CRÍTICA | Wall-E

Aventura
// 27/06/2008
wall-e

É quase certo que em uma frase onde se leia Pixar nos deparemos também com a palavra “sucesso”. Impossível que uma empresa dessa categoria desperdice sua alta tecnologia e destreza em animações com um filme descartável ou simplesmente mediano. Já estava evidente há muito tempo (desde os belos trailers até às vinhetas divulgadas) que não seria com Wall-E que os produtores do estúdio – obviamente apaixonados pelo que fazem – cometeriam esse equívoco.

A trama se passa no ano de 2700 e o planeta se encontra soterrado pelo lixo produzido pela humanidade. Restou à população terrestre uma única alternativa: sair em cruzeiro espacial na nave Axiom munida de todo o conforto que a modernidade pode lhes oferecer enquanto pequenos robôs, incumbidos da árdua tarefa de limpar suas quinquilharias, permanecem na Terra. Mas, devido ao estado precário do planeta, todos os robôs acabam se degradando e param de funcionar, restando apenas um exemplar deles: Wall-E, o herói do longa. O simpático robô segue uma rotina de transformar todo o resto deixado pelos homens em cubos de lixo compactado. Entre todos esses cacarecos, Wall-E encontra, vez ou outra, algum objeto que lhe interessa e guarda entre os demais já estocados. O preferido é uma fita VHS do clássico “Alô, Dolly”. O filme, aliás, é presença constante na animação, não só porque somos apresentados a pequenos trechos dele, mas também porque vem daí o tema do casal Wall-E e Eva, It Only Takes a Moment.

Opa, casal? Exatamente. Os robôs também amam, e é justamente esse pequeno ‘defeito’ de personalidade desenvolvido em Wall-E que mudará sua rotina de produzir torres de lixo compactado. Enviada à Terra com a missão de verificar vestígios de vida existentes no planeta, a robô com visual futurista e inúmeras habilidades logo desperta em Wall-E um grande amor, no sentido mais sincero e puro da palavra. A partir desse ponto o protagonista terá de encarar situações nunca vividas por ele para permanecer ao lado de Eva e poder protegê-la do que uma descoberta – ironicamente uma pequena esperança de vida – pode lhe causar.

Para as crianças, fica uma animação graficamente espetacular de encher os olhos. Meticulosamente produzidos, os personagens principais do filme, os robôs, comunicam-se praticamente sem falas. E, sinceramente, elas são facilmente dispensáveis para alguém com os olhos expressivos de Wall-E. Não é necessário que ele faça nenhuma declamação para que saibamos exatamente o que ele pensa e sente, quais suas angústias e desejos. O espectador entra totalmente em sintonia com aquela pequena mistura de E.T. – O Extraterrestre e Johnny 5 (o personagem de Um Robô Em Curto Circuito).

Para os mais crescidinhos há também um alerta: essa será a Terra daqui algum tempo se a tendência ao consumismo, preguiça e sedentarismo continuar. O planeta não suportou a destruição que a presença humana lhe impôs; as gerações que viveram na nave Axiom foram, gradativamente, se acostumando a nenhum esforço, afinal estavam cercados da conveniente tecnologia para poupar qualquer trabalho, seja ele um simples gesto de pegar um objeto a mais de meio metro de distância. O resultado disso são adultos e crianças completamente obesos, incapazes de sair deste estado de inércia degradante. Não há como não se assustar com os edifícios feitos de lixo entulhado nesses 700 anos, não há como não se sentir culpado ao se dar conta de que você, ali sentadinho em sua poltrona com seu copo de Coca-Cola de 500 ml, assistindo ao filme enquanto saboreia uma gordurosa pipoca, é também sujeito ativo nesse desequilíbrio em que reina a lei do menor esforço.

Porém, não se iluda. A intenção de Andrew Staton, diretor e roteirista do filme, não é fazer panfletagem em volta de um tema amplamente debatido atualmente. Afirmar isso seria diminuir injustamente o trabalho artístico dessa obra-prima. O recado está dado explicitamente e o tema se encaixou perfeitamente como plano de fundo para o enfoque principal: o amor. É ele que reina durante a animação.

O amor que Wall-E sente por Eva é tocante e simples, como deve ser de fato. Ele a admira com fervor, cuida de sua amada quando ela está desprotegida. Embarca em uma viagem com grandes conseqüências para seu futuro (e o da Terra) com apenas um objetivo: estar com Eva.

Um importante aviso deve ser dado. Como já virou hábito quando se trata de Pixar, a diversão começa antes mesmo do filme principal. Antes de nos apresentar Wall-E, entra em cena Presto, o curta-metragem da vez, que narra as trapalhadas de um mágico constantemente sabotado em um de seus shows pelo coelho que deveria, a princípio, se ater a sair da cartola. Pudera: o artista se esqueceu de alimentar o ajudante.

Sei perfeitamente que elogiar uma animação de responsabilidade da parceria Disney/Pixar é correr o risco de cair no óbvio. Há inúmeras críticas que são apenas elogios para qualquer filme que a empresa se dispõe a fazer e repetir isso é se permitir ser chamado de redundante. Mas, francamente, tentar encontrar um defeito em Wall-E me parece, além de inútil, prova de rabugice. De onde os humanos tiraram os alimentos para setecentos anos de reclusão no espaço? Quem se importa? A arte precisa de explicação verossímil a todo momento? Pois Wall-E é arte na melhor concepção do termo. E isso é assim, óbvio.


Wall-E (EUA, 2008). Animação. Walt Disney Pictures/Pixar
Direção: Andrew Stanton

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