CRÍTICA: Um Ato de Liberdade

Críticas
// 07/05/2009

Às vezes, só conseguimos lidar com algo quando temos certa distância disto. Mais complicando ainda é transformar uma memória pessoal numa memória coletiva. Revisitar a história é sempre um problema, seja para os que viveram ela ou os que só a conhecem  contada pelos outros. A verdade é que nunca é fácil encarar essa experiência, ainda mais quando é vista pelos olhos de terceiros e contada pela boca destes. Um Ato de Liberdade (Defiance), com Daniel Craig, segue este tipo de processo de criação, altera a postura de um povo para aproximá-la das ideologias do cinema americano. Confira a crítica!

Um Ato de Liberdade
Por Eliézer Carneiro

Em Elogio ao Amor, Godard conta a vida de um diretor de Hollywood que procurava membros da resistência francesa para serem entrevistados em um documentário de Spielberg. Ele usa desse artifício para criticar o que seria a forma de Hollywood explorar as dores pessoais e dizer que busca história em outros países porque os EUA não tem a sua própria.

É realmente instigante olhar para esse interesse hollywoodiano em contar memórias de qualquer lugar do mundo, tramas às vezes tão distantes dos americanos – e talvez ai que esteja o problema, pois, quando a história é distante dos corações e mentes americanos, o caminho mais fácil acaba sendo o de adaptá-la para ganhar este público.

O grande problema de Um Ato de Liberdade é este. O ato do título é, na verdade, um ato de sobrevivência e de amor ao próximo.

O filme se passa na Bielorrússia no meio da segunda guerra mundial. Logo na primeira cena, o filme já mostra um vilarejo sendo atacado e dois jovens tentando fugir. Mais à frente iremos descobrir que tal vilarejo era judeu e os atacantes era policiais bielorrussos motivados pelo prêmio pago pelos nazistas a cada judeu entregue. A partir dessa primeira cena, a história do filme vai se desenrolar num jogo de gato e rato entre os judeus, que conseguiram fugir para a floresta, e os nazistas e a polícia local.

A trama se concentra em Tuvia (Daniel Craig), Zus (Liev Schreiber), Aron (George MacKay) e Asael (Jamie Bell), quatro irmãos que conseguem fugir do ataque ao seu vilarejo e se refugiam na floresta. Desta fuga, eles começam a traçar decisões que vão aos poucos moldando o destino de cada um. Surgem questões que são desde vingar ou não a morte do pai a aceitar ou não novos refugiados em seu meio. Decisões difíceis, que vão separando aos poucos os outrora unidos irmãos e acirrar uma disputa entre Tuvia e Zus. Tuvia, um líder nato, acaba ganhando o respeito dos refugiados pelo fato de se desdobrar para manter a ordem e o bem de todos no acampamento, mas esse respeito é algo que vai ser minado aos poucos, resultado de suas ações e também da falta delas em alguns casos.

Como dito, antes de tudo, o filme é um ato de sobrevivência. Os personagens não estão brincando de se esconder na selva, eles estão ali para salvar as suas vidas. É um ato de amor no sentido que em algumas situações os personagens se arriscam para salvar a vida de desconhecidos. Mas é impressionante como essa idéia de liberdade permeia o filme. Em certo ponto, chega a parecer que todos aqueles judeus sempre sonharam em estar nas gélidas florestas da Bielorússia porque ali eles poderiam ser livres, poderiam ser eles mesmos. É uma ideia ridícula e um erro em que muitos filmes de Hollywood caem ao tratar do tema, já que o publico americano adora ver no cinema idéias de liberdade, fraternidade e o moço bonzinho que sofre para vencer no final. E quando trabalha-se com história, não se pode ser tão maniqueísta. O cinema americano adora colocar o termo “baseado em fatos reais” nos créditos finais, mas esquece que cinema é representação e que o “fato real” ali mostrado não passa da visão de uma das pessoas sobre um momento que realmente ocorreu. Onde um vê liberdade outros vão ver a fome, o cansaço, o frio e a luta pela vida.

A verdade é que falta a Hollywood a aproximação do fato que quer contar. É fácil pegar a trajetória de um povo, moldar da sua maneira e contar para todo mundo da maneira que se quer. Fazer a revisão histórica que, por exemplo, o cinema alemão e o  argentino fazem é mais complicado. Um alemão não pode fazer um filme como A Queda, A Vida Dos Outros e Baader Meinhof Komplex sem tocar nas feridas ainda abertas do seu próprio povo, sem olhar para a própria responsabilidade e sofrimento sobre aquele fato e considerar que ele, querendo ou não, fez parte daquilo tudo e ainda carrega dentro de si os horrores do nazismo e da Alemanha dividida.

Emnota particular: quanto à trilha sonora, única indicação tida do filme no último Oscar, esta se passa imperceptível. Costumo prestar muita atenção nas trilhas, pois considero que cinema é, acima de tudo, ritmo. Infelizmente a trilha sonora pode até ser boa, mas não faz diferença para o andamento do longa. Não é o tipo de música que dita o ritmo do filme, além de terem desperdiçado a oportunidade de colocar a ótima melodia judaica e dos países do leste europeu, composições que tornaram filmes como Gata Preta e Gata Branca e Transilvânia quase clássicos.

No fundo, Um Ato de Liberdade não é um filme ruim. Apesar de longo, a narrativa prende e é interessante por certos aspectos. Mas para quem gosta de filme de guerra, é irritante ver bielorrussos agindo igual americanos.


Defiance (EUA, 2008). Drama, Guerra. Imagem Filmes.
Direção: Edward Zwick
Elenco: Daniel Craig, Liev Schreiber, George MacKay e Jamie Bell.

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Categorias
Críticas, Drama, Guerra