CRÍTICA: Um Método Perigoso

Críticas
// 29/03/2012

Mais um filme de 2011 que estreia no Brasil com notável atraso – embora tenha sido exibido no último Festival do Rio –, Um Método Perigoso, de David Cronenberg, questiona de forma perturbadora e inesquecível os costumes e relações humanas em pleno período de nascimento da psicanálise, a partir da relação entre nomes como Carl Jung, Sigmund Freud e Sabina Spielrein.

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Um Método Perigoso
Por Gabriel Costa

A terceira produção seguida de Cronenberg a contar com Viggo Mortensen no elenco é um item singular na obra do polêmico cineasta. Embora há tempos tenha deixado de lado a temática fantástica de A Mosca e Videodrome – com uma breve recaída no “matrixiano” eXistenZ, de 1999 –, a violência gráfica explícita foi mantida como característica fundamental e marcante dos tais filmes anteriores da parceria com o eterno Aragorn. Um Método Perigoso obviamente deixa esse elemento para trás, enquanto leva a novos patamares o forte aspecto psicológico – e sexual – característico do diretor.

Baseada no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr, e na peça The Talking Cure, de Christopher Hampton, que também aparece aqui como roteirista do filme, a história parte do momento em que o psiquiatra suíço Carl Jung, fundador da psicologia analítica vivido pelo astro em ascensão Michael Fassbender, assume o tratamento da russa Sabina Spielrein (Keira Knightley), que sofre de um grau agudo de histeria. Em paralelo, o personagem busca estabelecer contato direto com o austríaco Freud (Mortensen), em cuja obra baseia grande parte de seus estudos da mente e comportamento humano, território praticamente inexplorado de forma acadêmica até então. Casado, Jung busca resistir à evidente atração mútua entre ele e a paciente, situação agravada pela necessidade de abordar temas sexuais inerente aos métodos de tratamento desenvolvidos por Freud e por ele próprio. Sabina, por sua vez, desenvolve seus próprios estudos psiquiátricos, que terão base e influência na obra de ambos os médicos mais experientes. O desequilíbrio final na balança, contudo, aparece na forma do também psicanalista Otto Gross (em breve, porém memorável, participação de Vincent Cassel), que o suíço toma como paciente a pedido do colega austríaco. Anarquista e boêmio, Gross é um feroz crítico da monogamia e exerce uma influência sobre Jung no mínimo equivalente a que recebe de seu teórico analista. A relação com Sabina, então, vira um terreno perigoso não apenas em relação à vida familiar do personagem vivido por Fassbender, mas também, pelo caráter antiético, na sua colaboração com Freud, caracterizada por uma rivalidade cada vez mais pronunciada.

As belas atuações e a mão firme de Cronenberg tornam fascinante acompanhar as interações entre esses personagens históricos. O contexto pré-guerras mundiais é perfeito para diálogos ora impagáveis, ora algo perturbadores em relação às origens dos personagens. Mortensen impressiona até pela sutil transformação física pela qual tem passado em cada um dos personagens recentes que interpreta. A distância entre os traços do redneck tipicamente americano de Marcas da Violência e os do gangster russo de Senhores do Crime é a mesma assumida pelo ator ao encarnar o mais velho e corpulento neurologista austríaco. A forte presença de Jung e Freud é transmitida na maior parte do tempo sem a necessidade de grandes arroubos emocionais por parte de seus respectivos intérpretes. Já Cassel empresta um ar diabolicamente sedutor a Gross. O elo mais fraco é a às vezes exagerada Knightley. No auge da histeria de Spielrein, ela chega a lembrar Brad Pitt em Os 12 Macacos, mas quase põe tudo a perder com gestos à beira do caricato. Conforme a personagem recupera a sanidade, entretanto, as coisas melhoram também para a atriz, que passa a “escorregar” menos.

O espectador pode, até pela duração relativamente curta do filme – pouco mais de uma hora e meia –, sentir falta de uma exploração mais aprofundada da própria psicanálise, bem como das teorias discutidas pelos personagens. A trama dá saltos temporais e mesmo pula passagens importantes em relação a esses elementos. Vale lembrar, contudo, que não faltam livros, cursos e mesmo outros filmes que tratam exclusivamente de tais questões, como o documentário My Name Was Sabina Spielrein, de 2002. O que expõe, de certa forma, mais um mérito de Cronenberg: o diretor não busca transformar a obra em uma aula de psicanálise, de forma que as questões técnicas e teóricas são utilizadas apenas na medida em que servem à história.

Um Método Perigoso foi ignorado pelo Oscar, passou batido por Cannes e rendeu apenas uma indicação de ator a Mortensen para o Globo de Ouro. Não deixa de ser compreensível: em uma era em que projetos megalomaníacos são vendidos como interpretações definitivas dos mais variados temas, para serem esquecidos com reboots e novas tentativas poucos anos depois, uma obra que ousa não demonstrar a mesma pretensão pode parecer “menor”. Mas é exatamente essa ousadia que permite o tratamento diferenciado, cuidadoso e marcante que garantirá sua relevância duradoura.

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A Dangerous Method (Reino Unido, Alemanha, Canadá, Suíça, 2011) Drama. Imagem Filmes.
Direção: David Cronenberg
Elenco: Michael Fassbender, Viggo Mortensen, Keira Knightley, Vincent Cassel

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Categorias
Críticas, Drama