CRÍTICA: Homem de Ferro

Ação
// 30/04/2008

Vamos ver se você é capaz de adivinhar: um homem humanamente comum sofre uma modificação por obra do acaso ou devido à ciência. Seu corpo, seus hábitos e sua personalidade se adaptam a esta transformação para melhor guiar os poderes. As relações sociais mudam e aquela mulher que sempre esteve por perto se transforma numa paixão (isso se já não era um assunto mal resolvido no passado). Seu propósito agora é ajudar os outros e se esquivar daquele que, até pouco tempo, andava ao seu lado. O número de possibilidades de títulos que podem ser relacionados a esta descrição é n fatorial. Contudo, Homem de Ferro não se perde nestes atentados e propõe alguma mudança – ainda que acrescente pouco.

Homem de Ferro
por Arthur Melo

A trama é simples e linear. Tony Stark é um magnata das indústrias bélicas que, após ser sequestrado no Vietnã durante um teste de um de seus produtos, questiona a influência das armas criadas por sua própria compania, tentando pôr um fim na produção. Entretanto se vê obrigado a enfrentar a ferro e fogo (literalmente) os interesses comerciais da empresa. Partindo desta sinopse resumida, a platéia já tem mais do que o suficiente para encarar o longa. Afinal, o que torna Tony Stark o homem sob o nome do título é uma criação simples e suficiente da história, inserida com uma qualidade bem medida que ganha o espectador e o convence a permanecer diante da tela – o que não quer dizer que esta decisão não possa vir a ser questionada em alguns momentos da projeção.

Cercado de clichês e piadas de bom gosto em algumas ocasiões, o roteiro oscila. Há momentos de pura distração e energia, com elementos vivos que são a base para qualquer blockbuster despretencioso em seu conteúdo; mas, ainda assim, limita-se. A história tem tão poucas e raras surpresas que a última delas exala uma dúvida ao não poder definir-se como originalidade ou um conta-pontos na criação dos personagens centrais. Por sorte, o filme ganharia qualquer que fosse a resposta do impasse. Tony Stark é mulherengo, caricato e divertido, mesclando sem falhas sua arrogância e prepotência com a honestidade pedida para um herói sem soar desconortável ou forçado. Resultado de um trabalho em conjuto de Downey Jr. e daqueles que o puseram nesta posição. Talvez tenha sido este o ponto de fusão do personagem com Gwyneth Paltrow e sua interpretada Virginia “Pepper” Potts: o equilíbrio. A química na tela se dá pelo contraste de personalidade dos protagonistas. Paltrow é sutil, discreta e perspicaz em toda a soma de minutos em que se apresenta e, em alguns casos, ganha a capacidade de esquecermos, contudo, que não está dando o melhor de si.

Seja por incoerência na relação talento/aproveitamento ou na falta de tato para explorar o melhor do elenco, o diretor Jon Favreau não atingiu o ápice no filme. Pelo menos não nesses aspectos. A técnica é invejável com grandes alcances. Bons exemplos estão nos efeitos sonoros da seqüência inicial do filme, ou no desenho de produção do traje de metal vermelho e dourado que cobre todo o corpo de Stark numa cena de montagem muito bem dirigida e que mais parece fazer alusão às mil dobras e envergaduras do maquinário dos robôs de Transformers.

Apesar de Jon Favreau já ter se mostrado competente em elaborar efeitos visuais com pouco orçamento (como o visto em Zathura) complementados por bons ângulos, tal aproveitamento não se aplica sempre em Homem de Ferro. O clímax é de uma falta de coordenação agressiva quando o auge da pancadaria é atingido, dando brechas para reflexões quanto aos motivos de não ter repetido a destreza e habilidade exibidas dignamente na caçada aérea com os F22 ou na primeira boa ação em favor dos oprimidos. Esta última, apesar de simplória, é de boa satisfação.

Originado dos quadrinhos ou marca registrada hollywoodiana (seja em filmes de heróis ou não), o protagonista aprende com os erros frutos da inexperiência. Nada mais desejoso, por parte de um roteiro pouco colaborador; poupa-se trabalho. Se for uma carta guardada para uma possível continuação – a criatividade – menos mal; até faz por onde merecer uma, apesar das avarias. Entretenimento por entretenimento, o longa está longe de fazer feio. É absolutamente superior a uma vasta seleção de produções cabreiras que só não podem ser comentadas por deixarem a desejar porque jamais ameaçaram aflorar algum ânimo. Tony Stark obedeceu bem o que lhe foi deterinado. Sua composição não nos deve nada e sua armadura blindada o acompanha no êxito. Aliás, o filme só derrapa naquilo que nunca prometeu agradar, o que não deixa de ser um ganho. De certa forma, atende às expectativas. Resta saber se o futuro do personagem reserva algo mais digno e proporcional.

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Iron Man (EUA, 2008). Ação. Paramount Pictures.
Direção: Jon Fraveau
Elenco: Robert Downey Jr. Jeff Bridges,  Gwyneth Paltrow

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