CRÍTICA: Um Homem Sério

Comédia
// 18/02/2010

Ethan Coen e Joel Coen estão de volta com mais um belo exemplar de sua filmografia. Assim como estão de volta às telas, estão de volta às premiações. Abaixo, entenda por que tanto alvoroço em cima de Um Homem Sério, um dos atuais indicados ao Oscar de Melhor Filme.


Um Homem Sério
por Henrique Marino

Há diversas formas de se fazer arte. Alguns acreditam que ela pode ordenar a vida; Mondrian, por exemplo, que buscava em suas obras sempre uma estética pura. Há, no entanto, os que creem no oposto, em que a vida é desordenada dentro e fora da arte; os irmãos Coen são dois deles.

O cinema da dupla é um dos mais autorais e coerentes da atualidade. Embora variem no gênero, existe um fio condutor de toda a filmografia deles. Um Homem Sério é o que melhor evidencia este fio, pois se debruça nele e o põe como questão principal do protagonista. E mais: é o mais autobiográfico.

Para quem os conhece, soará repetitivo: os personagens dos Coen são sempre alvo do destino, estão à mercê da vida.  Situações absurdas, mas críveis, sempre os atormentam. Então os cineastas fazem o que sabem de melhor: apontam as câmeras para seus protagonistas. Esses, em suas particularidades, reagem cada qual ao seu modo.

Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg, ator até então “desconhecido” que faz uma ótima atuação) é o da vez. Classe média, pai de família, judeu, tentando um emprego numa faculdade. Quando alguns infortúnios começam a lhe sobressaltar, começa a refletir sobre o porquê disso. Busca desesperadamente explicações, diz para um que tem tentado ser um homem sério, para outro argumenta não ter feito nada, que não pediu por nada daquilo que lhe acontece, que “há algo muito errado” – essas últimas citações, no filme, podem parecer banais, mas são chave, e a inteligente câmera é bem clara ao dar um close lento em Larry, o maior em todo filme. Ele se sente injustiçado pelo o que lhe acontece. Procura, então, ajuda de líderes religiosos para tentar resolver essas dúvidas. Vã tarefa a desse herói em sua jornada. Não encontra respostas em lugar algum por onde procura. Tenta aceitar os conselhos que recebe, mas ainda assim se sente perdido. Aliás, todos os conselhos são parte importante da trama: representam exatamente o que Larry deveria aceitar, mas não aceita; que seria o mistério e falta de razão no sentido da vida. E, assim, a pressão que sofre chega ao inconsciente, quando sonha. Seu mundo é despedaçado. Toda a verdade que conhecia se torna uma mentira, se torna outra coisa.

Todo o filme se baseia numa base sólida e muito coerente. Cada cena serve de pilar para sustentar a trama e a mensagem que os irmãos tentam nos passar. Não há palavra ou gesto que seja dispensável. Boa parte do que é apresentado em tela se reverte para traçar o personagem e suas mazelas. Assim o2 roteiro é um dos mais bem fechados entre os indicados ao Oscar. No entanto, ele não se limita a fazer esse tracejado, há um senso sarcástico que deveria guiar a graça do filme. Para alguns ele funciona; para outros, não. Aí, na empatia com o público, é que o filme tem sua grande falha. Nem todos riem de tanta desgraça, nem todos riem das ironias postas pelos Coen, pois que são sérias, sem o tom óbvio da comicidade.

Para completar, há algo mais. Uma breve brincadeira com o espectador. Suspende-se a história de Larry até o fim, e o clímax parece nunca vir. A história dele permanece como um mistério. Seu futuro, ou seja, seu final conclusivo, não é revelado. Mais um acerto dos irmãos, que não só frustram seus personagens, mas também o espectador. Não há conclusão.


A Serious Man (EUA, 2009). Comédia. Universal Pictures.
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: Michael Stuhlbarg, Sari Lennick, Aaron Wolff.

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Comédia, Críticas