CRÍTICA | Trainspotting 2

Críticas
// 24/03/2017
trainspottin 2

É suspeitíssimo realizar uma sequência de um clássico cult duas décadas depois, em pleno cenário de “agarre uma franquia quem puder”? É, muito. Mas a coisa começa a ganhar credibilidade quando essa continuação é feita pelo mesmo diretor, o sempre interessante Danny Boyle, e com o mesmo elenco principal do original. E as suspeitas se esvaem de vez quando a obra funciona como um perfeito complemento e contraponto à trama e questões levantadas em 1996. Se Trainspotting falava sobre inadequação, escapismo, autodestruição e ego, T2 trata de envelhecimento, propósito, expectativas e a efemeridade da juventude.

O necessário amadurecimento da premissa salta inicialmente aos olhos ao percebermos que, diferentemente do primeiro, Trainspotting 2 não é um filme que gira em torno do (ab)uso de drogas, ainda que contenha uso e abuso de drogas, assim como os temas e protagonistas mais maduros não significam que o longa não seja extremamente autorreferencial dentro do universo criado pelo autor dos livros que inspiraram ambos os filmes, Irvine Welsh. Mark Renton (Ewan McGregor), Simon “Sick Boy” Williamson (Jonny Lee Miller), Danny “Spud” Murphy (Ewen Bremner), Francis “Franco” Begbie (Robert Carlyle) e Diane (Kelly Macdonald) agora são pessoas de meia idade, e, com exceção de um deles, deixaram a heroína para trás, ainda que outras substâncias, como cocaína e Viagra, rondem suas rotinas.

Sick Boy tem uma namorada, ou parceira de negócios – depende de para qual dos dois você perguntar -, Veronika (Anjela Nedyalkova). Spud tem uma ex-esposa e um filho. E o psicótico Begbie tem um desejo de vingança contra Renton, que tem problemas cardíacos, por ter traído e roubado os outros três, vinte anos atrás. Conforme os personagens interagem, brigam, se enganam, dissimulam e perseguem pelas ruas, pubs e inferninhos de Edimburgo, são confrontados com “fantasmas” de suas versões mais jovens. Essas figuras, porém, mesmo que flertassem com a morte nos braços do vício, de certa forma ainda exalam mais vida e possibilidades que as versões atuais mais velhas, pacificadas pelo tempo e cansadas do mundo.

A direção firme e característica de Boyle e a fotografia do habitual colaborador Anthony Dod Mantle (127 Horas, Quem Quer Ser um Milionário?, Extermínio) acertam em cheio no aspecto de “inovação envelhecida”, cheio de jogadas visuais espertinhas e um exagero irônico no uso das paralisações dramáticas da ação, típicas do estilo modernoso do final dos anos 90, e uma trilha sonora à altura. O elenco, com a ocasional exceção de Carlyle, que às vezes parece travado como Begbie, e Macdonald, cuja participação como Diane é praticamente momentânea, demonstra entrega e sintonia com o tom ardilosa e respeitosamente superficial do longa, na inevitável comparação com o original.

O filme não mergulha de forma dramática como o primeiro nas questões existenciais, até porque Renton, Sick Boy, Spud e Begbie não trazem em si a fúria juvenil que causa a ignição desse tipo de questionamento. Em vez disso, as questões são verbalizadas, de forma cínica e hilária, com direito à atualização sintomaticamente rasa do clássico discurso “escolha uma vida” de McGregor, numa típica “cena para o trailer” que é contrabalançada pela maravilhosa tomada final no quarto de Renton. Concretizado quase 15 anos após a sua contraparte literária, Pornô, na qual é apenas vagamente baseado, Trainspotting 2 confere epílogo e conclusão mais que apropriados à saga desses desajustados escoceses, e, misericordiosamente, passa longe do aspecto puramente caça-níquel tão característico de produções do tipo.


T2 Trainspotting (Reino Unido, 2017). Drama. DNA Films.
Direção: Danny Boyle
Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Anjela Nedyalkova.

9-pipocas

 

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Críticas, Drama