CRÍTICA | Vizinhos

Comédia
// 17/06/2014

 

Depois de tanto dar murro em ponta de faca, Judd Apatow conseguiu um espacinho entre os críticos e o público, conseguindo um longa com boa aceitação em ambas as partes a ponto de até ter um lançamento em maior escala no globo. A comédia Vizinhos, que estreia nessa quinta-feira, ri de si mesmo, o que acaba sendo um bom acerto. Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Vizinhos
por Eduardo Monteiro

Embora a carreira do produtor Judd Apatow (O Virgem de 40 Anos, Segurando as Pontas, Ligeiramente Grávidos) não esteja atravessando sua melhor fase, o impulso dado por ele às comédias escrachadas centradas em personagens “adultescentes” e as parcerias estabelecidas no processo continuam a gerar sua parcela de frutos positivos, como o recente e divertido É O Fim, projeto assinado por Seth Rogen e Evan Goldberg (roteiristas de Superbad – É Hoje). Dando sequência a uma trajetória até então apadrinhada por Apatow e apresentada ao púbico brasileiro exclusivamente em home video (Ressaca de Amor, O Pior Trabalho do Mundo e Cinco Anos de Noivado), o cineasta Nicholas Stoller finalmente consegue, com Vizinhos, a repercussão internacional e o retorno financeiro necessários para ganhar as telonas brasileiras.

Escrita pela dupla de estreantes Andrew Jay Cohen e Brendan O’Brien, a comédia gira em torno da vida de casados de Mac (Seth Rogen) e Kelly Radner (Rose Byrne), que passa a ser atormentada quando a fraternidade ΨΔΒ, presidida pelo atraente Teddy Sanders (Zac Efron), se muda para a até então tranquila vizinhança. Preocupado com a saúde da filha bebê Stella (vivida pelas absolutamente adoráveis Elise e Zoey Vargas), o casal se vê obrigado a travar uma guerra contra o grupo de estudantes depois que as primeiras negociações de paz são infringidas por festas que abusam dos decibéis noite adentro.

Preso a uma estrutura que, essencialmente, oscila entre as provocações e os esforços exercidos por cada lado na disputa, o longa é povoado por personagens imaturos e egoístas cuja estupidez pelo menos abre espaço para boas risadas. Assim, o grande acerto do filme consiste justamente na disposição de rir das próprias limitações e idiotices: seria particularmente frustrante, por exemplo, ver Teddy derrubando com facilidade a veracidade de determinado documento caso a explicação dada pelo autor da farsa não debochasse dessa situação-clichê de forma tão hilária. Da mesma forma, a trilha de Michael Andrews é jocosa e certeira ao conferir, por exemplo, grandiosidade a eventuais ideias estúpidas dos estudantes ou um caráter quase etéreo a certa habilidade genital exótica do vice-presidente da fraternidade, Pete (Dave Franco).

Por outro lado, a volatilidade do personagem de Zac Efron, em vez de torná-lo uma figura complexa, soa como mero resultado dos pequenos surtos de arbitrariedade do roteiro, que altera o comportamento de Teddy conforme as necessidades imediatas da narrativa: repare, por exemplo, como a compreensão e a generosidade do presidente com determinado calouro contrariam a conduta assumida por ele na maior parte do tempo, já que essa postura benevolente só era interessante para aquela situação específica. Ainda assim, vale apontar que o bromance vivido pelos personagens de Efron e Dave Franco possui sua parcela de méritos e se estabelece como a única subtrama com um desenvolvimento mais cuidadoso e marcante (já que os problemas conjugais de Mac e Kelly, por exemplo, beiram o risível). Para completar, Lisa Kudrow (a Phoebe de Friends) acerta o tom como uma reitora caracterizada por uma divertida fixação com manchetes jornalísticas, ao passo que Rose Byrne volta a demonstrar bastante conforto em um papel cômico enquanto divide cena com Seth Rogen, interpretando Seth Rogen como só Seth Rogen é capaz de fazer (ou talvez Kevin James, como um dos diálogos mais divertidos do filme parece sugerir).

É lamentável, portanto, que a obra acabe sendo comprometida por um tropeço da equipe na reta final da projeção: a opção do roteiro de se abster de qualquer tipo de problematização em torno da resolução do grande conflito da trama torna o desfecho apressado, anticlimático e insatisfatório, enviando o espectador para fora da sessão com uma sensação inesperada de incompletude – que nem a overdose de fofura ofertada pelas gêmeas Elise e Zoey Vargas durante os créditos finais é capaz de curar.
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Neighbors (EUA, 2014). Comédia. Universal.
Direção: Nicholas Stoller
Elenco: Seth Rogen, Rose Byrne, Zack Efron, Dave Franco, Jake Johnson

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Comédia, Críticas