CRÍTICA: Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme

Críticas
// 23/09/2010

Deixando de fora a necessidade de conferir o longa original antes de o espectador entrar na sala de cinema, Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme estreia amanhã em circuito nacional conferindo à plateia mais uma assinatura robusta de Oliver Stone. O diretor acerta na atualização do tema visto no original de 1987 e enxerta refinamento e qualidade visual no seu longa.

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Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme
por Gabriel Giraud

Oliver Stone volta em grande estilo com Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme (Wall Street – Money Never Sleeps). Foi apreciado em Cannes, ousou ao adaptar o roteiro da sequência de Wall Street (1987) à crise econômica de 2008 e teve no papel de seu protagonista o ator mais rentável de Hollywood do ano, Shia LaBeouf. É interessante perceber como o próprio Oliver Stone, com o entrelaçamento dessas venturas, tem o leitmotiv principal de Wall Street – a bolha – aplicado à própria produção do filme

O roteiro lança mão da imagem da bolha para ilustrar a aleatoriedade de uma tendência e a instabilidade da economia (sempre em paralelo com a vida em si). Jake Moore (LaBeouf) é um jovem que estagia na área de ações numa empresa à beira da falência. Ele namora Winnie Gekko (Carey Mulligan, de Educação), responsável por um promissor site ecológico e com abordagem política crítica. Eis que quem se lembra de Wall Street (1987) perceberá um nome familiar: Gekko. Winnie Gekko é filha de Gordon Gekko (Michael Douglas), um ex-investidor de Wall Street que acaba de sair da prisão após uma longa pena por fraude (trama do filme de 1987, que não é pré-requisito para o novo). Jake, Winnie e Gekko formam uma tríade na qual não conseguimos determinar quem toma ações precipitadas ou inteligentes, quem quer “se dar bem” ou quem vai “se dar mal”. Temos, ao analisarmos à luz da filosofia do filme, um alto fator de aleatoriedade para uma grande bolha surgir na história.

O primeiro nó da trama é a falência da empresa onde Jake trabalha e a aparição repentina de seu sogro. Uma enorme bolha está prestes a se formar, e, como na economia, a própria vida segue essa aleatoriedade. Cabe àquele que tiver mais sensibilidade de tomar as decisões certas de modo que sua bolha continue intacta ao subir no ar. Para aumentar ainda mais a instabilidade, um empresário megamilionário e maquiavélico, Bretton James (Josh Brolin, que, depois de W., brilha novamente num filme de Stone) coage Jake a trabalhar na sua empresa, enquanto secretamente Gekko ensina os truques de Wall Street ao seu futuro genro sob o pretexto de se aproximar de sua filha (que o odeia).

Na montagem visual da trama, Stone ousa como sempre. A fotografia urbana dos arranha-céus engole os seres humanos que vivem nela. Os movimentos ascendentes e giratórios hipnotizam o espectador, de modo que temos a vivência de sermos as bolhas dentro desse caos. Gráficos, cores, poluição sonora e visual (bem controlados) criam um ambiente de Wall Street onde os funcionários entram nas telas de computador. Canções de David Byrne dão um tom paradoxalmente refinado e orgânico ao filme sem que haja uma sobreposição musical nas cenas. No entanto, a edição de som deixa um pouco a desejar, principalmente na cena em que Gekko fala no microfone num auditório e, ao sair do púlpito, sua voz continua a mesma. Enfim, o som ainda não é tão nobre quanto a imagem no Cinema.

As referências são diversas e riquíssimas. Desde o toque de celular de Jake, que é a trilha clássica de Ennio Morricone para The Good, the Bad and the Ugly; até a citação de Albert Einstein sobre a insanidade (“Não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes”), passando por diálogos com o primeiro filme (o celular eighties, o próprio subtítulo, que é uma fala de Gekko, além de uma cena surpresa no meio do história). Há um humor fino, mas com certo desgaste de Douglas na sua atuação. As participações de Frank Langella e Susan Sarandon são muito precisas.

Apesar da complexidade da trama e do ótimo encadeamento, o roteiro tem um caráter bem tradicionalista e didático, seguindo a máxima de que os laços de sangue falam mais alto e o tempo urge mais que o dinheiro. Temos sempre que levar em conta que se trata de um filme americano em que certas coisas nunca serão mudadas. Afinal de contas, mesmo com alguns pontos falhos, Stone, sem perder seu traço autoral, conseguiu com que sua bolha voasse bem alto.

Wall Street – Money Never Sleeps (EUA, 2010). Drama. 20th Century Fox
Direção: Oliver Stone
Elenco: Michael Douglas, Shia LaBeouf, Josh Brolin, Carey Mulligan

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Categorias
Críticas, Drama