CRÍTICA | X-Men: Apocalipse

Ação
// 20/05/2016
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Diz-se que o correto é se dirigir à sala de cinema deixando a expectativa (seja para o bem ou para o mal) do lado de fora. Mas ao considerarmos o histórico de Bryan Singer na série X-Men, era inevitável colocar um peso no primeiro grande embate dos mutantes no Cinema com um inimigo absoluto. O resultado de X-Men: Apocalipse quase nos faz, assim, nos prestarmos a dividirmos certa parte da culpa pelo parcial descontentamento.

Trazer para um universo construído com um pé na ciência, na realidade, um personagem de ares fantásticos e divinos não é tarefa fácil, mas a Fox quase teve êxito. Infelizmente, fica só no “quase” mesmo. Com a complicada missão de dar continuidade aos excelentes X-Men: Primeira Classe e X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, X-Men: Apocalipse chega prometendo o fim do mundo, mas falha em passar para o público o senso de apreensão e urgência que tamanha ameaça demanda.

A trama começa no Egito Antigo apresentando todo o poder e influência de En Sabah Nur (Oscar Isaac, fantástico no olhar, mas prejudicado pela pesada maquiagem e figurino, que são excessivamente caricatos e pouco servem à atuação), o vilão da vez. Considerado o primeiro mutante do mundo e até mesmo um deus para alguns, incluindo ele próprio, Apocalipse, que tem o poder de absorver e/ou amplificar os poderes de outros mutantes, está sempre acompanhado de quatro cavaleiros a quem ele fortalece para que lutem a seu lado. É durante uma cerimônia com ares de misticismo – e que pode facilmente ser interpretada como ritual mágico por uns e outros – que ele é traído e cai de seu apogeu para um sono milenar.

Daí a narrativa avança para 1983, mostrando o que cada personagem tem feito desde os acontecimentos do filme anterior e apresentando os rostos novos. Jean Grey (Sophie Turner), Ciclope (Tye Sheridan) e Noturno (Kodi Smit-McPhee) funcionam muito bem. Mercúrio (Evan Peters), mais uma vez, rouba os holofotes, mas fica um incômodo em sua já aguardada cena em câmera lenta: ela parece se esticar mais que o necessário e tem pitadas de humor que não caem bem no contexto. Soa como uma desculpa para usar e abusar de efeitos especiais – que são excessivos e pouco acrescentam ao desenvolvimento da história.

Por outro lado, há personagens que mereciam mais destaque, mas foram mal aproveitados. Jubileu (Lana Condor) não é muito mais que um easter egg – uma condição chata que se mantém desde a trilogia dos anos 2000 – e Anjo (Ben Hardy) também não vai muito além. Psylocke (a estupenda Olivia Munn) então, nem se fala. É o no mínimo decepcionante ver uma atriz tão boa quanto Munn ser limitada a tão pouca ação e diálogos. O melhor dela já está nos trailers. E por falar nisso, a aparição de Wolverine (o incomparável Hugh Jackman) podia ser uma grata surpresa se não tivesse sido anunciada nos vídeos promocionais. O arco de Charles Xavier (James McAvoy, excepcional) é interessante e se desenvolve de forma convincente, aproveitando bem seu relacionamento com Moira McTarget (Rose Byrne). A história de Magneto (o sensacional Michael Fassbender) começa bem e emocionando bastante, mas se encerra deixando a desejar. Pelo menos o roteiro se vale da habilidade de Fassbender com idiomas. Mística (Jennifer Lawrence), lidando com o fato de ser agora uma heroína para mutantes e humanos, e Fera (Nicholas Hoult), por outro lado, parecem só estar ali para enfeitar a tela. São úteis, sim, mas poderiam facilmente ser substituídos. Não deixam sua marca.

O despertar de Apocalipse de seu sono é por um motivo fraco que soa como preguiça de pensar em algo mais elaborado, subestimando a inteligência do público. Contudo, recruta seus quatro novos cavaleiros, Tempestade (Alexandra Shipp), Psylocke, Anjo e Magneto de um jeito interessante: domina-os através da liberdade, maximizando seus poderes. Vilão na forma mais clássica da palavra, ele não gosta do mundo que encontra centenas de anos depois da queda de seu império e resolve destruí-lo para construir um novo, que se enquadre em seus ideais mal desenvolvidos.

É no terceiro ato que a obra desanda. Há pressa para jogar na tela um monte de informações e a direção de Bryan Singer perde a mão ao apressar o que deveria ser trabalhado com mais paciência e alongar o descartável. Talvez devesse existir um outro filme dos X-Men antes de Apocalipse para que certos eventos fossem melhor justificados e até causassem um impacto maior na trama e nas emoções de quem assiste. O final, entretanto, consegue empolgar, mesmo que de um jeito bastante clichê.

Apesar dos tropeços, Apocalipse agrada, mas sai prejudicado por sua previsibilidade e desperdício de personagens. Pela inegável grandiosidade dos X-Men como ícones da cultura pop, com um lugar especial no coração de gerações de fãs, é triste o quanto o filme poderia ter sido melhor. É o tipo de produção que deixa o mesmo gosto meio amargo na boca de um prato mal avaliado pelos jurados do MasterChef: uma excelente ideia, mas que não foi tão bem executada.


X-Men: Apocalypse (EUA, 2016). Ação. 20th Century Fox.
Direção: Bryan Singer
Elenco: Oscar Isaac, Jennifer Lawrence, James McAvoy, Michael Fassbender

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