CRÍTICA | Tomb Raider: A Origem

Ação
// 15/03/2018

O reboot da saga cinematográfica da célebre exploradora e arqueóloga britânica – e ícone gamer – Lara Croft, aqui apresentada ainda antes da idade adulta, une uma estrutura narrativa que segue à risca padrões estabelecidos tanto por games modernos de aventura quanto filmes clássicos do mesmo gênero, como Indiana Jones, a um punhado de sequências de ação eletrizantes e tom consideravelmente mais sério e “realista” que as duas aventuras de Croft protagonizadas por Angelina Jolie no início dos anos 2000. Trata-se de uma das mais sólidas adaptações de jogos eletrônicos dos últimos anos. Mas acontece que, em um nicho tão notoriamente irregular (clique em cada palavra para entender), dizer isso não chega a ser lá muita coisa.

Estrelado pela premiada sueca Alicia Vikander – que interpretou a androide Ava no excelente Ex Machina e ganhou um Oscar de atriz coadjuvante por A Garota Dinamarquesa – e dirigido pelo norueguês de nome ogro Roar Uthaug, Tomb Raider: A Origem evidencia admirável cuidado em construir uma história que progride, em grande parte, de forma coerente e interessante, diferentemente de boa parte da enxurrada de blockbusters que a incansável indústria norte-americana despeja todos os anos nas telas mundo afora.

Embora tenha praticamente duas horas de duração, o filme tem início com ritmo exemplar, e, após uma breve introdução da protagonista por meio de uma série de situações que caberia perfeitamente nos tutoriais iniciais de inúmeros games da década passada para cá, não perde tempo em dar início à trama principal. E, com a mesma rapidez, somos apresentados ao elo mais fraco do filme: a performance e caracterização francamente bizarra de Dominic West como o pai de Lara, Lorde Richard Croft, peça fundamental para o enredo e do desenvolvimento da própria personagem principal.

Conforme passamos da primeira hora de exibição, o desenrolar até então sólido e lógico dos acontecimentos começa a engasgar e apelar para um número maior de clichês. Como acontece nos jogos mais recentes da saga Tomb Raider, que também passou por um reboot recente nos videogames, a jovem Lara foca em suas habilidade com arco e flecha, em vez das emblemáticas pistolas gêmeas da era anterior (ou seria posterior?) da personagem. Mas, ao contrário do que possa parecer, isso não é uma boa notícia para as hordas de vilões genéricos sob o comando do vilão Mathias Vogel, em interpretação também bizarra, mas dessa vez no “bom” sentido, de Walton Coggins (Os Oito Odiados), cujo carisma peculiar se alia ao da própria Vikander para prender a atenção do público e suprir a atuação modesta do restante do elenco de apoio, completado por Daniel Wu como o navegador Lu Ren, e Kristin Scott Thomas como Ana, a tutora legal de Lara.

A parte mais difícil em adaptar um jogo de videogame para a tela grande talvez seja manter a identidade e apelo originais ao mesmo tempo em que se garante que o produto final não seja destinado apenas àqueles que já o conhecem – afinal, o público de cinema em geral é bem mais variado que o dos games. Muitas vezes isso se deve a uma dificuldade de logística narrativa – Need for Speed, por exemplo, nunca teve muitos elementos narrativos para se adaptar, pra começo de conversa – ou mesmo pela pura relutância do diretor em contar uma história que não parta primordialmente de sua visão pessoal, como parece ter sido o caso de Paul W.S. Anderson e sua pífia franquia cinematográfica da série Resident Evil. Tomb Raider, por outro lado, oferece uma grande personagem em contextos perfeitamente familiares e interessantes a qualquer ser humano minimamente versado em cultura pop. Aqui, Vikander e Uthaug fazem bonito na construção desses dois elementos. Para o inevitável próximo longa, no entanto, falta ainda um carinho maior para com todo o resto.


Tomb Raider (EUA / Reino Unido, 2018). Aventura / Ação. GK Films /MGM, Warner Bros.
Direção: Roar Uthaug
Elenco: Alicia Vikander, Dominic West, Walton Goggins, Daniel Wu, Kristin Scott Thomas

 

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Categorias
Ação, Críticas, Games