness – o nome “Columbus”, por exemplo, não aparece por acaso no mapa preso à sua parede), porém tímido e impactado pela ausência do pai, Oskar se desenvolve apenas como um rapaz mimado, fatalista, egoísta (ele chega a dizer à mãe que gostaria que ela tivesse morrido no lugar do pai) e tomado por manias detestáveis (como carregar um pandeiro para se tranquilizar, numa tentativa estranha de emular o protagonista de O Tambor).

Ademais, quando tenta estabelecê-lo como um personagem multidimensional, por vezes fazendo-o agir com extrema doçura, como quando oferece um beijo a Abby Black (Viola Davis), o roteiro de Eric Roth transborda artificialidade, uma vez que atitudes dessa natureza não condizem com o comportamento do garoto na quase totalidade do longa e, sobretudo, nos momentos anteriores ao clímax, que, só então, conduz o menino a uma significativa mudança de padrão comportamental – fazendo-o, por exemplo, se reaproximar da mãe e demonstrar alguma gentileza para com o mundo ao seu redor.

Desta forma, o filme se alonga demasiadamente na expedição de Oskar, quando o mais significativo (ou, ao menos, mais interessante) é o enfoque em seus reflexos, suas consequências e os personagens conhecidos pelo caminho. É natural, portanto, que o espectador se veja curioso pelo desenrolar da história de William Black (Jeffrey Wright), inquieto pela aparente inação da mãe do garoto (Sandra Bullock, mais segura que o habitual) e fascinado pelo inquilino mudo (construído de maneira impecável por Max Von Sydow, capaz de se expressar com um simples, mas poderoso, “engolir seco”). Por essa razão, é igualmente natural que o interesse seja sucedido por uma sensação de vazio e frustração, pois o longa se limita a anunciar brevemente o desfecho de tais personagens, sem jamais concluir seus arcos com a merecida atenção.

Se peca pela falta de zelo com suas figuras mais atraentes, Tão Forte e Tão Perto, por outro lado, falha pelo excesso de explicações, por vezes repetidas, sobre o que se passou (ou passa/passará em tela). Repare como acompanhamos toda a trajetória de Oskar para, em seguida, vermos o jovem contá-la, com riqueza de detalhes e sem elipses, a outros personagens, alongando o tempo de projeção, interrompendo constantemente o fluxo narrativo e quebrando o ritmo previamente estabelecido. Notam-se alguns excessos também na direção de Stephen Daldry, que abusa dos tons em determinadas situações: exemplo claro é a sequência em que filma o inquilino partindo em um táxi sendo acompanhado por Oskar, que corre ao seu lado gritando absurdos como “seu fardo é maior que o meu!”.

Há méritos, no entanto, na habilidade e sensibilidade de Daldry em retratar as diferentes reações dos personagens à odisseia do protagonista: veja como funcionam as sequências em que alguns tratam o eventual sucesso do garoto como milagre, ao passo que outros se limitam a abraçá-lo ou sequer aceitam recebê-lo em suas casas. Para tanto, o diretor conta com o auxílio da montagem eficiente de Claire Simpson, dispondo as peças aos poucos na trama (como as mensagens de Thomas na secretária eletrônica, que parecem aumentar em quantidade conforme se intensificam as emoções da narrativa). Além disso, a competente trilha sonora de Alexandre Desplat e a fotografia de Chris Menges são capazes de conferir certa leveza a alguns segmentos do filme e balancear o tom da narrativa – algo raro na filmografia do cineasta.

No fim das contas, a mensagem que resta é a de que imprevistos possuem impactos de toda sorte na vida das pessoas, dando vazão tanto a jornadas de descobertas (e autodescobertas) quanto a traumas e outras mudanças de caráter negativo, como emudecer-se e viver em luto. Entretanto, é uma pena que, no longa, tal lição seja aprendida por um protagonista introduzido e desenvolvido como alguém aborrecido e absolutamente incapaz de aprendê-la. Mesmo após o mais heroico dos esforços.

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Extremely Loud & Incredibly Close (EUA, 2011). Drama. Warner Bros.
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Tom Hanks, Sandra Bullock
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Críticas, Drama