CRÍTICA | Warcraft

Críticas
// 02/06/2016
warcraft

A aguardada adaptação da série de jogos eletrônicos Warcraft, em sua chegada aos cinemas, deixa claro desde o título que a ideia é – claro – servir como base para a construção de uma história épica em vários capítulos. O filme em si, no entanto, se limita a um recorte surpreendentemente modesto do conflito entre os habitantes de Azeroth e os orcs invasores e, apesar de apresentar uma linguagem própria, cai na armadilha da ingenuidade típica de adaptações cinematográficas de games.

Em uma época em que a máquina de blockbusters hollywoodiana busca inspiração – e reconhecimento de marca – até em jogos que contêm apenas um fiapo de história, como Batalha Naval, ou mesmo são completamente abstratos, como Tetris (!), o universo de Warcraft é um prato cheio. Afinal, trata-se de uma franquia que já tem mais de vinte anos – o primeiro jogo foi lançado em 1994 –, cuja versão online já teve mais de 100 milhões de contas criadas e serviu de base para séries de livros e histórias em quadrinhos. Ou seja, o público já existe, e foi confiada ao diretor Duncan Jones, dos interessantes Contra o Tempo (2011) e Lunar (2009), a responsabilidade de atender aos anseios desse volume de consumidores em potencial, além de, quem sabe, atrair parte dos expectadores da monumental saga Senhor dos Anéis/O Hobbit e da implacável Game Of Thrones.

Diante desse contexto, é curioso perceber que a trama de Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos passa ao largo das batalhas em grande escala que se tornaram típicas da fantasia medieval no cinema, e foca nos papeis que personagens-chave como o guerreiro impossivelmente durão Lothar (vivido pelo Troy Sanders do Mastodon por Travis Fimmel, o Ragnar de Vikings), o piedoso Rei Llane (Dominic Cooper, o Jesse Custer da nova série Preacher), o guardião Midivh (Ben Foster, no papel mais “leve” da carreira, mas ainda assim intenso), o jovem mago Khadgar (Ben Schnetzer) e os orcs Garona (Paula Patton), Durotan (Toby Kebbell) e Gul’dan (Daniel Wu) desempenham no conflito.

A trama conta a invasão do mundo de Azeroth, uma terra onde as forças arcanas são abundantes – de forma quase vulgar se comparada aos universos de SdA e GoT , onde a magia é tratada como algo mais exótico -, por parte dos orcs do mundo moribundo de Draenor, liderados pelo bruxo Gul’dan, usuário da misteriosa força conhecida como fel. Seguindo a abordagem dos games, os orcs, de aparência um tanto cartunizada mas, ainda assim, imponentes e até assustadores em alguns momentos, são mostrados de forma “humanizada” e empática, longe dos tradicionais monstros descartáveis do gênero. Por outro lado, os anões têm uma participação tímida no longa, enquanto a dos elfos, provavelmente “guardados” para as inevitáveis sequências, é praticamente nula.

Se o roteiro não apresenta nada muito original além de uma interessante, embora um tanto vaga, analogia do fel em como drogas/corrida armamentista/corrupção do poder, dependendo do ponto na história, é em detalhes como a inteligente jogada feita com os idiomas de homens e orcs que o filme se destaca: quem fala “inglês” em cada cena é determinado pelo ponto de vista narrativo, de forma que, em algumas situações, vemos os orcs se comunicarem em seu dialeto incompreensível, enquanto entendemos o que os humanos falam, e em outras ocorre o oposto. A ação é retratada de forma criativa e instigante, e a tecnologia 3D usada com clareza e eficiência valoriza as predominantes batalhas de pequeno e médio porte.

Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos pode não ser o épico arrebatador que muitos dos fãs esperavam, mas é uma obra que traz algumas benvindas novidades narrativas a um gênero saturado e, sabiamente, não se envergonha em seguir rumos diferentes de seus maiores representantes. A depor contra, temos uma bisonha virada narrativa relacionada a Lothar (ainda que seja só uma, bem menos do que costuma ocorrer em filmes baseados em games), a caracterização pobre do Rei Llane, fadado a usar uma coroa de design infeliz e um capacete que não parece muito funcional, e a comum e excessiva insistência em mostrar ao público que esse é apenas o início de uma nova saga/franquia. Como se já não soubéssemos.

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Warcraft (EUA/China, 2016). Aventura/Ação/Fantasia. Atlas Entertainment, Legendary Pictures.
Direção: Duncan Jones
Elenco: Travis Fimmel, Paula Patton, Ben Foster, Dominic Cooper, Toby Kebbell, Ben Schnetzer.

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Categorias
Críticas, Fantasia