CRÍTICA: Tulpan

Críticas
// 06/04/2010

Primeiro longa ficcional do documentarista cazaque Sergey Dvortsevoy, Tulpan venceu o prêmio “Un Certain Regard”, em Cannes 2009, e encantou críticos e públicos no mundo, com o seu drama humanista e sensível sobre pastores nômades nas estepes infindáveis do coração da Ásia. Inscrito na tradição etnográfica de Robert Flaherty (de Nanook do Norte), o filme lembra o elogiado Os camelos também choram (Byamba Suren, 2003), ambientado no deserto mongólico e que também mistura elementos documentais e miméticos.

Tulpan
por Bruno Cava – colaborador

Filme fabular e sentimental, Tulpan conta o drama pessoal do jovem e teimoso Asa (Askhat Kuchinchirekov) para realizar os sonhos. Sem se render aos apelos de consumo e aventura da cidade, o seu paraíso é a árdua vida do Cazaquistão rural. Para obter o seu rebanho e formar a sua casa, ele precisa primeiro noivar, o que se mostrará uma missão ao mesmo tempo cômica e triste. Enquanto se esforça, vai desgastando-se com o cunhado Ondas (Ondasyn Besikbasov), pastor mais veterano que o acolhe em sua superpovoada iurta, enquanto Asa não conquista a desejada independência. No geral, o roteiro surpreende por tomar caminhos imprevisíveis dentro da tradicional estrutura dramática de três atos (apresentação, obstáculo/conflito, resolução).

Impressiona em Tulpan o áudio pungente. O som intensifica as incessantes ventanias da estepe, os mugidos e berros dos animais, os barulhentos filhos de Ondas — a menina canta (grita) o tempo todo e o caçula beira o insuportável com os seus guinchos e risadas. Tudo para criar a atmosfera vívida e espessa, de um realismo eloqüente que agradaria ao cine-verité de Jean Rouch e aos ensaios existencialistas de André Bazin.

A arte de Dvortsevoy se manifesta na capacidade de transformar uma matéria-prima incrivelmente simples na celebração da vida: as cenas mais prosaicas escondem mistérios e revelam a magia do ser humano mesmo nos momentos mais ordinários. Quando se chega à cena-clímax do parto da ovelha por Asa, o espectador está tão envolvido pela história e pelo personagem, que o escatológico evento veterinário veste-se de um sentido profundo e arrebatador.

Um filme de força e densidade, Tulpan compõe um quase-documentário sobre a dura realidade dos pastores cazaques com uma história vigorosa e convincente de personagens demasiado humanos, resultando num realismo poético de primeira potência.

Tulpan (Alemanha/ Suíça/ Cazaquistão/ Rússia/ Polônia, 2008). Drama.
Direção: Sergey Dvortsevoye John Scheinfeld
Elenco: Skhat Kuchinchirekov, Samal Yeslyamova, Ondasyn Besikbasov

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Categorias
Críticas, Drama