CRÍTICA | Ted

Comédia
// 20/09/2012

E quando não há mais nada o que se fazer com as comédias para que elas deem certo que não seja correr para o politicamente incorreto? E quando exageros vêm e vão, mas ainda assim não se ri em altos brados? Ted é um exemplo de tudo isso mas que, em alguns aspectos, funciona e acaba sendo um filme divertido. Mas só divertido, sem o “muito” antes.

Ted
por Arthur Melo 

Todo tipo de filme segue um padrão. São considerados bons aqueles longas que, justamente, conseguem ir além do comum e apresentar algo inédito – seja na forma ou no conteúdo. E à medida que novos filmes são lançados, mais difícil se torna ser original. Ted passa perto disso e espelha um buraco comum no processo criativo hollywoodiano: a ideia é boa, mas o que é feito com ela lá para o final (sempre previsível) das histórias é o grande problema.

Na comédia, John é um garoto sem amigos (o jovem Bretton Manley, claro menino forçado para se projetar como criança prodígio) que ganha de Natal o pior presente do mundo para um menino de sua idade, um urso de pelúcia (que, aliás, ele acha incrível – o que explica parcialmente sua exclusão social). Vendo em seu ursinho Ted o único companheiro no planeta, John deseja que o brinquedo ganhe vida para que possa conversar com ele. O que magicamente acontece. Logo, Ted se transforma em uma celebridade mundial, mas, ao longo do tempo, é esquecido e “cresce” como qualquer subcelebridade após os anos, virando uma figura desbocada e acomodada. John (Mark Wahlberg), a essa altura, já é um homem feito e namora Lori (Mila Kunis), que se dá bem com a presença de Ted, até que o urso passa a embarreirar o amadurecimento de John e de seu relacionamento com ela.

Com uma montagem que se vale do toque de caixa, o filme consegue em poucos minutos tratar de todo o processo de crescimento de John usando o manjado recurso das fotografias de ocasiões únicas e especiais para pontuar os momentos-chave de John e Ted, passando pela entrada de Lori na vida dos dois e a queda de Ted no mundo do show bizz. Algo que evidencia que, ao menos, o roteiro do também diretor e dublador do Ted, Seth MacFarlane, entende que voltar as atenções à relação Ted-John valeria mais a pena do que discorrer sobre os percalços do mundo da fama e sua posterior (e previsível) crise de identidade proporcionada pela decadência do ursinho. Bem ou mal, MacFarlane usa o seu tino para comédia na criação de sequências engraçadas, comentários espirituosos mas, também, enxertos de piadinhas que apenas quem é muito familiarizado com personalidades específicas da cultura estadunidense (aquelas estrelas de quem você provavelmente nunca ouviu falar) vai entender. Por outro lado, compensa jogando na fogueira nomes como Justin Bieber e Katy Perry só para dar um estalar de dedos na atenção do público mais popular.

Em uma inevitável comparação, Ted possui aquele frescor que Se Beber, Não Case (o primeiro) possuía: o politicamente incorreto mergulhado em situações absurdas. E se as tais situações já não são tão absurdas justamente pelo público já estar preparado para elas (dois filmes sobre despedidas de solteiro catastróficas e um Projeto X já foram o suficiente para “treinar” a plateia), nada tão politicamente incorreto como a inocência de um urso de pelúcia protagonizando atitudes extremamente opostas com o que o brinquedo simboliza – o que já garante ao menos um sorriso rasgado pelo visual – para que o longa funcione ao trazer algo novo.

Ted, no entanto, falha mesmo é em seu desfecho e em alguns exageros propostos para descrever personagens em tom quase caricato; como Donny, o típico vilão que precisa se portar de maneira ridícula quando sozinho para expor seu verdadeiro psicológico. Ou o final, cuja discussão sobre a maneira como que é guiado não cabe aqui porque, afinal, já entregaria a resolução da trama. Mas é bem verdade que, mesmo sem recorrer aos mesmos exageros, a química entre Wahlberg e Kunis existe (esta, inclusive, está bastante confortável no filme e fatalmente se divertindo) e o personagem de Joel McHale, Rex, chefe de Lori, ganha mais graça por ser exatamente a efetivação de tudo aquilo que Jeff Winger, personagem de McHale no seriado Community, mais gostaria de ser. E há até alguns bons momentos de direção, como quando Ted e Lori conversam sobre o relacionamento dela com John, no final do segundo ato.

Com sua graça, mesmo que limitada, Ted entretém. Mas não calha em ser dos melhores por não saber guardar nada para o final que acrescente ao que o próprio filme – ou o gênero – contou. E, talvez, nem por tirar o fôlego em uma risada longa e extasiante. O erro talvez tenha sido encher-se muito de si antes de finalizado e já ter aceitado a possibilidade não remota de uma continuação, cuja sombra já determinaria como e onde o longa deveria acabar.

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Ted (EUA, 2012). Comédia. Universal Pictures.
Direção: Seth MacFarlane
Elenco: Mak Wahlberg, Mila Kunis, Seth MacFarlane

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Comédia, Críticas