CRÍTICA | Violência Gratuita

Críticas
// 13/04/2009
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É instigante indagar a função manipulativa da arte cinematográfica. De certa forma, filmes exercem influências emocionais e comportamentais sobre cada espectador. Talvez, as experiências mais interessantes sejam aquelas as quais o manejo sobre o psicológico do espectador está explícito. Violência Gratuita, de Michael Haneke, ilustra bastante o panorama traçado acima.

Em 1997, o alemão Michael Haneke surpreendeu ao dirigir e escrever a produção austríaca Funny Games, nomeado para a Palma de ouro em Cannes, o qual apresentava um alto grau de violência gráfica para a época. 10 anos depois, após estabelecer uma carreira sólida com filmes como Caché e A Professora de Piano, Haneke teve a oportunidade de refilmar Funny Games nos Estados Unidos, e tomou a decisão de gravá-lo quadro a quadro, utilizando os mesmos planos, com quase nenhuma alteração ao original. O resultado é curioso já que, apesar do impacto gráfico estar sujeito a suavizações dada a conjuntura do curso que o cinema tem tomado, a violência psicológica e elementos manipulativos ainda chocam e impressionam o espectador.

Violência Gratuita possui um título auto-explicativo. A trama gira em torno de Ann (Naomi Watts), seu marido George (Tim Roth) e seu filho Georgie (Devon Gearhart), que estão de férias em uma casa de campo. Em um dia pacato, recebem a visita de dois jovens perturbados, Peter (Brady Corbet) e Paul (Michael Pitt), os quais, sem motivo prévio, iniciam uma série de jogos doentios envolvidos por tortura e violência, desafiando valores morais e éticos. Obviamente, o espectador já deve imaginar o que esperar da produção através da proposta, todavia, enquanto a violência física se revele gratuita, a psicológica envolve toda uma questão polêmica que propõe discussões calorosas: afinal, por qual motivo público busca assistir filmes de tal temática? Por que o público procura a violência? O tema provoca satisfação?

Haneke não provoca o espectador apenas com a sua proposta narrativa como, também, se apropria de técnicas intertextuais absurdamente inteligentes, que até constragem o espectador. É comum os protagonistas romperem a quarta parede e, olhando para a câmera, questionarem o público se estão gostando do que estão presenciando. Além disso, a montagem se apropria de elementos altamente manipulativos que surpreendem e revoltam, acabando por revelar a genialidade do diretor em se comunicar com o seu público. Toda esta abordagem acaba por resultar em referências à clássicos como Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, no qual o próprio Haneke diz se inspirar. Tal fonte apenas contribui para o enriquecimento narrativo, tornando tudo mais intenso.
A intensidade do filme é reforçada com as atuações de todo um elenco muito bem escalado. A anglo-australiana Naomi Watts surpreende por sua dramaticidade, enquanto Michael Pitt constrói um vilão sádico com toques de comicidade, estabelecendo um equilíbrio bastante interessante. Ambos se revelam como destaque, apesar de Tim Roth, Brady Corbet e Devon Gearhart também realizarem um trabalho exemplar. O curioso é a forma como os atores interagem com a câmera, já que esta se porta de maneira ousada e, em muitas cenas, de maneira teatral como planos seqüencia estáticos de longa duração, exigindo a composição de atuações bastante constantes.

O aspecto manipulativo da linguagem, como já citado, se revela como explícito propositalmente. Haneke insiste em questões relacionadas a ficção e realidade, propondo diálogos muito bem construídos, principalmente no terceiro ato do filme, indagando o espectador com questões metalínguisticas e propondo reflexões sobre o hábito de assistir filmes e o poder de direcionamento mental de cada espectador. O ápice do filme, contudo, chega a ser uma seqüência genial que é síntese da manipulação da percepção do espectador, além de ser tida como elemento surpresa. Prestar atenção em cada detalhe narrativo é imprescindível.

São raras as obras que apresentem a ousada proposta de quebrar barreiras e limites entre personagens e espectadores de maneira tão instigante. Mesmo sendo um remake, Violência Gratuita ainda exerce um impacto psicológico arrebatador e sugere reflexões e discussões fervorosas. De fato, uma experiência essecial, a qual trabalha a linguagem cinematográfica de maneira original e primorosa.


Funny Games (EUA, 2008). Suspense. Califórnia Filmes
Direção: Michael Heneke
Elenco: Naomi Watts, Michael Pitt, Devon Gearhart, Tim Roth, Brady Corbet

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Críticas, Suspense