Diesel e Carol Moreira | O assédio ainda é relativizado

Editorial
// 22/12/2016

Se tem algo bastante positivo que 2016 trouxe, foi um maior diálogo acerca do machismo. Mas essa conversa ainda está muito longe de alcançar seu objetivo, e isso a gente vê com bastante clareza na participação do público e em suas ideias manifestadas em centenas de caixas de comentários quando o tema é abordado em algum ambiente da internet. E nessa semana tivemos mais uma prova disso.

No início do mês, o ator Vin Diesel veio ao Brasil para promover xXx: Reativado (o novo filme da série Triplo X) na Comic-Con Experience, que rolou em São Paulo. Lá, dentro da ação promovida pela Universal, a youtuber e apresentadora do Warner Channel Carol Moreira teve a oportunidade ímpar de realizar uma entrevista de dez minutos com o astro. A surpresa veio na postura do ator, que interrompeu a conversa várias vezes para elogiar a beleza da entrevistadora e até para convidá-la para almoçar. Na introdução do vídeo (que você assiste completo acima), Carol dá seu depoimento acerca do ocorrido, cujo constrangimento proporcionado é visível através das várias tentativas da repórter em retomar o assunto (sempre da maneira mais profissional possível).

A definição do que acontece é bastante óbvia, ainda que para alguns não se caracterize como tal: assédio. E, ciente do quão relativizador o público pode ser (por já estarmos exaustos de tanto vermos isso acontecer), vamos expôr isso de uma maneira simples e literal. Segundo o dicionário Michaelis, o termo “assédio” pode ser definido como “a) insistência inoportuna com intenções sexuais; b) constrangimento em alguém com o intuito de obter favorecimento sexual, prevalecendo o agente de sua condição de superior hierárquico”. Vamos para o checklist?

– Insistência inoportuna com intenções sexuais: sim
– Constrangimento em alguém com o intuito de obter favorecimento sexual: sim
– Prevalecimento do agente (Diesel) por sua condição superior hierarquicamente: Diesel é um ator internacional com fama, fortuna e trabalho reconhecido mundialmente. Carol é uma youtuber e repórter brasileira que o entrevistava. Portanto, sim também.

Durante a entrevista, é evidente como Carol busca retomar o tópico da entrevista (motivo pelo qual ela estava ali) com a mesma insistência com que Diesel desvia o assunto. Nos comentários da publicação original no Youtube, entretanto, vemos pessoas relativizando a questão, sugerindo que a repórter, por estar sorrindo, estava até gostando. Alguns chegam ao cúmulo de dizer que Vin Diesel foi “até educado”, pois estava chamando-a de linda, e não de gostosa. A falta de empatia é clara. Outros, já preferiram acusar a repórter e youtuber de querer chamar atenção, ganhar curtidas, cliques, visualizações e lucrar com isso. Não é curioso, mas sim extraordinariamente absurdo como as pessoas conseguem ser limitadas em seu raciocínio e tão previsíveis. Em um texto publicado pela Érika Zemuner aqui no site sobre o caso de estupro nos bastidores de O Último Tango em Paris, há duas semanas, podemos encontrar o seguinte trecho, um dos mais fortes pilares argumentativos de toda essa questão:

Não é de hoje que sabemos que é necessário que uma mulher abusada tenha muita coragem para denunciar seu agressor. É comum que ela acabe como a megera que tem somente a intenção de acabar com a vida do homem, a piranha, a puta, a que pediu. Quando se trata de astros queridos e aclamados por Hollywood, a situação se agrava muito, pois nesses casos, além da mulher ser acusada de querer comprometer a reputação e a carreira do agressor, ela também é taxada como uma simples interesseira em busca de fama e dinheiro.

Mas é óbvio que Carol Moreira estava sorrindo. Como profissional, tentou guiar a situação com aparente leveza, buscando impedir que o constrangimento fosse maior e ainda atingisse em cheio o espectador (nessa parte, por não ser sobre-humana, ela claramente falhou – e não é culpa dela, mas de Vin Diesel). Carol tem cerca de 300 mil seguidores em sua conta no Youtube, seu espaço na TV por assinatura e foi a única personalidade da web a ter um momento com o astro hollywoodiano (o que já deixa bem óbvia sua posição). Por favor, ela não precisa chamar atenção. Ela já a tem. O que ela precisa, sim, é expor como situações desse tipo acontecem diariamente, em várias esferas profissionais, usando o seu exemplo. Precisa botar abaixo a blindagem que o raciocínio do público tem sobre famosos, que insiste em acreditar que suas estrelas tão admiradas representam na vida real os mesmos princípios (aí, sim, admiráveis) que seus personagens heroicos carregam.

“Mas que hipocrisia! Jason Momoa pediu pra ela sentar no colo dele e ela foi. E ainda fez streap-tease. Isso não é assédio? Ela só quer ganhar 15 minutinhos de fama”.

Na experiência com Momoa, Carol estava em um ambiente menos formal, um palco de uma convenção, em tom mais divertido e repleto de brincadeiras, de ambas as partes. Tanto Carol quanto Momoa já tinham cedido uma certa intimidade um para o outro. A repórter estava ali também como grande fã da série Game of Thrones. Portanto, aquela brincadeira ali faz sentido, sim. Já na entrevista, Carol e Diesel estão em um ambiente mais sério, longe do público, onde nada ali é feito pra divertir a plateia, mas sim apenas para cobrir um protocolo: a entrevista (perguntas e respostas). Logo, não se espera que ali, no meio de uma ação estritamente profissional, o Vin Diesel gaste o tempo limitado de ambos para tentar ganhar um lucro pessoal. Não cabe ali esse tipo situação. Quer sair com a Carol? Achou ela bonita? Beleza! Conversa com ela antes ou depois da entrevista, não durante, expondo-a e deixando-a constrangida.

Agora, vamos observar outro ponto, certo? Se a Carol estivesse louca para ganhar o coração do Jason Momoa, ela obrigatoriamente tem que estar aberta para todos os homens? Que comparação idiota e objetificadora é essa? Que raciocínio deturpado e errado! O maior problema não foi Vin Diesel ter cantado a repórter (o que já é uma falta de profissionalismo ímpar), mas ter insistido quando ela claramente não estava interessada. Isso é assédio.

Se você paquera alguém, esse alguém tem o direito de retribuir ou rejeitar. E se retribuir, não quer dizer que tal pessoa é obrigada a agir da mesma forma para qualquer sujeito que a paquere. Isso se chama respeito, noção de espaço, sociedade e convivência. Carol tem total direito de rejeitar os floreios de Vin Diesel e, a partir daí, ele tem o total dever de não insistir e voltar ao motivo pelo qual ambos estavam ali: uma entrevista sobre sua carreira.

“Ah, mas engraçado que ela postou uma foto no Instagram com o assediador”.

Vamos lá: nesse tipo de trabalho, combina-se algumas pautas, algumas interações: entrevista, post, publipost, fotos no Instagram, tuítes. Como profissional, Carol já teria que fazer a publicação na rede social de qualquer forma, uma vez que a ação muito provavelmente já estava agendada e combinada entre ela e o estúdio para a grade de marketing. Postar foto fazendo cara feia é que ela não iria, não é mesmo? Porque, como já mencionamos, existiu nela um profissionalismo que não se viu no entrevistado.

Carol não é um caso isolado. É um caso que, graças ao seu poder na web, ganha mais repercussão. E isso é extremamente importante. Expor seu desapontamento com o entrevistado e ser verdadeira com o sentimento vivido são uma atitude louvável e corajosa (afinal, é uma nova exposição a que a youtuber se submete – ainda mais considerando que estamos lidando com um ator internacional tutelado por um grande estúdio com representação também no Brasil), que dá mais força para que outras mulheres se empoderem. Daí, quem sabe, essas mulheres possam colocar o machismo em seu devido lugar (o da vergonha) e nos proporcionem mais vídeos maravilhosos como esse aqui, que representa tudo o que a Carol apontou em sua situação e quão babacas os homens podemos ser.

E se você acha que tudo não passa de mimimi, de vontade de aparecer ou que “tudo agora é machismo”, que tal dar uma olhada na maneira como grandes veículos de imprensa do mundo inteiro estão criticando a postura de Vin Diesel? Só clicar aqui.

Puxa vida, mas ainda assim você não se deu por vencido? Temos um outro olhar sobre a situação. O link é aqui.

Como “bonus track”, fica esse vídeo do Bernardo Fala que, quando assisti, mal sabia que 5 minutos depois iria sentir exatamente o que ele explica, ao ver a entrevista do Vin Diesel para a Carol Moreira.

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