CRÍTICA | Tudo Pode Dar Certo

Críticas
// 14/08/2010
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No final de Igual tudo na vida (Anything else, 2002), do mesmo diretor, o protagonista Jerry, um escritor principiante interpretado por Jason Biggs, divaga no banco de trás do táxi: – “Como é estranha a vida, plena de inexplicável mistério”, – e o taxista responde, dando de ombros: – “é, igual tudo na vida”.

O novo filme de Woody Allen, também ambientado em Manhattan, traz mensagem parecida, mas ao invés do Igual Tudo na Vida daquele, neste ele conclui: Tudo Pode dar Certo (Whatever Works). Diante do enigma inescrutável da vida, de sua simultânea imensidão e insignificância, resta se contentar com o que a sorte tem a oferecer, com tudo aquilo que pode dar certo, por menos grandioso que seja. Isto é, às intrincadas questões sobre o sentido da vida, talvez o melhor mesmo seja resignar-se com humildade e acolher respostas prosaicas.

No gênero da comédia de costumes, tem-se um filme com diálogos pontuados por sacadas afiadas e nada condescendentes sobre as relações humanas. Reina o tom satírico e espirituoso, oscilando entre comentários cheios de ironia e uma conivência com a amoralidade festiva da metrópole ilustrada. A narrativa é ágil e direta, situando claramente o conflito dos personagens. As tomadas valorizam as conversas nas ruas e nos interiores.

Os temas desse filme são típicos da filmografia do cineasta novaiorquino. Um protagonista inteligente, neurastênico, niilista, misantropo, paranóico, a todo momento transbordando de idéias (Hannah e suas irmãs, Desconstruindo Harry), desta vez encarnado no gênio anti-social ressentido divorciado quase-ganhador do Nobel em Física e atualmente professor de xadrez Boris Yelnikoff (Larry David). O verrumante Boris tagarela tanto que, quando não há interlocutor, olha diretamente à câmera e confidencia para a platéia (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa). Uma garota (bem) mais nova que se apaixona pelo homem mais velho, Boris, alter ego do cineasta (Manhattan). Um círculo de pessoas sofisticadas e liberais, apresentadas de modo caricato: artistas libertinos (Vicky Cristina Barcelona) e intelectuais carreiristas (Igual tudo na vida). O acaso como princípio último de um universo amoral, indiferente e ateu (A maldição do escorpião de Jade, Matchpoint, O sonho de Cassandra).

Se Tudo Pode Dar Certo contém o que de mais característico o cineasta independente produziu ao longo de seus quarenta longas-metragens (1966-), na forma e no conteúdo, aí também encontra a sua maior limitação. Aos familiarizados com a obra de Woody Allen, não dá pra contornar a impressão de repetição e previsibilidade, embora nada efetivamente dê errado.


Whatever Works (EUA, 2009). Drama.
Direção: Woody Allen
Elenco: Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Henry Cavill, Larry David

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Críticas, Drama