CRÍTICA | Transformers: A Era da Extinção

Ação
// 16/07/2014

O quarto filme da franquia Transformers chega aos cinemas brasileiros já como a maior bilheteria internacional de 2014. Com elenco renovado, orçamento estratosférico, duração de quase três horas e pouquíssima coerência de enredo, o longa traz o suprassumo do estilo “tiro, porrada e bomba” do diretor Michael Bay. E bota bomba nisso.

Transformers: A Era da Extinção
Por Gabriel Costa

Se o primeiro filme baseado na linha de engenhosos brinquedos, lançado em 2007, manteve a dignidade com uma divisão decente entre os aspectos de ficção, aventura, pastelão, romance e ação, aliada ao caráter de novidade, e o segundo se sustentou basicamente no status então em alta de Megan Fox, o terceiro já chegou às telas com sinais de cansaço, tanto por parte do elenco como do próprio público. Afinal, os três longas – todos com mais de duas horas de duração – saíram vertiginosamente ao longo de menos de cinco anos. Agora, após um hiato de mais três, Michael Bay volta à carga com um novo longa que misericordiosamente não é um reboot, ainda que tenha toda a cara de um.

Sam Witwicky, o personagem de ShiaLaBeouf, protagonista da trilogia original, nem chega a ser mencionado. Quatro anos passaram desde a invasão de Chicago pelos Decepticons, retratada em O Lado Oculto da Lua, e aqui, o ponto de vista humano para as encrencas robótico-alienígenas vem na forma do mecânico Cade e sua filha Tessa Yeager, interpretados por Mark Wahlberg e Nicola Peltz, respectivamente. Cade, viúvo, pai superprotetor e passando por dificuldades financeiras, compra um caminhão em péssimo estado para aproveitar as peças e tentar juntar algum dinheiro para pagar pela faculdade de Tessa.

Obviamente, o caminhão é mais especial do que parece, o que coloca a família, o sócio de Cade, Lucas (T.J. Miller) e o namorado de Tessa, Shane (Jack Reynor) na mira de uma equipe secreta da CIA, liderada por um equivalente mais sério e impiedoso do personagem de John Turturro nos filmes anteriores, na pele do discreto veterano TitusWelliver. Completam a receita um funcionário canalha de alto escalão do governo americano (KelseyGrammer), uma megacorporação que almeja construir seus próprios Transformers, liderada pelo multidimensional (pra não dizer indeciso) Joshua Joyce (Stanley Tucci, da série Jogos Vorazes) e um Transformerinexcrupuloso caçador de recompensas, Lockdown.

Todos esses personagens e situações essencialmente se esbarram e correm de explosões por boa parte dos Estados Unidos e, no terço final do filme, da China, enquanto a trupe de Cade inexplicavelmente acompanha o grupo de robôs gigantes pesadamente armados como se pudessem ser de alguma utilidade para eles. A falta de coerência, contudo, fica em segundo plano frente às construções visuais tão estapafúrdias quanto impressionantes. Estamos falando de um filme que mostra um super-robô que se transforma em caminhão empunhando uma espada enquanto cavalga um tiranossauro mecânico que cospe fogo, tudo mostrado com efeitos e fotografia impecáveis. Em seus melhores momentos, Transformers é uma obra primordialmente sensorial e conceitual, quase um filme de arte às avessas. A parte musical da trilha sonora, contudo, é curiosamente anticlimática, e os trechos de músicas lentas e climáticas das bandas Imagine Dragons e LinkinPark acabam sendo um acompanhamento menos efetivo para a ação que os estrondos das explosões, tiros e bordoadas robóticas.

O longa ganha pontos ao carregar menos nos momentos de pastelão e assumir um tom ligeiramente mais sério, mesmo que os Transformers ainda se comportem como crianças em diversos momentos. Vale ressaltar que parte disso se perde quando a ação é movida para a China, e Bay, aparentemente buscando cair nas graças da potência oriental, cria participações aleatórias para celebridades chinesas como o boxeador olímpico ZouShiming e o popstar e ator HanGeng. Também parece estranho – e até de mau gosto – que Nicola Peltz – da série Bates Motel – seja apresentada como novo símbolo sexual feminino da série enquanto Cade não perde uma chance de chamar a atenção de todos para o fato de que ela é menor de idade.

O produto – e o termo é exatamente esse, talvez mais do que em relação a qualquer outro filme da história do cinema – oferecido pela Paramount é feito para ser apreciado com lado racional do cérebro desligado. Mas quem tiver fôlego físico e mental para aguentar as duas horas e quarenta e cinco minutos do filme, o mais longo da série até agora, nesse estado de quase meditação certamente encontrará algumas recompensas ao longo do caminho.

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Transformers: Age of Extinction (EUA/China, 2014). Ação. Ficção Científica. Paramount Pictures
Direção: Michael Bay
Elenco: Mark Wahlberg, Nicola Peltz, Stanley Tucci, Jack Reynor, TitusWelliver

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