CRÍTICA | Um Lugar Silencioso

Críticas
// 10/04/2018

Ainda amplamente considerado um gênero “menor” – e, em parte, justamente por isso –, o terror sempre foi um terreno fértil para experimentações estilísticas e de formato, do horror quase surrealista d’O Massacre da Serra Elétrica original, de 1974, ao icônico plot twist de O Sexto Sentido, passando pelo pioneiro do found footage A Bruxa de Blair, além de ousadas pérolas obscuras como Pontypool e Resolution. O diretor John Krasinski (o eterno Jim da versão americana de The Office) aproveita sua estreia no nicho para construir, com sutileza e paciência, um universo particular regido por regras próprias, das quais a principal fica explícita no título do filme: em Um Lugar Silencioso, qualquer barulho, incluindo a fala, é o pior dos pecados.

Krasinski também co-escreve e protagoniza o longa, ao lado de Emily Blunt, com quem é casado na tela e fora dela, e dos jovens Millicent Simmonds e Noah Jupe. Os quatro formam o núcleo da família Abbott, que vive uma existência reclusa e frugal em uma fazenda no interior dos Estados Unidos, no ano de 2020. A presença de estranhas e implacáveis criaturas na região, cegas, mas atraídas por qualquer som, torna imprescindível o uso de linguagem de sinais para a comunicação entre os familiares, o que faz com que o filme seja desprovido de diálogos quase na sua totalidade.

Isso não significa, no entanto, que o som não tenha importância no filme. Muito pelo contrário: a combinação da narrativa predominantemente visual com a trilha eventual, mas certeira, e os próprios efeitos sonoros soberbamente encaixados criam uma experiência incomum, mas muito propícia à construção de um clima de tensão. E disso, há de sobra. A quase ausência de comunicação falada significa que não existe tempo a perder com diálogos triviais, e o longa encadeia uma série de situações espinhosas, para dizer o mínimo, para os membros da família Abbott, cada uma delas gradualmente montada com a engenhosidade de um plano do Coiote para pegar o Papa-Léguas.

Krasinski, responsável previamente pela direção de duas comédias e um punhado de episódios de The Office, impressiona pela segurança e desenvoltura na direção, em sucessivas montagens paralelas que reforçam a ebulição passo a passo da atmosfera angustiante. Já como integrante do elenco, apesar de cativante, ele empalidece perto da interpretação estoica, mas visceral, de Blunt, enquanto Millicent Simmonds surpreende como Regan Abbott, ao mesmo tempo mais em casa no mundo onde vivem, devido à sua deficiência auditiva, e separada dos outros por profundos traumas emocionais, explicados em parte pela impactante sequência inicial.

Com uma premissa mais que interessante, desenvolvimento sólido e elenco afiado, Um Lugar Silencioso une-se ao seleto clube de filmes de suspense e horror que trouxeram ares de novidade a tais gêneros nos últimos ano, ao lado de obras como Corra!, Corrente do Mal, V/H/S e O Babadook. A ousadia estilística de contar uma história objetiva quase sem o uso de diálogos a princípio pode parecer tediosa, mas termina se provando recompensadora em sua inovação. As recompensas, contudo, ficam em grande parte do lado de cá da tela. Para a família Abbott, o cenário é bem mais sombrio.


A Quiet Place (EUA, 2018). Terror / Ficção científica. Paramount Pictures / Platinum Dunes.
Direção: John Krasinski
Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe.

 

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Críticas, Suspense, Terror