CRÍTICA: Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal

Aventura
// 23/05/2008

Alguns filmes merecem ter continuações, outros merecem continuar únicos e intocáveis. Está certo que Indiana Jones desde sempre foi uma série cinematográfica, mas isto não significa que seus episódios devem se infindar ao longo do tempo. Foi este o raciocínio que George Lucas e Steven Spielberg não tiveram – e, ao que tudo indica, permanecem no mesmo estágio dealienação. A proposta inicial, desenterrar do passado o maior nome da aventura de todos os tempos, se estabelece, mas não com a mesma roupagem.

Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal
por Arthur Melo

Misturando características de “filme B” com critérios de super-produção, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal parece tentar se sustentar a todo momento naquilo que a aventura jamais foi: inútil. A história se perde em muitas explicações que, apesar de serem a parte mais inteligente do filme, não se relacionam com a verossimilhança de Indiana. O contexto alienígena que Spielberg tanto gosta foi o suficiente para afastar quase que por completo o quarto episódio dos demais.

Deixando os avanços tecnológicos em evidência (que se fazem presentes mais pelas possibilidades atuais do que pela competência),O Reino da Caveira de Cristal não inova em sentido algum. Os efeitos visuais são majestosos na hora de construir cenários e algumas seqüências do início e do final do filme e se tornam, às vezes, o único atrativo numa produção que tão pouco deveria utilizá-los. Entretanto, a habilidade da direção para elaborar cenas de fuga e luta não pode ser alvo de protestos. Tampouco o elenco que participa das mesmas.

Superando expectativas, Harrison Ford, de fato, detém o nome de seu personagem no bolso. Apesar da idade, Ford realiza manobras e movimentos que nem Shia LaBeouf (mais rápido, porém menos talentoso do que em ) se arrisca a tentar; no filme da franquia que utilizou menos o dublê e mais a capacidade até agora. Sua boa forma, aliás, não é vista apenas no caráter físico. Henry Jones Júnior se mantém vivo em sua carcaça; impresso em cada detalhe da atuação de Ford, numa presença de cena que domina o espaço e desfaz qualquer necessidade de coadjuvantes ou, quem sabe, sucessores.

Se o filme apresentou algum valor positivo, foi em suas escolhas. A que mereça mais destaque, Cate Blanchett, convence como sua primeira grande vilã na maior parte da trama, mas escorrega em momentos importantes; nada que diminua seu valor no filme, claro. Mas quando somada aos outros deslizes que o elenco como um todo comete (como a carga exclusa do espontâneo de Karen Allen, a Marion) se torna uma grande ausência daquilo que poderia ser o diferencial do longa. Uma fórmula que, a princípio, possui os ingredientes para funcionar, mas que por fim funciona apenas como um atalho para mais uma vez nos apegarmos aos atributos técnicos.

Apesar do grande exemplo inserido do que um péssimo roteiro pode causar (sem mencionar o valor denegrido que a série adquiriu agora), Steven Spielberg procura contornar a situação impondo suas marcas e seus lugares comuns que sempre funcionaram. O trabalho com a fotografia e a azulação no brilho dos focos de iluminação artificial – um detalhe simples, porém perceptível -, a preferência por enquadramentos panorâmicos e algumas tomadas curtas não escondem a fragilidade do todo. Nem mesmo a trilha sonora de John Williams se mostrou capaz e revigorante, se insinuando como a característica mais flutuante do filme.

Reprises gerais, previsões e citações de outras produções são os retalhos de um tecido mal costurado que, ainda que mantenha alguma suavidade, não está na medida. Se há algum interesse em prolongar a existência do Dtr. Jones, que este seja feito com mais escrúpulos e. Aliás, o próprio enredo – submerso em controvérsias – deixa claro que o lugar de Harrison ainda não está vago. Só resta acreditar que seu sucessor espere pacientemente para herdar o chicote e o chapéu. Henry Jones ainda tem um nome a ser limpo.

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull (EUA, 2008). Aventura. Paramount Pictures.
Direção: Steven Spielberg
Elenco: John Hurt, Karen Allen, Shia LaBeouf, Ray Winstone, Cate Blanchett, Jim Broadbent e Harrison Ford

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