CRÍTICA: Coração Louco

Críticas
// 04/03/2010

Amanhã estreia no Brasil o longa Coração Louco, filme que rendeu ao ator Jeff Bridges uma indicação ao Oscar de Melhor Ator que muito provavelmente vá receber no próximo domingo. Com um tema já bem repetido, o filme se prova um recorte do melhor de vários personagens conhecidos deste mesmo tipo de produção e ganha o sustento na maneira como se desenvolve algo já muito falado pelo cinema.

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Coração Louco
por Eliezer Carneiro

À primeira vista, Coração Louco (Crazy Heart) pode parecer ser apenas um veiculo para Jeff Bridges brilhar novamente. O ator é mais que favorito a levar a estatueta de melhor ator no Oscar deste domingo, fazendo justiça não só a esse trabalho como a sua ótima carreira, visto que já tinha sido indicado outras quatro vezes para receber o prêmio. O ator é considerado pelos sites de apostas, junto com o filme A Fita Branca (em Melhor Filme Estrangeiro), como uma das duas barbadas do Oscar. E dificilmente deve perder essa disputa, já que todo mundo sabe que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood costuma não premiar apenas uma atuação individual, e sim fazer justiça a carreiras vitoriosas.

Voltando à frase inicial do texto, tanto o filme quanto o papel principal parecem ser feitos por encomenda para concorrem ao Oscar. O cinema americano adora historias de redenção e, levando em conta os concorrentes e vencedores dos últimos anos, não é nenhum espanto o sucesso do filme e da atuação de Jeff Bridges. Porém, quem tiver bons olhos, talvez possa enxergar um pouco além do previsível, já que esse é um filme de detalhes. Tanto no personagem principal quanto nas situações, são eles que fazem a diferença.

A trama do filme é centrada em Bad Blake (Bridges). Bad é um cantor country que fez muito sucesso no passado, mas hoje é apenas alguém solitário e alcoólatra que roda sozinho os EUA, em um carro antigo, fazendo shows em pequenos espaços e recebendo muito pouco por isso. Bad se sujeita a isso por dois motivos: 1- ele vive disso e tem contas a pagar. 2- ele ainda sonha em voltar ao topo. Em uma dessas viagens, Bad conhece a jornalista Jean (Maggie Gyllenhaal) por quem se apaixona e começa um relacionamento. Obviamente, durante o relacionamento, aparecem os problemas de alcoolismo e ela se fecha pelo fato de ter um filho pequeno e ser recém separada.

Daí o pode-se notar que essa é mais uma historia como milhares que o cinema conta todo ano. Sem voltar muito ao passado, quem não se lembra de Joaquin Phoenix e seu Johnny Cash que sofria de problemas com a família, drogas e solidão?  E do Jamie Foxx e seu Ray Charles que também sofria de problemas com a família, drogas e solidão? E voltando ao ano passado, como se esquecer do Mickey Rourke e seu Randy, o carneiro. Novamente: família, drogas e solidão? Três filmes com a mesma temática, com praticamente o mesmo papel e com o mesmo sucesso. Porém, nada mais justo que lembrar que as histórias são sempre as mesmas. O que as torna grandes, é a forma como elas são contadas. E, assim como todos os anteriormente citados – grandes filmes -, Um Coração Louco pode até não chegar lá, mas mira no mesmo alvo.

Logo na primeira cena, quando Bad conversa com seu empresário, ficamos sabendo que o cantor não compõe uma musica há muito tempo e, a se notar, essa é a grande questão do filme. Por que Bad não consegue mais compor? Por que Bad se tornou um artista incapaz de criar arte? Esta incapacidade não está ligada ao alcoolismo, visto que em uma cena ele consegue criar em companhia de um copo de uísque na mão. O problema não está na solidão, logo que em outro momento ele o faz acompanhado de sua própria respiração em sua casa, no auge do isolamento, seja ele qual for. Tampouco o problema reside na falta de vontade, o que tem de sobra para sustentar a necessidade de novas vendeas e retorno ao estrelato.

Não intencional, o filme acada por ser piegas. Bad consegue compor quando parece ter achado a felicidade, mas mesmo quando volta a estar solitário, continua compondo e feliz. Nesse ponto, Um Coração Louco deixa bem claro a idéia de que a felicidade do artista está no que ele faz. É ela quem o transforma nisto. Ao mesmo tempo em que o artista cria a arte, a arte cria o artista, não sendo uma via de mão dupla, mas sim o mesmo movimento. A contar com isso, em nenhum momento o filme é escuro, é sempre um filme claro, com fotografia aberta onde a luz entra, demarcando bem que o sofrimento do cantor está longe de ser pela vida que leva.

Bad talvez se livre do álcool como Ray, está longe de ter um amor para toda a vida com como Johnny Cash teve com June Carter; e, assim como o Randy, continua lutando para dar a volta por cima ao mesmo tempo em que luta pela sobrevivência. Mas, com certeza, a sua história encontra ecos em Daigo Kobayashi (do ótimo A Partida, vencedor do Oscar de filme estrangeiro de 2009) onde a música não só é reflexo da sua felicidade como é a sua própria felicidade, coisa com a qual o músico não pode viver sem.


A Crazy Heart (EUA, 2009). Drama. Fox Filmes.
Direção: Scott Cooper.
Elenco: Jeff Bridges, Robert Duvall, Sarah Jane Morris, Colin Farrell.

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Categorias
Críticas, Drama