CRÍTICA | Três Anúncios para um Crime

Críticas
// 02/03/2018

Três Anúncios Para um Crime é uma obra rara. Daquelas que unem um excelente elenco, composto por atores e atrizes no auge de sua capacidade e desenvoltura, a um diretor inspirado e comprometido – em trazer um roteiro contundente e afiado à vida afinal, ele também é o autor. Claro que essa receita poderia descrever vários dos filmes de um Quentin Tarantino, por exemplo. Mas, enquanto os longas do vaidoso diretor de Kill Bill personificam os interesses e referências muito particulares de um cineasta, o que temos aqui ganha suprema relevância por tratar não de um universo à parte do nosso, e sim de uma exploração profunda e impactante, mas nunca desprovida de sutileza, das relações, motivações e expectativas envolvidas nas relações humanas, tanto em sociedade quanto nos mais íntimos âmbitos interpessoais e familiares.

Desde os primeiros segundos de exibição, em uma tomada externa aparentemente inócua que apresenta ao público as três estruturas publicitárias do título, Frances McDormand estabelece sua peculiar – e poderosa – presença como Mildred Hayes, mãe de uma jovem que foi estuprada e morta meses antes, sem que um culpado tenha sido encontrado pela polícia da minúscula cidade de Ebbing, Missouri. Mildred, nesse momento, decide tomar uma atitude a respeito.

Nos próximos minutos, em lenta e constante ebulição que permanece ao longo de quase todo o filme, o público é apresentado aos representantes da lei em Ebbing, na forma do oficial Dixon e do xerife Willoughby, em interpretações igualmente seguras, cativantes, revoltantes e idiossincráticas de Sam Rockwell e Woody Harrelson. Ambos já haviam trabalhado com o diretor Martin McDonagh no ótimo (apesar do duvidoso título em português) Sete Psicopatas e um Shih Tzu, de 2012, que já evidenciava a tendência do cineasta em romper grilhões de gênero e incluir metacomentários sobre as tramas no próprio desenrolar das mesmas.

Em Três Anúncios, McDonagh monta pacientemente, ao longo de quase uma hora de diálogos memoráveis – igualmente divididos entre divertidos e brutais – um delicado tabuleiro de xadrez, onde a posição de cada peça faz pressão sobre as de todas as outras. Em seguida, ele chuta o tabuleiro. Uma guinada brusca, tão surrealmente imprevisível quanto a vida, joga as peças, que incluem ainda o filho de Mildred, Robbie (Lucas Hedges, de Lady Bird), o administrador dos anúncios, Red Welby (Caleb Landry Jones, também afiado), entre outras figuras da cidadezinha, em direções totalmente inesperadas, enquanto o próprio tom do filme parece oscilar. Em três situações separadas, o elemento do fogo aparece como força destruidora e transformadora, formando um tripé temático ao redor do qual o impasse em Ebbing repetidamente se reestrutura.

Apesar de notavelmente impiedoso com personagens e espectadores no que tange às consequências inescapáveis das escolhas de cada um, o filme nunca perde de vista a ironia e mesmo o humor, ainda que sombrio, inerentes à ingenuidade humana ao fazer essas escolhas enquanto, tolamente, se julga imune ao acaso. Mais que isso: a narrativa se abstém de fazer julgamentos morais para qualquer um dos lados, mesmo que, talvez – apenas talvez –, um viés esperançoso possa ser detectado, no fim das contas. A ambiguidade segue créditos adentro, pivô para indagações e questionamentos que seguem em pauta no mundo real, para muito além de satisfatórias conclusões fictícias.


Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (Reino Unido/EUA, 2017). Drama. Film 4 / Fox Searchlight Pictures.
Direção: Martin McDonagh
Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Peter Dinklage, Caleb Landry Jones, Abbie Cornish, Lucas Hedges.

9-pipocas

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Categorias
Críticas, Drama