CRÍTICA: Tudo Pelo Poder (The Ides of March)

Críticas
// 23/12/2011

George Clooney, estrela hollywoodiana bastante politizada, volta a dirigir, roteirizar e atuar um filme igualmente politizado. Tudo Pelo Poder é uma tentativa bem sucedida de entrar nos bastidores da política. O roteiro é adaptado de uma peça atual e não traz novidades para um espectador mais experiente, seja em cinema ou em política, mas é um bom filme mesmo assim, além de ter um ótimo elenco.

Tudo pelo Poder
por Henrique Marino 

 George Clooney interpreta um ousado e íntegro governador concorrendo a candidato Democrata da próxima eleição presidencial. Seu chefe de campanha é Paul (Philip Seymour Hoffman, ótimo como comumente), que tem por braço direito Stephen Meyers (Ryan Gosling, estrela em forte ascendência, especialmente nesse ano). Paul Giamatti é o chefe de campanha do adversário, e também cumpre com excelência seu papel. Giamatti e Hoffman se contrapõem como experientes inimigos, enquanto Stephen é posto como um jovem promissor, desejado por ambos pelo seu brilhantismo. Na parte feminina do elenco, há Marisa Tomei, uma jornalista que se mantém próxima a esses homens por trás do palco em busca de exclusivas, e Evan Rachel Wood que, interpretando uma estagiária, consegue acompanhar o ritmo do elenco. O papel de Wood é vital para a trama pelo seu apelo sexual. Todos esses são atores bem requisitados, mas as interpretações aqui são comedidas, nenhuma suscita paixão, mas são ótimas de todo jeito.

Tudo Pelo Poder não é empolgante porque não é um suspense político com montagem rápida e abrupta, nem mesmo no clímax. Não existe adrenalina em momento algum. Os personagens não são expostos como heróis lutando contra o mal. Contudo, é um filme envolvente e objetivo. Envolvente porque, desde a premissa, sabemos que o campo da política é movediço e traiçoeiro. Não precisamos que o roteiro nos dê um suspense para esperarmos uma reviravolta na trama, ela vai acontecer cedo ou tarde. O roteiro, neste caso, tem a função de construir o cenário dessa reviravolta para encaixá-lo num momento adiante, onde as jogadas e os erros das personagens custarão um preço e serão claramente reveladas. O roteiro constrói tudo isso objetivamente, tendo cada cena seu lugar e sua repercussão na história, e sem aquela pressa para agitar o público.

Com a exceção de uma tragédia que pesa no coração do protagonista e do espectador, que é levado a se identificar com o sofrimento dos personagens envolvidos, o filme não é emocional; ele não conta a história de uma vitória convencional e emocionante com um romance no meio. Por outro lado, tampouco é cerebral, porque não se apega à crítica política, nem a debates ideológicos. Tudo Pelo Poder é sobre a personalidade de um homem fustigada pelo cinismo do jogo político e como isso é capaz de transformar um idealista em outra cínica peça do tabuleiro.

Este homem é o protagonista Stephen Meyers, bem interpretado por Ryan Gosling. Logo nos primeiros minutos, temos a juventude e a ingenuidade sutilmente delineadas nas atitudes do personagem; como exemplo, uma brincadeira despretensiosa ao microfone. E, ao fim, num close revelador, notamos o enrijecimento e o arrefecimento de seu caráter. Neste momento final é onde brilha a trilha sonora de Alexandre Desplat. Ao longo da película, a sua música lembra marchas militares americanas, variando de acordo com o tom da cena. Pouco chamativa, a trilha serve de simples acompanhamento. Mas nessa última cena, a música de Desplat soa mais alta, e através dela sentimos a dura transformação pela qual o protagonista esteve sujeito. A câmera auxilia nesta mensagem, contornando Ryan Gosling de sua nuca até um plano fechado em seu rosto, e assim vemos que aquele jovem não é mais o mesmo.

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The Ides of March (EUA, 2010). Drama. Califórnia Pictures.
Direção: George Clooney
Elenco: George Clooney, Ryan Gosling, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood
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Críticas, Drama