CRÍTICA: Watchmen (I)

Ação
// 03/03/2009

Nesta sexta-feira, estreia mundialmente a adaptação do grafic novel mais prestigiado de todos os tempos: Watchmen. Lançando dúvidas e receios aos adoradores da série e ansiedade nos que se veem perdidos neste universo criado por Alan Moore, o filme já vem dividindo opiniões e provavelmente não terá uma opinião unânime com os fãs brasileiros tanto da HQ que originou o filme quanto para os desavisados que só estão em busca de entretenimento.

Procurando mostrar uma opinião esclarecida, o Pipoca Combo lança hoje a primeira de duas críticas de Watchmen que serão publicadas antes da estréia. Nesta, escrita pelo nosso colaborador Bruno Rios, o ponto de vista de alguém que conhece muito bem a história e a profundidade da HQ comenta o que pode causar estranhamento no público geral e repulsa nos adoradores da série. Confira!

Watchmen
Por Bruno Rios – Colaborador

Quando o diretor Zack Snyder (300, Madrugada dos Mortos) resolveu levar a maxi-série em quadrinhos Watchmen para os cinemas, ele provavelmente sabia que teria muitas dificuldades. Desde que a HQ foi lançada, na década de 80, haviam planos de levá-la ao cinema. O projeto passou na mão de vários produtores, companhias e cineastas, e muitos chegaram à conclusão de que a graphic novel seria infilmável. Terry Gilliam (diretor de Os 12 Macacos e Os Irmãos Grimm) declarou que seria necessário um filme de 12 horas de duração para contar a história satisfatoriamente. Pode parecer exagero, mas vendo o resultado alcançado por Snyder, um pouco aquém do esperado, é provável que Gilliam estivesse certo no final das contas.

Watchmen se passa num mundo alternativo ao nosso, onde o surgimento de super-heróis fez com que a História mudasse. Aqui, Richard Nixon se elegeu presidente três vezes, e os Estados unidos venceram a guerra do Vietnã, graças ao surgimento do super-herói Dr. Manhattan (o único na história realmente dotado de superpoderes). Após o assassinato de um dos vigilantes mascarados, se inicia uma investigação que revelará uma conspiração que irá abalar o mundo.

A HQ ficou famosa por tratar a vida dos super-heróis com um realismo inédito até então. Com a recente onda de adaptações de quadrinhos para o cinema, era questão de tempo até que a obra criada por Alan Moore e Dave Gibbons chegasse aos cinemas. Entretanto, uma série de fatores prejudicou sua transposição para a tela grande. Primeiro: a duração do filme. A HQ original era composta de 12 edições, e o roteiro era bem denso, com várias subtramas e conceitos complexos misturados ao enredo. Com o intuito de seguir fielmente a obra original, Snyder dirigiu um filme de quatro horas de duração, e fez de tudo para que esta versão chegasse aos cinemas. Entretanto, os executivos da Warner acharam que uma produção tão longa afugentaria as platéias, e o diretor teve que editar seu filme até chegar à mais ou menos duas horas e meia. É esta versão que chegará aos cinemas do mundo todo.

Não há como ter certeza disto ainda, mas os cortes provavelmente prejudicam o entendimento do filme para quem não leu a HQ. Muitos elementos são apresentados apressadamente, e alguns personagens (como os dois Corujas) não são muito bem desenvolvidos. O contexto histórico do filme também pode confundir um pouco, já que ele se passa em 1985, e numa realidade alternativa. O final também foi um pouco alterado, o que pode desagradar especificamente os fãs mais xiitas da HQ (embora a idéia geral tenha sido mantida). A fidelidade dos produtores, no entanto, foi grande: dos incríveis cenários, passando pela caracterização dos personagens e pelo ótimos diálogos, tudo foi praticamente “xerocado” da obra original. Ou seja, aquilo que o diretor conseguiu salvar da “tesoura” dos executivos da Warner, está idêntico ao gibi – até as capas ele conseguiu reproduzir nas cenas-chave da trama! Tudo isso gerou uma sensação estranha: quem leu o gibi não ficará decepcionado com o filme, mas saberá que poderia ser melhor; quem não leu vai penar um pouco para entender. Isso sim poderá afugentar as platéias mundo afora, e talvez Watchmen tenha uma recepção morna por parte do público.

Quanto à performance dos atores, a qualidade é variada. Jeffrey Dean Morgan e Jackie Earle Hailey estão espetaculares como o Comediante e Roscharch, respectivamente. Eles realmente trouxeram vida aos personagens mais controversos do filme. Já a primeira Espectral (interpretada por Carla Gugino) é meio canastrona, principalmente quando aparece idosa. É verdade que a maquiagem não ajuda muito, e ela acaba se assemelhando a uma pin-up que alega ter 60 anos (aparentando menos)! Bill Cudrup está muito bem na pele do Dr. Manhattan. A bela Malin Akerman também interpreta a segunda Espectral a contento.

Chega-se à conclusão de que Zack Snyder fez um bom trabalho, no geral, ao levar Watchmen às telonas, embora tenha algumas cenas gore que sejam totalmente dispensáveis (nada contra cenas gore, mas fora do contexto só distrai a atenção do que é mais importante no filme). Além do mais, alguns momentos de grande emoção na HQ perderam o impacto no cinema, e não há versão mais longa que conserte isso. embora só iremos saber se Watchmen ficará na história como uma grande adaptação de quadrinhos quando for lançado o DVD, com a versão definitiva do filme.

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Watchmen (EUA, 2009). Ação/Aventura. Warner/Paramount.
Direção: Zack Snyder.
Elenco: Billy Cudrup, Matthew Goode, Patrick Wilson

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