CRÍTICA: Watchmen (II)

Ação
// 07/03/2009

Estreou hoje mundialmente a adaptação da mais celebrada HQ de todos os tempos, Watchmen – O Filme. Dividindo opiniões de fãs ao redor do planeta, o longa mostrou que algumas histórias, apesar de complexas quanto a seu enredo e sua apresentação, podem ser transportadas para outras formas de arte quando em mãos seguras.

Watchmen
Por Breno Ribeiro – crítico e colunista

É difícil encontrar blockbusters que, em sua gana de arrecadar dinheiro em bilheterias, não se deixem levar pelo excesso de efeitos. Eles são bem vindos e devem ser aplaudidos se feitos de forma crível e em favor da história do longa. Entretanto, como dito acima, muitos diretores se esquecem de que eles, os efeitos, não são mais importantes do que ela, a história. Assim sendo, é extremamente gratificante encontrar um filme que consiga ao mesmo tempo juntar grandes efeitos e uma densa e séria narrativa, como no recém-estreado Watchmen.

A trama, ambientada em uma Nova York (sempre ela) alternativa que, em meados dos anos 80, vive às vésperas de uma Terceira Guerra Mundial entre os EUA e a antiga URSS, gira em torno das investigações de Rorschach após o assassinato de Comediante, ambos ex-integrantes do grupo extinto grupo de super-heróis Watchmen. Quando Rorschach começa a acreditar que há alguém com intenção de matar todos os ex-mascarados, ele não medirá esforços para alertar seus companheiros da ameaça e livrá-los dela, seja qual/quem for.

A direção “visionária” (um adjetivo forçado e usado em excesso nas campanhas de divulgação do filme) de Zack Snyder é, apesar de tudo, agradável. Raramente soando épicas ou fora da realidade (como no último filme do diretor, 300), as tomadas do diretor surpreendem pelo apuramento de detalhes, como na cena em que Laurie e Dan lutam contra bandidos em um beco, ou nas cenas de flashback de Rorschach. Seus famosos, e temidos, slow-motions estão lá em quantidade aceitável, mas em qualidade duvidosa, uma vez que poucos deles são usados com objetivos certos, ao passo que a maioria soa apenas como um agrado do diretor a si mesmo.

Adaptado da HQ de mesmo nome de Alan Moore, o roteiro foi considerado durante anos “infilmável” devido sua complexidade e sua imensa gama de histórias paralelas sem as quais todo sentido seria perdido. Apesar de todos os empecilhos que a obra original cria, o roteirista Alex Tse faz um trabalho exemplar ao conseguir condensar nada menos do que 12 edições dos quadrinhos em apenas duas e meia de filme (resultado de um trabalho também exemplar da equipe de edição, uma vez que Snyder revelou ter gravado mais de uma hora mais) sem fazê-lo perder o ritmo ou sem torná-lo sem-explicações demais. Todas as principais tramas estão lá. Obviamente muitas partes da HQ foram deixadas de lado, mas nada que faça o longa perder sua fluidez e sentido. Fluidez e sentido mantidos sempre, ainda que o projeto faça largo uso de flashbacks ou cenas intercortadas. O final “trocado”, aliás, apesar de não ter tido a simpatia de muitos fãs de Moore, ainda possui o impacto e a função do original e funciona melhor dentro daquilo que o longa se propõe.

As atuações, aliás, são o ponto mais irregular do filme. Contando com atuações intrigantes e, por vezes, excelentes de Jackie Earle Haley (Rorschach), Jeffrey Dean Morgan (Comediante) e Billy Crudup (em seus poucos minutos ‘reais’ em tela, como Jon Osterman, posteriormente Dr. Manhattan), passando por atuações insossas, mas ainda na divisa entre o aceitável e o execrável, como a de Patrick Wilson (Coruja) e chegando, finalmente, ao fundo do poço com atuações secas e desprovidas de leves esforços para convencer o público de qualquer sentimento que não a indiferença, como Malin Akerman (Espectral II) e o horroroso Matthew Goode (Ozymandias). Ainda nos aspectos de maior deficiência do filme, encontra-se a seleção musical do mesmo. Excluindo-se “Hallelujah” que, apesar de não condizer necessariamente com o momento em que aparece, consegue soar como um leve escape cômico, graças ao contexto no qual é inserida, nenhuma outra canção do longa consegue ser ao menos aceitável. Não que elas sejam ruins, apenas contrastam e muito com as cenas nas quais são ouvidas.

Apesar de considerado um fracasso antes mesmo de ter seu roteiro finalizado, Watchmen é, como dito no primeiro parágrafo desta crítica, um deleite, se comparado a maioria dos últimos blockbusters dos últimos anos. Ele ainda consegue, assim como Batman – O Cavaleiro das Trevas, embora com menos intensidade, a proeza de narrar uma história de super-heróis (um termo que vinha, ou ainda vem, sendo cada vez mais estigmatizado como sinônimo de “grandes efeitos e nenhuma história”) vivendo em um mundo real, convivendo com um perigo real e focados em aspectos cada vez mais obscuros da vida da sociedade ocidental hoje em dia.

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Watchmen (EUA, 2009). Ação/Aventura. Warner/Paramount.
Direção: Zack Snyder.
Elenco: Billy Cudrup, Matthew Goode, Patrick Wilson

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