Desenrola: Conversamos com a diretora e o elenco

Comédia
// 13/01/2011

Se um filme tem como temática a adolescência, nada mais justo do que fazer dos adolescentes o ponto de partida para sua criação. Desenrola, que estreia amanhã, seguiu esse plano com a grande sacada de manter a participação ativa deles durante o desenvolvimento de seu roteiro – estrutura de sustentação de qualquer produção cinematográfica. No bate-papo que nós tivemos com a diretora Rosane Svartman e o elenco no Rio de Janeiro para a divulgação do longa, pudemos perceber que o maior mérito de Desenrola, a naturalidade, se efetivou graças a uma preocupação que sempre foi encarada como a mais importante: verossimilhança com o universo dos jovens.

Leia o bate-papo e saiba mais sobre Desenrola clicando em “Ver Completo”. Para ler a nossa crítica do filme, publicada ontem, clique aqui.

Foto: Felipe Tostes

Desenrola
Bate-papo com a diretora Rosane Svartman e elenco

por Arthur Melo

Simpaticíssima e muito bem humorada (o que já explica os elogios que o elenco adolescente fez à diretora em um outro momento do dia), Rosane não se limitou a explicações rasas. Desde a elaboração do roteiro até a estruturação técnica, a diretora não poupou explicações e exemplos de como tudo chegou ao produto final.

O Roteiro e a técnica

Para a dupla de roteiristas Rosane Svartman e Juliana Lins, nada dentro da trama poderia fugir do momento exato em que as crianças estão se tornando adultas. A primeira relação sexual é evidentemente o foco de ataque, o que não deveria significar que a título de enriquecimento deste elemento em especial da adolescência os outros deveriam ser diminuídos ou artificializados. A ideia é simples, porém muito coerente: o filme basicamente se destina a um público que deverá reconhecer-se na telona. Para que isso ocorra sem deixar um sabor enjoativo, as caricaturas e estereótipos devem sumir. Afinal, todo adolescente sabe o que é ser um e, portanto, exageros para tornar as nuances desse grupo mais nítidas são totalmente desnecessárias. O publico saberá – e deverá – enxergar as suas características no filme, mesmo que elas estejam ali apenas como meras coadjuvantes.

Para que o roteiro não fugisse do controle e certas gafes não fossem cometidas por Rosane e Juliana, as duas tiveram a primeira de um par de decisões acerca do roteiro já em fase inicial de sua escrita. Para copiar e colar o círculo social no qual a estória iria se passar, as duas se deram ao trabalho cansativo (e, para alguns, assustador) de visitar diversos colégios com o intuito de observar certas nuances das inter-relações do grupo. Outra ideia das autoras foi solicitar a colaboração de professores (como o feito em um dos colégios Pedro II, no Rio) para que trechos do roteiro fossem lidos e interpretados dentro da sala de aula, numa busca por informações e opiniões valiosas que pudessem incrementar ou acusar escorregões no texto dos personagens ou no roteiro. Deu certo. Muito foi inserido, retirado, alterado. O resultado foi tão rico e positivo que ao final da experiência as duas já tinham material mais do que suficiente para completar o roteiro.

A segunda ideia produtiva, e nesta talvez Rosane tenha tido mais influência, foi a permissividade dada ao elenco jovem para opinar e até mesmo alterar no momento de filmagem. O que soava estranho ou que já tivesse caído em desuso era retirado ou substituído por algum fato mais recente. O que os atores, praticamente incorporados em seus personagens, achavam que faltava para seus personagens podia ser inserido. Foi assim que Kayky Brito, que já não é mais adolescente, foi escalado. Ao perguntar para as adolescentes, Rosane sempre tinha como resposta para o personagem Rafa o Kayky. “Quem sou eu pra dizer que não, então? Vamos tentar chamar o Kayky”, contou Rosane. “Mas não poderia ser como era antes. Tivemos que reescrevê-lo, eu não queria um adulto fazendo papel de adolescente, mesmo que ele não aparentasse tanta idade além assim. Transformamos o Rafa em um estudante de faculdade que na verdade era irmão de outra personagem, a Tize, para que desse a ele algum motivo para estar passando pela escola de vez em quando.”

Um dos atrativos de Desenrola é a sua estética. Não é comum em produções nacionais, ainda mais de baixo orçamento, um cuidado tão grande com a cenografia e a fotografia.

“O que acontece é que eu trabalhei com pessoas muito perfeccionistas, e isso é maravilhoso” – conta Rosane. “A Fabiana sempre se preocupava em me perguntar ‘olha, você não vai filmar daquele lado, não, né?’, porque, claro, nós não tínhamos como construir cenários completos, só aqueles espaços em que haveriam atores em cena”. Isto deu margem para que Fabiana Egrejas, a diretora de arte, pudesse explorar cada trecho em específico dos cenários, que carregavam – todos eles – marcas da história do passado de seus personagens, algo que Svartman e Juliana se divertiam criando, mesmo que aquilo não fosse colocado no texto. Fabiana criou ambientes coloridos, mas não supersaturados, que ganhavam um peso mais ameno com a bela fotografia de Duda Miranda que teve nas cenas de Búzios os seus melhores resultados.

“Nós deixamos uma câmera com película na mão do Duda pra que ele pudesse sair filmado coisas aleatórias, que não iriam para o filme”, explicou Rosane. O exercício permitiu que Duda se acostumasse aos ambientes e elaborasse com mais acerto os planos para execução de seu trabalho.

O Elenco

Em cena, a interação entre os jovens é espontânea. Não é à toa. O que se vê em Desenrola é um misto de profissionalismo e novidade para o elenco. Olívia Torres, que interpreta a protagonista Priscilla, faz teatro desde os seis anos de idade e muito de seu gosto pela arte é uma influência positiva da mãe, que sempre lhe sugeriu obras de autores como Shakespeare. Juliana Paiva também faz teatro desde os oito anos e, assim como Olívia, fez sua primeira participação no cinema em Desenrola. Ambas já ingressaram na Globo. A primeira está na atual temporada de Malhação, a segunda, na novela das 19 horas, Ti-ti-ti.

Em Desenrola, Olívia e Juliana dão um banho de naturalidade. Olívia, talvez, torne isso mais perceptível por conta de sua carga no longa, mas Juliana também tem suas oportunidades de provar que foge tanto do overacting quanto Olívia. Em uma cena, Tize, personagem de Juliana, chora sozinha no reservado do banheiro da escola; sem interação com nenhum outro ator ou qualquer impulsão dramática em cena anterior, apenas com o conhecimento em mãos do que a personagem tem a revelar.

Durante a conversa, as duas revelaram que a carga emocional necessária para tornar crível o que as personagens passam em Desenrola veio de um problema semelhante passado por uma de suas companheiras de set. O envolvimento entre elas foi tão forte que Juliana foi capaz de arrancar um “eu não gostei disto no filme, porque me vi ali” da pessoa em questão (que obviamente não foi revelada).

Mas a graça mesmo – no sentido literal da palavra – fica com Boca e Amaral (este último principalmente). Boca é o gordinho (mais ou menos, mas ainda assim) do grupo, melhor amigo de Amaral, o “desvirginado” pela tia misteriosa de segundo grau do interior de Minas Gerais e nunca vista (algo que aparentemente lhe dá munição para caçoar de Boca em alguns momentos). Lucas Salles e Victor Thiré, seus respectivos representantes, já eram amigos antes. O que não lhes impediu de terem a mesma experiência de entrosamento com o restante do elenco jovem nos sets, que se conheceu ali mesmo.

Lucas e Victor são a princípio um claro alívio cômico. Victor, então, fica fora do comum. Tanto no filme quanto na entrevista, os dois fazem brincadeiras um com o outro, contanto verdades inconvenientes ou dando certas cutucadas em assuntos que percorrem desde o real até coisas do próprio filme. Em uma das empreitadas, Lucas e Victor resolveram que seria uma excelente ideia aproveitar o intervalo de almoço das gravações em uma praia de Búzios para irem nadar. Mas só que “uma hora, pra adolescente, é muito tempo. Dá pra fazer muita ‘m’”, como bem disse Lucas. E lá foram os dois entrar na água com a roupa do figurino (1 ponto), cabelo e maquiagem prontos (2 pontos – tendo sido este meio constrangedor pra eles revelarem), sem forças por conta do almoço (3 pontos) e no fundo (4 pontos). Não deu outra. Em poucos minutos a profundidade os forçou a tentarem voltar. Eis que vêm, após o chamado de Victor, dois salva-vidas com uma prancha. Os salva-vidas também tinham acabado de almoçar e estavam em estado físico praticamente igual ao dos dois. O resultado da diversão foi um Lucas em choque, uma diretora assustadoramente sorridente (sem ironia) e um maquiador extremamente revoltado, proferindo a mais extensa ordem de palavrões por ter de começar todo o seu longo trabalho do zero.

Quando perguntados sobre o que pensam de este ser mais um filme que retrata fatos da adolescência e suas respectivas opiniões sobre como o público o aceitará e o porquê de Desenrola ter personagens com algo de interessante a oferecer, Lucas foi direto ao ponto: “bom, meu personagem dá uma reviravolta total e tenta conquistar a menina da única maneira normal que existe, que é não se transformar em lobisomem ou brilhar no Sol” (5 pontos).

Alerta de spoilers (os dois parágrafos a seguir incluem comentários sobre as últimas cenas do filme):

Uma curiosidade foi revelada por Rosane Svartman. A participação especial do vocalista do grupo Simple Mind nos créditos finais do filme foi garantida da mesma maneira com que a personagem Priscilla conseguiu na história: através do Skype. A produção tentou entrar em contato com o mesmo através do Skype e o próprio retornou, mostrando-se interessado em gravar a participação e já combinando um horário ideal para fazerem a captura.

Outra participação, desta vez nacional, foi entregue por Victor Thiré. Segundo ele, estavam todos no meio de um intervalo de gravação quando ele comentou com a diretora: “poxa, o Boca tem casa, tem a namorada, tem irmã, tem tudo. Eu nem casa tenho, só tenho esse celular que fica comigo. Pô, pelo menos a minha tal tia de Minas poderia ser… sei lá, uma Julian Paes”. A diretora olhou bem para Victor, pegou seu próprio celular e disse: “tudo bem”. Ela se virou, passou alguns minutos no telefone e voltou: “a Juliana topou. Ela vem amanhã gravar”, para o espanto de Victor e Lucas, que estava por perto. Juliana aproveitou um domingo em que não estava gravando a novela Caminho das Índias para dar uma passada nos sets e fazer sua participação.

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