CRÍTICA: Hancock

Ação
// 04/07/2008

Sabe quando um filme poderia ser muito bem um curta-metragem dada a falta de história do mesmo, mas alguém vai lá e enrola o roteiro todo pra ele ficar com pelo menos uma hora e meia? Então, isso não acontece em Hancock. O filme não possui história suficiente para durar tempo bastante pra ser um longa, mas os roteiristas não enrolam o roteiro colocando cenas soltas ou subtramas sem sentido. Por outro lado, eles criam duas histórias sobre a mesma pessoa tentando, de alguma forma não-aparente, unir as duas num filme só. Seria como pegar “Matrix” 1 e 2 e juntar, com a diferença básica de que ambos possuem por si só uma história coesa e bem montada.

Hancock
por Breno Ribeiro

Começando com a história de um herói bêbado (me recuso a usar o “beberrão” das sinopses) e impopular à procura de uma espécie de redenção e terminando com a história de casais extraterrestres que não podem ficar perto um dos outros, “Hancock” só consegue ser no mínimo assistível na primeira metade da projeção, altamente voltada para uma história de redenção que, mesmo não atraindo muito, se mostra coerente até um determinado momento.

O roteiro, aliás, é um show à parte. Além da virada fenomenal na trama para chegar a lugar nenhum, o mesmo traz vários furos e repetições sem sentido. Um dos furos pode ser descrito nas cenas finais do filme, onde a personagem da Charlize Theron aparentemente também sente as dores sofridas por Hancock, quando este não sentiu as dores sofridas por ela minutos antes. E uma das repetições mais estúpidas do filme é o fato de Hancock ficar com raiva sempre que o chamam de “idiota”, algo completamente sem sentido para alguém com mais de 10 anos mentais.

Aliás, grande parte das ações do “herói” não condizem com a sua vasta idade etária (visto que a mental estacionou na adolescência). Primeiro por fingir uma postura adulta de “não ligo pro que os outros pensam” no começo do filme e por se negar a fazer coisas que são, obviamente, benéficas tanto a eles quanto a terceiros. A visão totalmente egocêntrica de Hancock o torna um personagem totalmente não-passível da simpatia do telespectador, a não ser quando ele solta uma de suas piadas. Por falar nisso, o humor do filme é algo realmente singular. Pendendo entre o quase-cômico e o humor de mau gosto, o texto escorrega várias vezes ao tentar quadros humorísticos de uma maneira forçada e quase sempre sem graça nenhuma.

Sem graça também é o alto grau de previsibilidade do filme. O diretor Peter Berg focaliza a câmera na cara (sempre tensa, aliás) de Charlize Theron, apontando para o fato óbvio de que ela esconde algum mistério e quando o mistério é revelado todo mundo já sabe do que se trata (aliás, ouvi vários “Já sabia” no cinema quando a cena ocorre, na metade final do filme).

As atuações são outro ponto interessante. Charlize Theron (como alguém que ganha um Oscar de Melhor Atriz se presta a isso?) e Jason Bateman até convencem em seus papéis rasos, mas o uso excessivos de bicos por Will Smith torna a figura do herói bêbado ainda mais caricatural do que de fato já é.

Em suma, “Hancock” é o típico filme que começa razoavelmente interessante (porque bom mesmo não é em momento nenhum) e entra num declive abismal sem fim a partir da metade da projeção, terminando de maneira superficial, previsível e tendo tanto sentido quanto um desfile de moda sem apresentação de roupas.

*Embora eu não me lembre, no momento, de nenhum erro, é notável o declive também no qual entrou a legendagem dos filmes atuais. Além dos já famosos erros de tradução em si, as legendas agora contém erros absurdos de coesão no próprio português. Lamentável.


Hancock (EUA, 2008). Ação. Sony Pictures
Direção: peter Berg
Elenco: Will Smith, Charlize Theron, Jason Bateman, Michael Mann

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Categorias
Ação, Comédia, Críticas