CRÍTICA: Tropa de Elite 2

Ação
// 09/10/2010

Estreou ontem em distribuição recorde dentro do cinema nacional o fenômeno Tropa de Elite 2. Causando burburinho em todos os cantos do país (os assuntos mais comentados do Twitter podem lhe ajudar a verificar isso), o filme reflete um misto de realidade perceptível a olho nu, mas também latente, fundindo numa história amarrada, coerente e intensa.

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Tropa de Elite 2
por André Blak – colaborador

Continuação de um filme de sucesso? Tô fora! Não gosto desse negócio de parte 2 e, se não fossem as exceções de O Poderoso Chefão 2 e Kill Bill Vol. 2, eu generalizaria o desgosto. Portanto, se querem me tirar de casa para ver parte 2 de seja lá o que for, não me convide. Essa rotina permaneceria inabalada, não fosse o cinema de José Padilha. Não bastando seu genial documentário Ônibus 174, é também o criador de um dos mais bem sucedidos personagens da história do cinema nacional. Seu Capitão Nascimento, mesmo pirateado a torto e a direito, fez de Tropa de Elite um clássico instantâneo. Um sucesso tão arrebatador que rendeu a continuação que estreou nessa sexta-feira.

E lá fui eu na pré-estréia esperando por um bom filme de ação, violência à flor da pele e meia dúzia de bordões chiclete para sair por aí repetindo ao vento. Me enganei redondamente. Alguém consegue conceber a ideéia de ver uma continuação onde a última coisa que passa pela sua cabeça é compará-lo com o primeiro filme? Pois é, Tropa de Elite 2 é absolutamente diferente do original, pista já deixada no slogan “O inimigo agora é outro”. Esqueça essa história de “é melhor ou pior do que o primeiro”, não cabe comparação. Não bastando ser diferente, trata-se de um filme inventivo, impecável e muito, mais muito corajoso. Tudo nessa continuação é bem mais sério e sombrio do que antes. Por outro lado, heroísmo é algo que praticamente deixou de existir. Se você achou “Tropa 1” realista, sinceramente, não viu nada ainda.

Roberto Nascimento (Wagner Moura, sempre perfeito) agora é tenente coronel comandante do BOPE e, auxiliado pelo agora Capitão André Mathias (André Ramiro), abre o filme com a missão chapa quente de encerrar uma rebelião em Bangu 1 liderada pelo traficante Beirada (Seu Jorge, assustador). Resolvem a parada, mas grupos de direitos humanos, liderados pelo ativista Fraga (Irandhir Santos), os denunciam pela violência. A cabeça de Nascimento seria degolada pelo governo, não fosse a aclamação pública do coronel como herói. Como na política o mais importante é a imagem, ao invés de ser demitido, Nascimento é nomeado subsecretário da inteligência, trabalhando diretamente para a Secretaria de Segurança e para o governador do Rio.

Isso é só o começo de uma trama rocambolesca onde não faltam políticos corruptos (André Mattos hilariante), policiais milicianos (Milhem Cortaz, mais uma vez roubando todas as cenas em que aparece, e Sandro Rocha, brilhante revelação), pacificação de favelas e muita crise de consciência de um herói trágico. Se Nascimento parecia o Super-Homem no primeiro filme da série, agora estamos diante de um legítimo “Batman cavaleiro das trevas” tupiniquim. Um herói que sabe que não é herói e tenta a todo custo aprender a viver com a dor da solidão e do seu isolamento ideológico. Essa mudança radical de postura do Nascimento é a primeira grande qualidade do filme. O primeiro Tropa de Elite foi exaustivamente taxado de fascista (erroneamente, diga-se de passagem) e Tropa de Elite 2 é um exercício de dialética ao primeiro capítulo da série.

A trama é perfeitamente amarrada em um roteiro para lá de enxuto e perfeitinho. Tão perfeito que não dá margem para o espectador respirar um só segundo. Sentimos um misto de raiva, incômodo, gastura e indignação. Na primeira metade ainda conseguimos dar umas risadas nervosas, mas com o decorrer do filme ficamos tomados pela tensão. Rodrigo Pimentel (ex-policial autor do livro que deu origem aos filmes) faz uma participação puxando aplausos para Nascimento dentro de um restaurante. Mas ele, Padilha e Bráulio Mantovani, autores do roteiro, também merecem.

Há de se destacar com brilhantismo a qualidade técnica do filme, com enquadramentos e fotografia estupenda de Lula Carvalho (definitivamente, tão bom quanto o pai Walter), montagem frenética de Daniel Rezende e uma espetacular edição de som de Alessandro Laroca. Além dos efeitos visuais feitos pela equipe estrangeira encabeçada por Bruno Van Zeebroeck, a finalização do filme também foi realizada nos EUA, culminando em um resultado final poucas vezes visto na cinematografia brasileira.

Mas o que faz de Tropa de Elite 2 o filme evento do ano não é todo o esmero da sua caprichada produção. Mesmo que estejamos diante de um filme esteticamente perfeito, não dá para sair ileso diante de tanta informação documental travestida de ficção. Os políticos vilões e mocinho (sim, só o Fraga representa o lado branco da força) são perfeitamente reconhecíveis para os brasileiros, mais ainda para os cariocas. Até mesmo o espectador mais politizado se surpreenderá com as propostas do filme. Algo tipo “como nunca percebi isso antes?”. Enfim, um filme que, se lançado há mais de um mês atrás, poderia ter mudado o resultado das urnas na última eleição.

Ficam algumas certezas. Zé Padilha prova que é um dos maiores cineastas em atividade do Brasil. Tropa de Elite 2 nasceu fenômeno, com sessões já esgotadas antes mesmo do seu lançamento (viva o advento dos ingressos antecipados on line). Em uma operação inédita e recorde, chega a 661 salas de cinema do país (a maior distribuição de um filme brasileiro em todos os tempos), exclusivamente em cópias 35mm (como forma de repressão à pirataria antecipada). Enfim, estamos ou não diante do potencial número 1 de bilheteria da retomada? Constatemos em algumas semanas…

Tropa de Elite 2 (Brasil, 2010). Ação. Globo Filmes.
Direção: José Padilha
Elenco: Wagner Moura, Seu Jorge, André Mattos.
Trailer

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