CRÍTICA: Um Lugar Qualquer

Críticas
// 29/01/2011

Sofia Coppola é dona de uma curta, porém interessante, filmografia. Depois de uma boa estréia com As Virgens Suicidas e de alcançar fama e respeito mundial com Encontros e Desencontros, ela foi alvo de críticas pelo seu terceiro filme, Maria Antonieta e pela forma como escolheu tratar a personagem principal. Mas os erros de seu antecessor não se repetem em Um Lugar Qualquer, que estreia neste fim de semana no Brasil.

Um Lugar Qualquer
por Eliezer Carneiro

Um Lugar Qualquer, é um filme que começa de forma abrupta, porém sincera com o espectador. Não é necessário esperar muito para sentir a assinatura da diretora e perceber o tipo de filme que irá assistir. Logo na primeira cena, uma câmera foca o trecho de uma pista de corrida e um carro que dá voltas pelo circuito. Essas voltas parecem uma provocação já para as possíveis críticas tanto ao filme – como sendo um longa que vai do nada a lugar nenhum -, quanto à diretora, que pode ser vista como uma cineasta de um filmografia que dá voltas sem sair do lugar, que recorre sempre ao mesmo tema.

O enredo, basicamente, faz um recorte de algumas semanas na vida de Johnny Marco (boa atuação de Stephen Dorff) um ator de Hollywood que não foge do estereótipo de um galã de blockbuster. O filme não deixa de mostrar o luxo e glamour dessa vida de estrela de primeiro escalão. Durante o trajeto, várias vezes Johnny é mostrado em festas, premiações, hotíis de luxo e suítes imensas, preocupação excessiva com os paparazzis e bastante sexo casual. Porém, não é isso que interessa a diretora, o que é focado é o que realmente acontece quando ele está em seu apartamento ( no lendário hotel Chateau Marmont ). Em certa parte do filme, ele é perguntado durante uma coletiva de imprensa: “Quem é Johnny Marco?” Simples, mas a qual ele não é capaz de responder. O roteiro apenas ambienta Johnny nesse universo hollywoodiano, o que faz parte do personagem e não poderia ser dispensado. Contudo, o que diz respeito ao filme em é o Johnny que leva uma vida tediosa quando chega em “casa”, a vida que o faz contratar duas strippers e dormir durante seu show, o Johnny que instiga Sofia é o que chega em casa e encontra uma festa no seu apartamento e dorme ao fazer sexo com uma desconhecida.

Esse tema do tédio acometendo a vida de grandes personagens, não é novidade dentro da filmografia de Sofia. A própria já tratou disso em Encontros e Desencontros com um Bill Murray fazendo um ator famoso sofrendo uma crise de meia idade em Tókio e uma maravilhosa Scarlett Johansson interpretando uma jovem esposa perdida nos costumes e na solidão da cidade. Em Maria Antonieta, Kirsten Dunst era a personagem título que levava uma vida de “popstar” do século XVIII, em meio às obrigações da corte e a solidão de estar num ambiente estranho e hostil. A principal diferença é que, nesses longas, havia uma história bem definida, o que não acontece em Um Lugar Qualquer. Aqui o interessante é acompanhar a vida do personagem e a transformação pela qual ela passa.

Essa transformação começa com a aparição de Cleo (Elle Fanning), filha de Johnny que aparece para passar um tempo com o pai enquanto a mãe tira umas “férias”. A simples aparição de Cleo é o suficiente para Johnny sair do piloto automático que era a sua vida e começar e se descobrir realmente, ao mesmo tempo em que descobre a sua filha. Cleo não faz nada além de ser uma menina, de ser alguém de verdade numa vida lotada de pessoas que só se relacionam com ele por um interesse comercial ou sexual.

Acompanhar Um Lugar Qualquer é o descobrir aos poucos que grandes viradas na trama não devem ser esperadas, nem momentos de contemplação ou algum em que o personagem encontre a redenção, não é nisso que o filme se apóia com seus pouquíssimos diálogos – diria que raros, antes de Cleo surgir. Tudo é lento e parece que o filme não tem um lugar para chegar e muito menos quer chegar a lugar algum. Se centra tanto nos dois personagens principais que, se existe um terceiro, ele é uma Ferrari.

Um Lugar Qualquer é um refinamento do estilo de Sofia Coppola e tudo o que ela fez até aqui é maximizado nesse filme. Não é fácil de se gostar, é verdade. Não há trama definida, não chega a um ponto definido, nada de revolucionário se dá.  Não seria nenhum absurdo falar que o prazer do espectador é acompanhar a caminhada de Johnny e Cleo, e que o grande acontecimento dos dois é aproveitar o tempo em que estão juntos e viver.

Poderia até acabar na cena da piscina, em uma tomada magistral de Sofia ao som de “You live only once”, dos Strokes, mas a escolha por outro final nos faz pensar o que é a felicidade e os pequenos momentos onde ela se sobressai em nossas vidas.

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Somewhere (EUA, Itália, 2010). Drama. Universal Pictures.
Direção: Sofia Coppola
Elenco: Elle Fanning e Stephen Dorff
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Críticas, Drama