CRÍTICA | Vingadores: Guerra Infinita

Ação
// 01/05/2018
guerra infinita

Nos dez anos de desenvolvimento do Universo Marvel nos cinemas, fomos apresentados a um sem-fim de tramas de origem de personagens e suas continuidades. Em quase 20 filmes, a Marvel montou uma narrativa com estratégia objetiva: formar uma base de seguidores que não fosse constituída apenas por fãs de quadrinhos, ou o retorno financeiro não seria suficiente. A mecânica foi uma mistura conhecida: ação com comédia por um elenco carismático. Apesar da bilheteria imponente, o resultado foi um verdadeiro trajeto de montanha-russa quando o assunto era criatividade e a combinação de pancadaria com constantes alívios cômicos começou a dar indícios de que lá na frente poderia ser um ruído.

A legião de fãs, claro, ama. Os críticos, em sua maioria, dão o aval. Mas a estrutura repetitiva ainda não tinha conseguindo convencer uma boa parcela que assistia, gostava, mas não se entregava por completo às histórias. O envolvimento real ainda não acontecia. E alguns dos personagens, apesar de entreterem, não tinham a carga emotiva necessária para trazer o espectador mais exigente para o lado dele. E esse é o ponto em que Vingadores: Guerra Infinita se sobressai.

O “Relíquias da Morte – Parte I” do Universo Marvel abre um precedente cujo peso se dá tanto pela boa execução quanto pelo tempo que ele levou para chegar. Ok, as piadinhas estão lá (algumas como a dos Guardiões da Galáxia encantados pela beleza de Thor valem seu airtime), assim como as boas (e melhoraram muito em relação a Era de Ultron) sequências de ação, em especial o primeiro embate em Nova Iorque. Diminuir a presença desses dois elementos seria uma quebra de contrato entre estúdio e fã. Mas aqui existe um entendimento revigorante de que os filmes não precisam ser só isso. E Guerra Infinita definitivamente não é.

É notável como em um arco de 2h40 foi possível convergir, desenvolver em paralelo e cruzar tantas histórias sem causar prejuízo de identidade aos personagens nem diminuir a importância de algum deles – pelo contrário, engrandece até mesmo quem tinha um papel mais coadjuvante até então. Definitivamente é preciso saber contar uma história, não é mera técnica narrativa. Existe um zelo pessoal com o que está sendo levado à tela. O mesmo cuidado com a coesão se faz presente também para lidar com as nuances dos agentes da trama (a isca definitiva para fisgar quem ainda não tinha se aliado ao time da Marvel em 100%).

Tudo gira em torno da mudança de foco. Guerra Infinita é, sobretudo, sobre Thanos. Após anos sugerindo uma presença constante nos contornos do arco do Universo Marvel, era preciso que “a fase do chefão” entregasse um resultado decente. É aqui que está a tal quebra de paradigma. Em qualquer história ficcional, estamos sempre tendendo a torcer por aquele que é o mais vulnerável. Não importa qual papel esse indivíduo exerça. Não é à toa que mesmo se excitando com os feitos heroicos dos membros da S.H.I.E.L.D., a nossa ética sempre é posta um pouco de lado quando os filmes entregam vilões feridos pelo seu passado que só querem um respingo de justiça (mesmo que por meios errados). Um processo de empatia involuntário que quase nos faz desejar que só uma vezinha o herói não esteja tão mais bem armado só para vermos uma luta mais justa (ou o circo pegar fogo, que também é bastante divertido). Ao final, temos sempre a vitória da bravura e da benevolência e um vilão caído ainda mais amargurado cujos sentimentos não foram permitidos evoluir e, portanto, mantém o seu desejo de vingança, mas agora também a frustração. Esse, claramente, não é Thanos.

O tapa na cara de Guerra Infinita é propor um vilão íntegro a sua própria ética. Thanos tem um objetivo: diminuir a disparidade do universo. Mas o caminho é através do genocídio de metade dos seres vivos (sem qualquer tipo de distinção – ele deixa bastante claro). Em sua resolução, Thanos está promovendo um bem-maior, e essa conclusão surge por sua experiência, conhecimento e contato com os remotos espaços da existência. O projeto é tão autêntico que ele põe acima do próprio interesse. E demonstra isso mais de uma vez. É brutal, mas não deixa de ser memorável como um vilão é capaz de amar legitimamente uma filha que ele precisa sacrificar em nome da manutenção da existência. Isso dá ao nêmesis da Marvel a mesma empatia pelos seus inimigos que nós, como espectador, tivemos em outros momentos por aqueles que chegaram a atacar os protagonistas. É essa virada de chave que concede de forma inédita a vulnerabilidade aos Vingadores. Finalmente eles demonstram temer a própria morte. A linha de identificação agora é direta. Deixa-se de enxergar o Homem de Ferro ou a Viúva Negra e passa-se a enxergar Tony e Natasha. A empatia mudou de lugar. E é ao final desse processo que passamos a torcer pelos heróis e se inquietar sempre que Thanos estiver ocupando o mesmo ambiente em cena.

O desenvolvimento é certeiro. Assim como a existência de Thanos emergia conforme os dez anos da franquia avançava, o seu domínio evolui com o desenrolar do filme. O mecanismo funciona por um direcionamento eficaz dos Irmãos Russo, dupla de diretores. Vide a precisa sensação de ameaça direcionada pela sequência sem trilha sonora e apenas edição de som da chegada do trio de capangas à Nova Iorque no começo do filme e de sofrimento na aniquilação de todos os personagens, também sem trilha sonora, aumentando a percepção do pânico de Peter Parker e da solidão de Tony Stark.

Guerra Infinita é o verdadeiro divisor da Marvel. O final bem editado entregue à mão do vilão, sem qualquer pista das possibilidades da continuação, é uma cartada que o estúdio já deveria ter usado há bastante tempo. Aqui, houve gradual construção de uma catástrofe de proporções irremediáveis em um tom que – já não era sem tempo – presenteia o espectador com a dádiva da dúvida de como os Vingadores podem continuar fazendo história. Afinal, agora a gente se importa de verdade com os personagens, não só com os seus trajes e poderes.


Avengers: Infinity War (EUA, 2018). Disney Pictures.
Direção: Joe e Antonny Russo
Elenco: Robert Downey Jr. , Chris Hemsworth, Chris Pratt, Chris Evans, Zoe Saldana, Josh Brolin

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Ação, Críticas, HQ's