CRÍTICA | Transcendence – A Revolução

Críticas
// 18/06/2014

Com uma trama tecnológica bem menos inteligente e ambiciosa do que o pretendido, Transcendence – A Revolução ainda contraria o próprio material de divulgação e joga Johnny Depp – o suposto grande destaque do projeto – pra escanteio, em um papel que se torna quase secundário. E esses são apenas alguns dos tropeços desta nova ficção científica.

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Transcendence – A Revolução
por Eduardo Monteiro

O Exterminador do Futuro, Ameaça InvisívelStealth, Robocop – O Policial do Futuro, Controle Absoluto, TRON – Uma Odisseia Eletrônica, Matrix e Eu, Robô. Caso a personagem de Rebecca Hall tivesse assistido a qualquer um desses filmes e compartilhasse minimamente dos temores que a sociedade vem alimentando ao longo de décadas em relação aos limites cognitivos de componentes eletrônicos, Transcendence – A Revolução provavelmente jamais teria existido. Mas não: no roteiro do estreante Jack Plagen, Evelyn Caster (Hall) é uma pesquisadora que, por amor ao cientista da computação Will Caster (Johnny Depp) e sem temer as consequências de um procedimento ambicioso nunca antes realizado com um humano, faz o arriscado upload da consciência do marido moribundo para um sofisticado módulo de inteligência artificial – o que acaba transformando Transcendence em uma mistura inusitada e inoportuna de qualquer um dos filmes citados no início deste parágrafo com Ela, Os Invasores de Corpos e Romeu e Julieta.

Estreia do diretor de fotografia Wally Pfister (colaborador fiel de Christopher Nolan, que aqui apenas produz) como cineasta, Transcendence é um verdadeiro repositório de influências do diretor que impulsionou sua carreira – a começar pelo elenco, que traz figuras como Cillian Murphy, Morgan Freeman (ambos da trilogia Batman) e Rebecca Hall (O Grande Truque). Em termos de identidade visual, paira a dúvida quanto à origem das influências (seriam os planos aéreos, por exemplo, uma contribuição de Pfister como cinegrafista à estética da obra de Nolan, ou o contrário?), ao passo que a cadência da montagem de David Rosebloom, pelo menos no que diz respeito às sequências que abrem e fecham a narrativa, remete fortemente ao belo trabalho de Lee Smith em A Origem. Pra completar, nem Mychael Danna consegue escapar das comparações: a trilha sonora mais parece composta por um Hans Zimmer bêbado e entediado com a tarefa de produzir a mesmíssima partitura pela milionésima vez.

Em uma posição diametralmente oposta à de Evelyn, o grupo terrorista liderado pela jovem Bree (Kate Mara) parece ter assistido a ficções científicas demais e alimentado um pavor descontrolado em relação a qualquer tipo de inteligência artificial – e o bando até representaria um excelente contraponto às ideologias questionáveis dos cientistas caso as motivações por trás dos ataques ficassem mais claras e seus integrantes não parecessem meros psicopatas desvairados, fechados a qualquer tipo de negociação. Aliás, Transcendence provavelmente também não existiria caso seus personagens compreendessem o conceito básico de diálogo: em momento algum o FBI, representado pelo agente Buchanan (Murphy), parece interessado ou até mesmo disposto a ouvir e tentar compreender de fato os propósitos da companhia fundada e comandada pela Inteligência Artificial cuja consciência provém do então falecido Dr. Will, o que poderia evitar a maior parte dos (ou até todos os) conflitos.

Desperdiçando dezenas de chances de discutir as questões éticas e morais que rodeiam os protótipos de Inteligência Artificial e nanotecnologia apresentados, o filme também ousa subestimar a inteligência do espectador em algumas situações: quando a narrativa salta dois anos, por exemplo, vemos a versão computadorizada de Will Caster detalhando certas pesquisas para Evelyn, o que não faz o menor sentido, já que a mulher obviamente esteve nas instalações acompanhando o processo durante todo aquele tempo (as explicações são, na verdade, endereçadas ao público). Além disso, o filme conta com um ou outro plano absolutamente aleatório e dispensável, cujo propósito não vai além do exibicionismo estético fajuto – como a imagem em câmera lenta de uma poça d’água sendo perturbada pela roda de uma caminhonete. Para completar, as sequências de ação são insossas e, em última instância, desnecessárias, o que naturalmente compromete a produção.

Prejudicado ainda por um desfecho tolo em múltiplos níveis e por uma galeria de personagens mais inchada do que o ideal, Transcendence – A Revolução é um claro e lamentável desperdício de talentos que, em suas funções prioritárias ou nos projetos certos, já nos proporcionaram bem mais diversão e muito menos aborrecimento.

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Transcendence (EUA, 2014). Ficção-Científica. Diamond Filmes.
DireçãoWally Pfister
Elenco: Johnny Depp, Paul Bettany, Morgan Freeman, Cillian Murphy, Kate Mara

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