CRÍTICA | Thor: Ragnarok

Ação
// 31/10/2017
thor ragnarok

O terceiro filme do deus do trovão nórdico/extradimensional da Marvel segue a receita de revirar o passado do protagonista ao mesmo tempo em que sugere novos caminhos para o personagem, mas sucessivas situações de inconsistência estilística e de enredo impedem que a obra se destaque no contexto de produção frenética do nicho que ocupa. Thor: Ragnarok não é o primeiro nem o único filme da atual subsidiária da Disney a buscar uma aproximação de tom com a mistura certeira de visual deslumbrante, ação criativa e humor impiedoso e inusitado responsável pelo sucesso dos colegas Guardiões da Galáxia, mas o diretor Taika Waititi (de O Que Fazemos nas Sombras)  é certamente o exemplo mais descarado de emulação da fórmula aplicada por James Gunn, sem, no entanto, igualá-lo em segurança e fluidez narrativa.

Não é que o longa não tenha seus trunfos. A ação, com forte influência estética de videogames, é permeada de momentos eletrizantes, a interação com outros elementos do Universo Cinematográfico Marvel é feita de forma impecável e Chris Hemsworth está mais seguro e à vontade que nunca como Thor, ainda que a personalidade do filho de Odin (Anthony Hopkins) aqui varie basicamente de acordo com o que é necessário para cada sequência. Tom Hiddleston rouba mais um punhado de cenas na pele de Loki, embora dessa vez o deus da trapaça esteja mais próximo do humor pastelão do que do potencial ambíguo e irônico que o antagonista/anti-herói revela em seus melhores momentos. Cate Blanchett, por sua vez, encarna com perfeição a deusa da morte Hela, e evidentemente só não faz ainda mais com a personagem pelas próprias limitações latentes da trama, uma vez que toda a questão de Asgard fica relegada a segundo plano durante parte considerável do filme.

Uma dessas limitações, aliás, tem nome e sobrenome: o megacanastrão Karl Urban como Skurge, um asgardiano que é apresentado como uma espécie de alívio cômico antes de, gradualmente, assumir importância desnecessária e mesmo incômoda num enredo já abarrotado de figuras atuantes e situações conectadas por linhas tênues, incluindo ainda o sempre interessante e carismático Hulk de Mark Rufallo, o honrado e implacável Heimdall de Idris Elba, o peculiar Grão Mestre de Jeff Goldblum e a irascível Valquiria de Tessa Thompson, entre outras participações mais ligeiras, mas não menos interessantes individualmente, ainda que o mosaico geral formado pelos diferentes núcleos não seja homogêneo. É como se efetivamente houvesse pelo menos dois filmes aqui, uma aventura espacial e um drama épico, e eles nem sempre se relacionam bem um com o outro.

Evidentemente, nenhum dos dezessete (!) longas lançados pelos Estúdios Marvel desde 2008 é voltado exatamente para um público adulto – com a possível e discutível exceção de Capitão América 2: O Soldado Invernal -, mas Thor: Ragnarok deixa ainda mais explícita a intenção já sinalizada pelas empresas condutoras de tornar as coisas cada vez mais palatáveis para o espectador casual – e seus filhos. Caminhamos agora para a Fase 4 do universo compartilhado, e a conjuntura montada até aqui começa a demonstrar sinais mais claros de cansaço. Fica a cargo do iminente longa do Pantera Negra e a aguardada Guerra Infinita trazer a renovação para a etapa seguinte ou o início do colapso dessa máquina colossal de entretenimento e imaginação.

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Thor: Ragnarok (EUA, 2017) Fantasia / Ação. Marvel Studios / Walt Disney Pictures.
Direção: Taika Waititi
Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Mark Ruffalo, Tessa Thompson, Idris Elba, Jeff Goldblum, Karl Urban, Anthony Hopkins.

6-pipocas

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Ação, Críticas, HQ's