CRÍTICA: Titanic 3D

Críticas
// 12/04/2012

Em um momento, você está apontando o garfo para quem quer tirar uma fatia de bolo com um 3D convertido. Isso porque, afinal, o bom e único 3D é aquele feito à maneira tradicional: durante as filmagens. No outro, você já está resgatando um filme de 15 anos de idade, convertendo-o e agindo da mesma maneira que aqueles que você criticou. Quem é você? Obviamente, James Cameron pagando com a língua. E pagando feio, porque ainda lançou um resultado pior do que o daqueles que julgou incapazes de apresentarem um produto decente.

A nota desta crítica se refere unicamente ao lançamento de Titanic em 3D, e não ao filme em si (que todos já têm opiniões cimentadas após longos anos de existência delas).

Titanic 3D
por Eduardo Mercadante 

O ato de ver um filme não se baseia pura e simplesmente na obra e na visão. A conjuntura é de extrema importância. Onde, quando, com quem… Há inúmeras variáveis de circunstância que transformam a experiência cinematográfica no que de fato é. É, pois, necessário dividir desde já os leitores dessa crítica em dois: quem viu o longa no cinema e quem não.

Titanic é do seleto grupo de filmes que são a definição de blockbuster, tendo sido a maior bilheteria da história, até o lançamento o gigante Avatar. Coincidência ou não, ambos são assinados – roteiro, produção e direção – por James Cameron. Um dos diretores mais importantes das ultimas décadas, ele é conhecido por suas obras grandiosas e pelo trabalho com efeitos visuais, chegando a criar câmeras especiais para gravar a história dos Na’vi.

No alto de sua humilde posição de autoridade no assunto, Cameron deixou clara sua opinião sobre 3D de pós-produção (quando o filme é gravado em 2D e depois convertido para 3D) quando execrou produções como Fúrias de Titãs e Alice no País das Maravilhas, que usufruíram dessa técnica. No entanto, Titanic é o perfeito exemplo da máxima “façam o que digo, e não o que faço”. A estatueta do Oscar de Efeitos Visuais (uma das onze que Titanic venceu – feito só igualado por Ben Hur e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei ) provavelmente estaria em risco se essa conversão completamente desnecessária estivesse já no original. De fato, o espectador não percebe que está numa sala; não porque a conversão foi perfeita, mas porque é quase impossível detectar alguma cena 3D que já não tivesse a noção de profundidade embutida em qualquer 2D. Não é necessária uma sala de IMAX 3D para se sentir no papel de Rose (uma brilhante atuação de Kate Winslet) e Jack (um Leonardo DiCaprio promissor, mas longe de seu auge) na proa do navio.

Essa é, essencialmente, a diferença do relançamento para sua origem. Fica, então, a dúvida sobre o real motivo para a volta às telonas. Seria uma “nova visão da obra”, ou a velha obsessão capitalista pelo lucro máximo? A resposta, para o espectador, é irrelevante. Quem já conhece a obra da apresentação em 1998, só volte se for fã, porque a experiência é a mesma, tirando o som ensurdecedor das salas IMAX. Para quem só a conhece de suas milhões de exibições semanais na TV a cabo, vale muito a pena procurar alguma sessão financeiramente em conta (porque os preços estão abusivos), e aproveitar a oportunidade única de ver um clássico atemporal. Gostando ou não de Titanic, vê-lo é algo para contar a netos e bisnetos.

Analisando o filme em si, percebe-se por que o roteiro não era uma das quatorze indicações. Baseado no conhecido acidente do RMS Titanic – o “gigante inafundável”, que afundou ao se chocar com um Iceberg em meio ao Atlântico – o enredo acompanha os fatos sob a ótica de um Romeu e Julieta do século XX. É desnecessário relatar a sinopse, porque não deve haver uma alma viva que nunca tenha pelo menos ouvido falar na história. Entretanto, deve-se ressaltar a irregularidade do roteiro, que mostra sua fraqueza na conclusão, tendo múltiplos fins, e sendo o ponto mais impactante anterior ao desfecho do casal principal. Em miúdos, Titanic muda de foco várias vezes, abusando de anticlímaxes.

Vendo à luz da época de lançamento, Titanic certamente mereceu muitas das estatuetas que recebeu, em especial as técnicas; contudo, a impressão é a de que a Academia decidiu transformar o filme numa marca, eternizando como líder de vítorias, com uma música que é inconfundível, na voz angelical de Celine Dion. Analogamente, essa é a provável justificativa para James Cameron pagar pela língua e apelar para um péssimo 3D (inferior até mesmo do que de outros filmes convertidos, como Alice no País das Maravilhas e o último Harry Potter – ambos usando o efeito de conversão criticado por Cameron), a fim de retornar aos cinemas. Como nos últimos tempos Hollywood tem fabricado aos montes bilheterias milionárias, o diretor quer relembrar a todos que sabe, sim, agradar ao público como ninguém.

Por todos esses motivos que se deve deixar o orgulho de lado e participar da experiência única, se for pela primeira vez, ou ficar em casa e aproveitar qualquer uma das reprises semanais, caso já tenha visto na primeira exibição.

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Titanic 3D (EUA, 1997-2012). Drama. 20th Century Fox/Paramount Pictures
Direção: James Cameron
Elenco: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Billy Zane

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Críticas, Drama